A lenda de João Ramalho
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(Do livro "Aconteceu no Velho São Paulo", de
Raimundo de Menezes, Coleção Saraiva, 1954)
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Quem era Ramalho

   Quando Martin Afonso de Sousa aportou a São Vicente, pelas alturas de 1532, foi recebido, para sua surpresa, por dois patrícios que aqui já se encontravam, havia longo tempo: Antônio Rodrigues e João Ramalho. De Antônio Rodrigues, muito pouco se conhece. Apenas que se casara com uma filha de Piquerobi, o cacique de São Miguel de Ururaí, com quem teve muitos filhos.

    E sobre João Ramalho? "Judeu degredado, para uns; simples náufrago casual, para outros; precursor de Colombo na América, segundo frei Gaspar da Madre de Deus; filho da casa Real, di-lo Pedro Taques; uma e única pessoa com o bacharel de Cananéia, na opinião de Cândido Mendes; boçal e rude analfabeto; personagem pelo menos iniciado nos rudimentos da Cabala, para Horácio de Carvalho."    Na verdade, João Ramalho foi uma autêntica figura de novela. Deixara crescer a barba descuidada. Vivendo no mato, no meio da indiada, pouco ligava à indumentária. Era truculento, despótico, dominando pelos modos desabridos. Em conseqüência, não havia quem não o temesse.  

Além, muito além
daquelas serras 

    Um dia, andejando sempre, galgou a serra de Paranapiacaba [subida de Santos ao planalto paulista] e veio bater nas margens de Guapituba, onde conheceu o cacique Tibiriçá, com quem fez boa amizade.

     O aventureiro apreciou o lugar. Resolveu ficar. Aquilo ali estava cheio de "índias mansas, daquelas índias passivas e ofertantes, que andavam nuas e não sabiam se negar a ninguém".

     Uma delas, no meio de tantas, lhe mexeu com o coração. Chamava-se Bartira. Além de bonita, Bartira vinha a ser a filha do cacique Tibiriçá. Era um bom partido. João Ramalho não vacilou. Abandonou as demais e ficou com ela. Tornou-a predileta. O chefe da tribo gostou. Ter um branco como genro era uma grande honraria...

O núcleo de Santo André

    O núcleo de Santo André, assim chamado em memória ao padroeiro da vila, foi atraíndo outros forasteiros. A seleção não podia ser das maiores. Apareceu gente de toda espécie: bons e maus, estes últimos em maior número do que aqueles. Tendo brotado na beira do sertão, ficou conhecido como Santo André da Borda do Campo.

     Como seria, naqueles tempos primitivos, Santo André da Borda do Campo? "Naturalmente, tinha um aspecto selvagem. A terra era selvagem, os casebres de taipa-de-mão, cobertos de sapé, selvagens; as mulheres mestiças, mal enrodilhadas em panos de algodão, de fisionomias endurecidas pelos trabalhos incessantes, seriam, também, selvagens.

     "E os homens, na sua rudeza incomparável, barbudos e desataviados, possivelmente vestidos de pele, por toda parte alçando o perfil de lince, seriam, entre todos os seres, entre as próprias feras, os mais temerosos e os mais selvagens."

     Mas não tardou que o pequenino arraial viesse a receber o título honroso de vila, passando o seu fundador a ser apontado com o título mais honroso ainda de "Alcaide Mor e Guarda Mor do Campo".

Um alemão assustado

    Foi nesse tempo que, por ali, apareceu o viajante alemão Ulrico Schmidel, que andava correndo mundo.

     Tinha um tipo esquisito. Sofria de delírio ambulatório. De Assunção, viera a ter em São Vicente. De São Vicente foi andando. E andando, andando sempre, quando viu, estava no meio de gente branca. Era ali Santo André. Cedamo-lhe a palavra:

     "Afinal, chegamos a uma aldeia habitada por cristãos, cujo chefe se chamava João Reinvelle (sic). Felizmente, para nós, andava ausente, pois o arraial tinha-me cara de ser um covil de bandidos. Partira Reinvelle (Ramalho) para ir com outros cristãos que habitavam uma povoação chamada Vicenda (São Vicente), a fim de, com eles, concluir um tratado.

     "Apenas lhe vimos o filho, que nos recebeu bem, embora nos inspirasse muito mais desconfiança do que os próprios índios. Deixando este lugar, rendemos graças ao céu por dele havermos podido sair sãos e salvos."

     "Apesar de tudo, João Ramalho "era o homem mais poderoso da região, mais do que o próprio soberano: havia guerreado e pacificado a província. reunindo cinco mil índios, enquanto o rei de Portugal só reuniria dois mil".

Ramalho escomungado

    No ano de 1553, Santo André da Borda do Campo viveu o ponto mais alto de sua vida florescente. Então, surgiram os primeiros jesuítas: Manuel da Nóbrega e Leonardo Nunes.

     O segundo ficou horrorizado com o que presenciava: a mancebia dos portugueses com as índias e o cativeiro dos índios. Aquilo lhe pareceu pior que Sodoma e Gomorra. E não teve dúvidas em excomungar João Ramalho. João Ramalho achou ruím... E começou a luta, uma luta de vida e morte.

A mulher de Ramalho
decidiu a questão

     Uma manhã, a coisa tomou aspecto muito sério. O padre, tendo ido dizer missa na igrejinha do povoado, viu entre os presentes João Ramalho e mandou expulsá-lo do templo. Foi a conta. Saiu um sarilho de todos os diabos. Os filhos de João Ramalho [que não eram poucos] resolveram tomar um desforço. Lá apareceram, armados de trabuco, dispostos a matar o jesuíta corajoso.

     E foram entrando... Na frente, André, o mais velho. Depois, os outros: Vitório, Antonio, Marcos, João... Em casa, ficaram apenas as meninas: Joana, Margarida, e Antônia...

     Quando Bartira soube de que planejavam os filhos, foi atrás, e meteu-se no meio, desarmou-os, fê-los retroceder... Foi água na fervura. Desistiram do seu intento. E só assim escapou com vida o padre Leonardo Nunes.

Um dia depois do outro

    A coisa era desse feitio, naqueles áureos tempos, na primitiva Santo André da Borda do Campo. Tudo se resolvia a Trabuco. No princípio, João Ramalho deu aos padres muita dor de cabeça, e por um triz não quebrou a pau a dita cuja de Leonardo Nunes, o padre intrujão.

    Com os anos, tudo foi mudando. O belicoso João Ramalho já não era o mesmo das primitivas eras. Foi perdendo aquela arrogância, aquele jeitão distorcido...

     Os filhos, sim, os mamelucos da sua numerosa descendência, aqueles primeiros e desenvoltos paulistas, tornaram-se o terror das cercanias. E deram trabalho medonho... Foi um tempo quente.

O fim da vila na
borda do campo

     Já nessa época, São Paulo de Piratininga progredia, absorvendo completamente a vila que ficara atrás. Mem de Sá determinara que Santo André se extinguisse e todos se mudassem para São Paulo.

     O próprio João Ramalho acabou por concordar. E, para contentá-lo, nomearam-no capitão-mor de São Paulo. Era uma maneira jeitosa de atraí-lo.

     Mas ele, a tempo, descobriu o golpe. Desiludido, não desejou ficar por aqui. Resolveu abandonar o Planalto e ir morar longe. E foi habitar uma cabana rústica no vale do Paraíba. Hospedou-se em casa de Luís Martins.

     Estava velho e cansado. Apesar de tudo, embora na quadra dos setenta anos, não tinha uma cã [cabelos brancos] na cabeça nem no rosto, e costumava andar nove léguas a pé antes de jantar...

Ramalho vereador

    Um dia, naquele 15 de fevereiro de 1564, um grupo pacífico de homens foi procurá-lo na sua casinhola. João Ramalho recebeu-os com certo embaraço. Que queriam dele? Mandou-os entrar.

     Não havia banco para tanta gente... Ficaram de pé, e de pé falaram. Era uma comissão do Conselho Paulista. Vieram comunicar-lhe que a gente de Piratininga o havia eleito para vereador de sua Câmara.

A hora do troco

     Ramalho ouviu tudo com a maior atenção. Seu olhar parecia andar por muito longe, distante mesmo... Lembrava-se, talvez, das ingratidões de que fora vítima.

    Recordava-se das humilhações sofridas. E no mesmo instante, mal sopitando a revolta tardia, alçou o rosto, e achou que chegara o momento azado para a desafronta. Solene, pausado, com um tom superior, retorquiu, altivo:

     "Não aceito. Vivo bem no meu exílio. Pra que voltar? Além disso, estou velho: sou um homem que já passou dos setenta anos... Digam ao Conselho que João Ramalho declina da honraria, e prefere ficar onde se encontra: prefere acabar seus dias entre os contrários do Paraíba, na terra dos índios." 

     E deu-lhes as costas. Um a um, foram saindo. O velho dominador tinha razão: "não nasceu para vereador de um mísero burgo, aquele que sempre foi um rei da floresta.

Morre Martim Afonso
Tibiriçá (o cacique)

    Naquele 25 de dezembro de 1562, sofreram os índios um rude golpe. A notícia espalhara-se rapidamente. O cacique Tibiriçá estava passando muito mal. O padre Anchieta, ao seu lado, empenhava-se em suavizar-lhe os últimos momentos. Havia muito, vinha ele sofrendo as câmaras de sangue. E com a avançada idade que atravessava, aquilo mais lhe torturava os derradeiros estertores...

     A indiada, cá fora, não se conformava e chorava. Chorava aos gritos angustiados. E pela aldeia rolava aquele lamento surdo e inquietante. Os tambores, lá longe, ecoavam. Logo mais, a nova melancólica caiu como um raio. Tibiriçá morrera! O Martin Afonso [nome cristão de ele adotara] deixara de existir. Piratininga inteira vibrou. Os índios e os padres. Desaparecia um dos seus melhores amigos.

    À tardinha, realizou-se o sepultamento. Um sepultamento com toda a pompa. Compareceu todo o mundo. João Ramalho e sua mulher, Bartira, batizada com o nome de Isabel, seus numerosos filhos, seus netos, todos os seus descendentes, os jesuítas, os indígenas, chorando... Seu corpo foi levado para o colégio São Paulo e ali sepultado. Era uma deferência das maiores.

O repórter Padre Anchieta

     O padre Anchieta, em carta escrita a 16 de abril de 1563, contava, então, o que acontecera:  "Foi enterrado na nossa igreja, com muita honra, acompanhando-o todos os cristãos portugueses com a cera de sua confraria.

     "Ficou toda a capitania com grande sentimento de sua morte pela falta que sentem, porque este era o que sustentava todos os outros, conhecendo-se-lhes muitos obrigados pelo trabalho que tomou em defender a terra, mais que todos, acho que nos devemos nós os da companhia e por isso determinou dar-lhe em conta não só de benfeitor, mas ainda de fundador e conservador da Casa de Piratininga e de nossas vidas.

     "Fez testamento e faleceu com grandes sinais de piedade e fé, recomendando à sua mulher e filhos que não deixassem de honrar sempre a verdadeira religião que abraçaram."

    Quem mais sentira a morte de Tibiriçá fora seu genro, aquele barbaçudo e intrépido João Ramalho. Regressara, depois do enterro, ao seu retiro às margens rumorejantes do Paraíba. Parecia que a vida perdera para ele a razão de ser, seu encanto maior. Talvez a idade avançada, talvez os dissabores enormes... E meditou muito longamente sobre a morte.

O vale da sombra da morte

   O velho João Ramalho tratou de preparar-se para enfrentar o momento fatal que haveria de vir, mais dias, menos dias. Mandou chamar à sua presença o tabelião Lourenço Vaz, naquele 3 de maio de 1580. Conversaram os dois longamente.

     Soube-se apenas que, no mesmo dia, o funcionário regressava à casa do ex-rei do Planalto, armado de enorme livro e com a sua pena de pato. Acompanhavam-no o juiz ordinário Pedro Dias e quatro testemunhas. Vinham solenes e carrancudos. 

     E João Ramalho ditou seu testamento. O documento famoso ficou transcrito nas notas do tabelião da Vila de São Paulo. Narrava toda a sua vida, uma vida novelesca e cheia de altos e baixos. Frei Gaspar da Madre de Deus revelou mais tarde que possuía uma cópia do documento original, mas o certo é que pouquíssimas pessoas manusearam o testamento tão discutido.

    Capistrano de Abreu [historiador, contemporâneo de Rocha Pombo], escrevendo a respeito, deu sua opinião valiosa: "fora de dúvida está que João Ramalho foi um dos colonos mais antigos; preferiu o planalto à beira-mar, fez-se respeitado pelos indígenas, entre os quais granjeou numerosa prole.

     "Os hábitos, adquiridos em decênios de vida solta, incompatibilizaram- no com os jesuítas, de cujas crônicas saiu mal notado. Muito deu que falar o seu testamento, do qual sonsamente deduziu frei Gaspar da Madre de Deus que fora ele o verdadeiro descobridor da América; o documento não foi visto só por frei Gaspar, mas até agora não reapareceu."

Paulistas de quatrocentos anos

    João Ramalho morreu tempos depois. Deixou uma descendência colossal, gerando os primeiros paulistas:

  • 1) Beatriz Dias, que foi casada com Lopo Dias, natural de Portugal;

  • 2) Francisco Ramalho Tamarutaca, que foi casado três vezes, sendo a primeira e terceira com Francisca e Justina, índias;

  • 3) Antônio de Macedo, casado;

  • 4) Vitorino Ramalho, casado, que foi assassinado pelos índios Tupiniquins, nas imediações da Vila de São Paulo;

  • 5) Joana Ramalho, casada com Jorge Ferreira, que foi, em 1556, locotenente do donatário da Capitania de Santo Amaro, pertencente a Martim Afonso, filho de Pedro Lopes de Souza. E outros mais...

Um lugar perdido no tempo

    Santo André - já asseverou Teodoro Sampaio [historiador, contemporâneo de Rocha Pombo] - como um ninho de escravismo e toca de turbulência, desapareceu sem deixar vestígios, como se, de vez, a arrasara um braço exterminador.

     Nas margens do Guapituba, que flui para Piratininga, cerca de uma légua na atual vila de São Bernardo, o viajante debalde procura um trecho de velho muro que lhe recorde este baluarte do alcaide-mor da Borda do Campo.

     Como se fora edificada na areia movediça, onde um sopro de desolação tudo subvertera e apagara, nem mesmo a tradição mameluca se salvou na memória dos raros habitadores destas paragens.

     É que as cidades também se apagam na vida, como se apagam na iniquidade dos homens.
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