1532-1579 - PRIMEIRAS COLÔNIAS,
GOVERNO GERAL E FUNDAÇÃO
DO RIO DE JANEIRO

A metrópole empreende
a colonização do Brasil.

   Falecera, D. Manuel, em 1521,sem saber o que valia a herança que deixava a seu filho e sucessor. O que se fizera, então, relativamente aos novos domínios, mal revelava o intuito de afirmar os direitos de Portugal sobre a terra descoberta. O alarme da metrópole, porém, ante as pretensões de outras potências, que de tanta desídia se queriam prevalecer para insidiosas conquistas neste lado do Atlântico, determinou medidas mais enérgicas, no propósito de assegurar os altos interesses da monarquia nesta parte do mundo colonial. É com tais preocupações que sobe ao trono D. João 3º.

    Enquanto se estudava o problema, vem uma notícia concorrer para que o novo monarca se apressasse a mandar para aqui uma expedição: por intermédio do representante português em Versalhes, soubera-se em Lisboa que se preparava, na França, uma esquadra destinada às costas da América do Sul. Estimulado por esse aviso, teve o governo português de fazer sair para o ultramar, quase precipitadamente, uma esquadrilha de cinco caravelas e uma nau, armadas em guerra, com o fim de, ao menos, guardar as costas do Brasil contra as tentativas de intrusão. Foi incumbido de comandar essa expedição o mesmo Cristóvão Jacques, que se dizia ter estado já anteriormente em mares de nosso litoral.

    Chegou Cristóvão Jacques às costas do Brasil por fins de 1526, aportando junto à ilha de Itamaracá, visto constar-lhe que por ali costumavam os franceses ir fazer suas provisões de pau-brasil. Não havendo encontrado ali ninguém, estabeleceu no continente fronteiro, ou mesmo na ilha, uma feitoria; e continuou a percorrer a costa para o sul. Foi até o estuário do Prata (então, ainda, rio de Solis); e daí voltou para o Itamaracá, onde fez um carregamento de pau-brasil, que expediu para o reino, conforme as instruções que trazia. Durante muito tempo, as caravelas cruzaram sem cessar nas costas; até que se encontraram com franceses em águas da Bahia, travando com eles disputado combate, e pondo-lhes a pique três navios.

    Em fins de 1528, foi Cristóvão Jacques substituído por Antônio Ribeiro. Este continuou a vigiar as costas, sem nada mais fazer além disso, pelo que parece, pois as crônicas não dizem coisa alguma, nem ao menos quanto à época em que teria cessado sua comissão. O governo português não se satisfazia com o medíocre resultado de tais medidas. Ainda que procurasse uma compensação imediata no comércio do pau-brasil, as expedições tornavam-se muito onerosas, reclamando recursos extraordinários, e numa época em que os sucessivos empreendimentos marítimos tinham esgotado o real erário.

    Via-se, também, que semelhantes medidas, sobre serem custosas, não davam suficiente garantia contra intentos dos estrangeiros, cuja cobiça não se conseguia de todo evitar, num imenso litoral desguarnecido e despovoado. Resolveu, portanto, D. João 3º tomar uma providência mais completa, e que oferecesse proveitos mais positivos e seguros. Era preciso, em suma, cuidar seriamente da colonização do país. Organizou-se, pois, uma expedição, confiada a Martim Afonso de Sousa, e composta de alguns navios com muita gente, a qual saiu de Lisboa a 3 de dezembro de 1530.

Martim Afonso de Sousa

    Vinha Martim Afonso de Sousa investido de poderes quase majestáticos. Somente em relação a fidalgos restringiam-se as suas atribuições e alçada. Por fins de janeiro de 1531, chegava a expedição aos mares territoriais do Brasil, tendo partido de Lisboa em princípios de dezembro do ano precedente. Na altura de Pernambuco, aprisionou Martim Afonso três embarcações francesas carregadas de pau-brasil e tomou porto no continente a 1º de fevereiro. Dali, enviou para Lisboa um dos navios capturados, sob o comando de João de Sousa, com carregamento de produtos da terra.

    Antes de fixar-se em algum ponto da costa, tratou o capitão português de percorrer todo o litoral, informando-se de tudo quanto pudesse interessar ao êxito da expedição. Encarregou Diogo Leite de ir fazendo explorações para o norte, enquanto prosseguia ele próprio para o sul. Na Bahia, Martim Afonso encontrou-se com Caramuru, de quem recebeu notícias minuciosas daquela parte do país. E, depois de alguns dias, continuou a perlongar a costa, chegando, por fins de abril, à baía do Rio de Janeiro, onde se demorou cerca de três meses.

    A 12 de agosto, chegava o capitão-mór à ilha de Cananéia, onde se lhe apresentaram, em companhia de alguns espanhóis, dois portugueses, um dos quais querem muitos autores que fosse o mesmo João Ramalho, que tanto auxiliou, depois, os colonos, em São Vicente. Após uma demora de cerca de mês e meio, continuou a expedição a navegar para o sul. Do cabo de Santa Marta em diante, porém, começou a esquadrilha a ser fustigada por freqüentes tempestades e, por fim, já perto da embocadura do Prata, naufragou a capitânia [nau do comandante], salvando-se a custo Martim Afonso e a tripulação.

    Aquele desastre, e as intempéries reinantes naquelas costas, aconselharam o capitão-mor a retroceder. Não o fez, porém, antes de testemunhar a sua presença naquelas paragens. Para isso, incumbiu seu irmão, Pero Lopes de Sousa, de entrar pelo rio da Prata, e de fazer as possíveis explorações na famosa região, cujas riquezas fabulosas já iam inflamando as imaginações e provocando a cobiça dos aventureiros. Durante cerca de um mês, explorou Pero Lopes diversos confluentes da grande artéria fluvial, plantando, por onde passava, marcos com as armas portuguesas.

    Da ilha das Palmas, junto à costa de Maldonado, onde se lhe reunira Pero Lopes, Martim Afonso deliberou voltar para o norte. Ao cabo de uns vinte dias, em princípios de janeiro de 1532, chegava a expedição ao ponto da costa que já se chamava São Vicente, fundeando entre a ilha desse nome (que os índios chamavam Induá-Guaçu, dando a toda aquela porção do litoral, pelo que parece, o nome de Morpion) e a terra firme. Ali, resolveu o capitão-mor estabelecer-se e fundar uma povoação que servisse de centro a toda obra colonial que se iniciava, e de sede do governo e administração dos novos domínios.

São Vicente e Piratininga

    Martim Afonso, imediatamente, deu princípio à fundação da vila: lançou os fundamentos dos edifícios indispensáveis, começando pela construção de uma igreja, de uma casa de governo, da cadeia pública, de um estaleiro, de diversas oficinas e engenhos, além de casas para a morada dos colonos. Foi logo organizando a administração, provendo de pessoal de confiança os vários cargos; e tomou, em suma, todas as providências de que pudesse depender o bom êxito daquela obra. Um dos grandes auxiliares do capitão-mor em todos os serviços da nascente colônia, foi o padre Gonçalo Monteiro, nomeado pároco da nova igreja. Ao mesmo tempo, tratava Martim Afonso de fazer, nas imediações da vila, a distribuição de terras e o estabelecimento de lavradores.

    Como era natural, muitos dos colonos foram se internando no país, curiosos de conhecê-lo e de travar com os naturais as relações de que tinham necessidade. Com isso, entretanto, não evitaram certos intuitos hostis de algumas tribos, alarmadas contra aqueles intrusos, que se mostravam tão afoitos e audaciosos, como se fossem senhores daquelas terras. Principalmente os chefes de numerosas hordas que habitavam o litoral, para o norte de São Vicente, quiseram opor enérgica resistência aos invasores. Em breve, foram assumindo resolutamente atitude ofensiva, dispostos a lutar pela sua independência.

    Por sua parte, trata o capitão-mor de fortificar-se, preparando-se para repelir o ataque dos selvagens. Foi nesse momento de perigo que chegou, de serra acima, João Ramalho, e meteu-se entre os índios revoltados e os portugueses prontos para a repulsa. Entendeu-se João Ramalho com Martim Afonso e, em nome deste, fez propostas de aliança aos chefes indígenas, convencendo-os de que, tanto a gente que chegara àquela terra como as tribos que por ali dominavam, tinham vantagens em viver numa perfeita paz.

    Feita a concórdia, teve Martim Afonso o apoio geral e o concurso daquelas tribos e pôde, assim, ir estendendo para o interior a ação dos forasteiros. A instâncias de João Ramalho, foi o capitão-mor visitar a aldeia de Piratininga, nos campos do Planalto. Ali começaram logo a estabelecer-se muitos colonos, promiscuamente, com a grande descendência do patriarca. Construiu-se uma capela junto à aldeia,  em torno da qual se foi renovando a população. Sentiu-se Martim Afonso muito satisfeito de ver a boa disposição e a coragem com que os portugueses se entendiam com os naturais.

    Em seguida, recebeu  novos recursos com reforço de gente, por intermédio de João de Sousa, que voltara do reino. Fez João de Souza entrega de uma carta de D.João 3º a Martim Afonso, agradecendo-lhe os bons serviços que, com tanto valor e zelo, prestava à monarquia no ultramar. Como o rei o autorizava a regressar quando entendesse, resolveu Martim Afonso confiar a administração das colônias ao padre Gonçalo Monteiro (a de São Vicente) e a João Ramalho (a de Piratininga), e partiu para a Metrópole, em 1533, deixando definitivamente inaugurada a colonização no Brasil.

 

POVOS QUE HABITAVAM O BRASIL
[veja também: No princípio, era a selva...]

Governo, crenças, cerimônias
religiosas e guerreiras

   Martim Afonso adiantara muito a exploração em todas as direções. A maior parte da costa, para o norte, até pelo menos o Maranhão, e para o sul, até a lagoa dos Patos, já estava assinalada; e os colonos de São Vicente se iam sentindo atraídos para as paragens do interior. Voltava o capitão-mor para a metrópole, habilitado a dar ao governo português uma notícia mais ou menos exata da grande importância dos novos domínios, principalmente acerca do que tinham de excepcional a flora e a fauna da nova terra, e do estado em que se achavam as populações que nela viviam. Sobretudo, as informações que se referiam aos índios muito deviam interessar ao governo, pois faziam ver até que ponto se poderia contar com o concurso dos naturais para o desenvolvimento do país.

    Em todos os pontos do litoral se encontravam numerosas tribos, falando dialetos que pareciam diferenciações de uma mesma língua. Todos esses dialetos achavam-se em fase de aglutinação, devendo notar-se que o tupi mais puro parecia entrar no período de flexibilidade, por esforço da própria cultura indígena. O que se observa tratando-se da língua, dava-se também aos usos, aos costumes, às crenças, às cerimônias religiosas e guerreiras da infinidade de famílias que habitavam nesta parte do continente: tudo sugeria a idéia de que essas diversas populações não eram mais do que ramos do mesmo tronco, variedades da mesma corrente de povos, mais ou menos desfiguradas por efeito dos climas e das vicissitudes da vida errante.

    As diversas nações viviam em guerras contínuas umas com as outras, disputando entre si a posse das melhores paragens, onde mais abundantes fossem as frutas, as caças e os peixes. Em regra, fora do litoral, preferiam as margens dos rios e os campos do interior. Cada tribo era dirigida, na guerra, pelo cabo mais valente, eleito pelos maiorais. Em algumas, o mando era hereditário. Antes de marchar contra o inimigo, o chefe convocava os principais de uma nação, e com eles celebrava um conselho solene, destinado a resolver sobre a guerra, e a exortar os heroísmos da tribo. Nessa ocasião, intervinha o Pagé, invocando em favor do exército em armas a proteção das divindades da pátria. Em seguida, havia danças ruidosas e fartos banquetes, com que se incendeia o ânimo dos guerreiros. Toda a tribo partia, então. As mulheres, as crianças e os velhos inválidos conduziam os víveres e as reservas de armas.

    Em regra, sacrificavam os prisioneiros. Estes sofriam a morte, altivos, e com heróico atrevimento, para honrar o seu nome e a sua nação. Além das cerimônias da guerra, celebravam, com muita pompa, as da morte. Quando morria um chefe ilustre, quer em combate, quer em paz no seio da tribo, reuniam-se os principais guerreiros, em volta do cadáver, e cada um dirigia a palavra ao espírito do morto, recordando-lhe as grandes ações que praticara em vida. Terminado este ato, era o cadáver, já lavado e ungido de óleo pelas mulheres, posto numa urna de barro (igaçaba) e levado, por toda tribo, ao cemitério, onde ficava no meio das armas que lhe tinham servido na guerra. Por fim, entregavam-se todos a uma grande orgia, dançando, comendo e bebendo, com furor e gula incríveis. Se o morto era chefe supremo da tribo, as solenidades terminavam, ou pela eleição, ou pelo reconhecimento do novo chefe.

    A divindade mais alta dos selvagens era Tupã; e consideravam o trovão e a tempestade como manifestações da cólera divina. Abaixo desse deus soberano, havia uma quantidade enorme de divindades, que presidiam à guerra, à morte, aos festins, às colheitas, à caça, etc.; que tinham o domínio das florestas, das fontes, das montanhas, das solidões; ou, ainda, que perseguiam as crianças e as mulheres perdidas nas matas. Quase todas as tribos rendiam culto, mais ou menos brilhante, ao sol, à lua, às estrelas; bem como ao verão, à chuva e a outros fenômenos da natureza. A maior parte dessas populações, sem disfarçar sua natural desconfiança contra estrangeiros, recebeu sem hostilidade os portugueses. Só depois, quando a invasão desordenada e os abusos da conquista lhes provocaram os ódios, é que foram revidando as violências e rebatendo as traições.

Usos, costumes e indústrias dos indígenas

   As povoações indígenas (tabas) eram formadas de algumas palhoças estreitas e longas (ocas), dispostas de modo que lhes ficasse no centro uma área aberta (ocara), destinada a cerimônias e festas da tribo. Em cada palhoça acomodavam-se muitas famílias, promiscuamente, mas, em regra, todas bem aparentadas. Entre as tribos do norte, era usada a rede para a dormida. Entre as do sul, os casais dormiam, também, em jiraus, quase chegados ao teto. Muito poucos utensílios domésticos havia em tais habitações, sendo principais os vasos para bebidas, a cuia, o balaio, a esteira de junco (peri), etc.  Quase todas as tribos preparavam seus alimentos. Tanto a carne como o peixe eram assados ou cozidos. Do milho, do caju e de outras frutas, faziam bebidas inebriantes. Comiam e bebiam sem regra. O melhor modo de agradar e honrar os hóspedes era fartá-los com iguarias variadas e abundantes.

    Em geral, os selvagens não andavam completamente nus. Todos gostavam muito de enfeites. Usavam cocares e faixas de penas, mantos, pulseiras, ligas, colares, etc.  Os chefes usavam insígnias. Os guerreiros traziam sempre as suas armas, ao lado das quais dormiam. Por ocasião das festas, procuravam todos distinguir-se pelos seus ornatos; e muitos pintavam-se, preferindo sempre as cores mais vivas. As donzelas tinham um sinal que as distinguia até o dia em que eram desposadas, o que nunca acontecia antes da puberdade. A única cerimônia nupcial era a entrega da rapariga pelos pais, mediante um presente do noivo. Em algumas nações, o homem tinha que ir à tribo vizinha arrebatar uma esposa. A verdadeira monogamia era muito rara, mas a primeira mulher tinha predomínio na família, e era quem regulava a geração do marido. Dizem alguns autores que, na maioria das tribos, não se conhecia o ciúme.

     A criança, assim que nascia, e principalmente se era do sexo masculino, era mergulhada, muitas vezes, na água fria, para que ficasse forte. Enquanto a mulher que acabava de dar a luz se ia ocupando, como sempre, dos trabalhos domésticos, o marido repousava em sua rede, ou deitado junto à lareira, a receber as felicitações dos parentes e amigos. O menino recebia logo um apelido familiar e, mais tarde, depois que se distinguia por alguma aptidão, ou por seu valor na guerra, é que tomava o nome definitivo. Se era feliz nos seus intentos, novos nomes eram acrescentados para que recordassem na tribo as façanhas praticadas. As filhas eram instruídas pelas mães nos ofícios domésticos; e os pais encarregavam-se de dirigir os filhos em todas as artes da guerra, da pesca e da caça.

    A indústria dos selvagens consistia principalmente na fabricação dos seus artifícios de caça e de pesca, bem como na de armas para a guerra. Faziam juquiás e covos, grandes funis de taquara com que apanhavam os peixes. Usavam também uma farpa presa a uma corda, semelhante ao anzol. Construíam mundéus para apanhar a caça miuda; e para as maiores, como a anta (tapir), que era a mais apreciada, empregavam lanças e grandes maças [bastão de madeira]. Para prender pássaros, faziam armadilhas nas árvores e laços corredios na ponta de varas compridas; para matá-los, tinham setas pequenas e finas, no manejo das quais eram habilíssimos, chegando a alvejar pequenos pássaros a grande distância. Muitos usavam também, contra pássaros e até contra peixes,  uns estiletes muito tênues, impelindo-os, com forte golpe de sopro, de dentro de um tubo.

     Empregavam muita arte na fabricação de armas. Além do arco e da flexa de guerra (quase sempre envenenada), tinham picaretas de pedra, clavas e lanças. Em todos os museus, tanto da América como da Europa, há coleções mais ou menos preciosas de tais artefatos. Punham muito cuidado no preparo de seus enfeites, assim como no de instrumentos de música. Muitas tribos já fabricavam, também, um tecido grosso e muito consistente, da fibra de uma palmeira, a que davam o nome de curu. Também eram hábeis na construção de tabas (os tupis, sobre todos), dispondo as ocas pentagonalmente e com muita simetria. Mostravam muita perícia, às vezes, na manipulação de artigos cerâmicos. A maior parte das tribos já fazia alguma lavoura, cultivando a mandioca, o milho, etc.  Os homens encarregavam-se da roçada das matas e do preparo das terras e as mulheres faziam as plantações e as colheitas.

A terra. A flora e a fauna no Brasil

   Essas populações, que viviam aqui em estado quase que completo de nomadia, não tinham aptidões para tirar proveitos da grande soma de elementos naturais que a terra oferecia. Assim que foram conhecendo o país, os colonos europeus se convenceram de que a riqueza produtiva do solo nesta parte do continente excedia a tudo quanto se andava entrevendo das lendas que, naquele tempo, os espanhóis faziam correr, sobre a natureza americana. Já era, pois, um enorme serviço o que prestara a primeira expedição colonizadora, pondo os europeus aqui em contato com a terra, cujas opulências deslumbravam o espírito da metrópole,  convencendo-a de que o quinhão da coroa portuguesa na partilha do Novo Mundo nada tinha a invejar à prodigiosa fortuna da Espanha.

    Já dissemos que os índios faziam alguma lavoura. Cultivavam o milho, o feijão, variedades de tubérculos, como a mandioca, a taioba, etc.   Conheciam e aproveitavam o cacau, o mate, diversas espécies de cocos e um sem-número de outros frutos nativos. Conheciam, também, a seiva de certas árvores, como a da seringueira, da mangabeira (que produzem borracha); a do pinheiro, etc.    Entre as frutas estavam o caju, o ananás, a mangaba, a pitanga, a murta, a jabuticaba, o araçá, a guapurunga, o araticu, a goiaba, etc.  Os colonos introduziram logo um grande número de plantas úteis, como a cana de açúcar, o cafeeiro, a laranjeira, a bananeira, etc.   Não houve espécie exótica que não se aclimatasse facilmente e  com vantagens sobre as cultivadas nos climas de origem.

    Grande variedade de plantas medicinais já eram utilizadas pelos indígenas e outras muitas foram descobertas pelos colonos. Em madeiras de construção, o país é de uma riqueza excepcional. As florestas das vastas bacias do Amazonas, do Tocantins, do São Francisco e do Paraná não tem similar em zona alguma do continente. Para o sul, numa grande faixa da zona temperada, do grau 24 para baixo, o que determina o aspecto geral do solo é a infinita extensão dos campos, sem acidentes notáveis de relevo, até a Patagônia. Esses campos, muito próprios para a criação e para a cultura de cereais, são interrompidos apenas por bosques e, às vezes, por verdadeiras florestas de pinheiros.

    A fauna do Brasil caracteriza-se pela variedade de espécies originárias. Como é sabido, os índios não tinham animal algum doméstico e quase todas as espécies criadas hoje foram introduzidas pelos colonos. As próprias do país continuaram em seu estado selvagem, tais como a anta, o queixada, o veado, a lontra, o tatu, o gambá, etc.   Variedades de peixes, especialmente nos grandes rios, têm sido reconhecidas e estudadas. O que é notável na fauna atual do Brasil (como na de toda a América do Sul) é a ausência dos grandes mamíferos do período terciário. Hoje, no entanto, já se pode admitir a existência de uma fauna antiga e extinta, cujos fósseis devem trazer muita luz ao problema da história geológica do continente.

    No meio dos alvoroços que causava, na metrópole, o conhecimento que se ia tendo da vastidão do país, da sua flora e da sua fauna admiráveis, não tardou que se espalhassem notícias relativas a riquezas minerais. Algum tempo depois que os portugueses se estabeleceram em São Vicente (1532), tiveram começo aquelas excursões de caravanas, que mais tarde se ampliaram nas formidáveis bandeiras, e que revolveram todo o continente à procura de sonhados tesouros. Mesmo descontando a deficiência das explorações que foram feitas, sabe-se que logo descobriram jazidas de ouro, de prata e, mais tarde, de ferro, de manganês e outros minerais.

As donatarias

   O governo português sentia-se muito preocupado com o enorme problema de colonizar o Brasil e, por todos os modos, estudava um meio eficaz de resolvê-lo, sem os gravames que o já exausto erário real não suportaria. Um país tão vasto, com muitos milhares de léguas da costa, reclamaria sacrifícios imensos, se o governo pretendesse fazer-lhe diretamente a administração e o povoamento. A idéia que se impunha era criar um sistema novo, em que interviesse eficazmente a iniciativa particular. Já na carta que, por João de Sousa, escrevera Martin Afonso, D.João 3º lhe falara do propósito em que estava, à vista das informações que recebera do capitão-mor, de dividir o país em grandes glebas e entregar estas, como feudos, a vassalos de sua confiança, reservando-se à coroa do direito de soberania.

    A medida tornou-se efetiva, em 1534. Os donatários eram investidos, não da propriedade das terras, mas de direitos e vantagens de capitão [daí o nome capitania], podendo transmitir esses direitos por herança, ou mesmo aliená-los mediante certas condições. O título de doação era um contrato (foral) em que ficavam determinados os direitos da coroa, os do donatário e a situação dos colonos que fossem estabelecidos. O donatário era um verdadeiro senhor feudal, exercendo nos respectivos domínios quase todas as prerrogativas do rei. Concentrava em suas mãos todos os poderes; nomeava juizes e provia todos os cargos da administração; regulava todo o serviço público e o exercício de todos os direitos; arrecadava a sua parte dos tributos; julgava, em última instância, todos os delitos; tinha o monopólio de quase todas as indústrias nascentes e o privilégio de escravizar índios para o trabalho agrícola, etc. É claro que tudo isso devia ser feito dentro dos limites traçados pelo soberano.

    As capitanias criadas e concedidas por cartas régias de diversas datas, foram primeiro doze, sendo principais, por extensão e pela importância que logo tiveram, as de Pernambuco, de São Vicente e da Bahia. Mais tarde, foram concedidas outras, tanto diretamente pela coroa como pelos Governadores, em nome de el-rei. Em geral, a medida não deu os proveitos que se esperavam. Poucas foram as donatarias que se povoaram e desenvolveram. Muitos dos donatários nem chegaram a conhecer a porção do país que lhes tocara e, apesar de poderem delegar os seus privilégios, nem ao menos por intermédio de prepostos iniciaram serviço algum tendente a aproveitar a grande fortuna que recebiam da liberalidade real.

    Entre as poucas donatarias que prosperaram, devem citar-se algumas. A primeira é a de Pernambuco, doada a Duarte Coelho Pereira, homem já notável por feitos na Ásia, e capaz de alta função em cargos políticos. Veio para o Brasil em 1535, com toda a família e parentes, estabelecendo-se na colina de Marim, onde fundou a vila de Olinda. Este donatário soube conquistar a confiança dos naturais e, com o concurso deles, fez a capitania desenvolver-se rapidamente, tornando-a a mais rica dos tempos coloniais. A capitania de São Vicente, doada a Martim Afonso de Souza, continuou a prosperar, mesmo depois da retirada do donatário. A da Bahia e a do Espírito Santo começaram, também, a ser povoadas pelos respectivos donatários.

    Quase todas as outras capitanias ficaram abandonadas, ou viram infrutíferos os esforços dos respectivos capitães. Ou porque estes não dispusessem de recursos suficientes; ou porque não se animassem a vir aventurar em terra longínqua e desolada, à mercê da antipatia e até da hostilidade, quase sempre temerosa, dos naturais - o que é certo é que andaram longe de corresponder ao pensamento da metrópole. Dentro de uns poucos anos, estava o governo português convencido da necessidade de organizar a administração oficial em todo o país, submetendo as capitanias à autoridade superior de um governador geral. Isto, entretanto, não significava uma revogação das concessões feitas: a capitania das terras doadas era mantida; restringia-se apenas algumas prerrogativas dos donatários.


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