O PIRATA CAVENDISH

Do livro "Aconteceu no Velho São Paulo",
de Raimundo de Menezes, Coleção Saraiva, 1954
)

    No longínquo ano de 1605, pequenina vila de Piratininga, todos se conheciam. Não havia quem não estivesse devidamente informado, nos mínimos detalhes, a respeito da vida de cada um dos habitantes. Sabia-se tintim por tintim. E, quando não se sabia, inventava-se... Era o caso do súdito inglês Taylor. O tal Taylor era o tipo do homem misterioso, introvertido, de poucas palavras, casmurro, como todos o achavam. E, como tal, falando pouco, ignorando-se muito do seu passado, tornou-se uma figura singular e enigmática, a respeito de quem se contavam coisas assaz curiosas e, por isso mesmo, pouco recomendáveis. Aparecera em São Paulo há cerca de 15 anos. Chegara sob a proteção de outro britânico, daquele popularíssimo John Withall, que morava em Santos, e que sempre vivia pra cá e pra lá, em constantes viagens daquela vila a esta, muito conceituado e ligado à melhor e à mais poderosa gente santista.

    Aportara Taylor por estas bandas e instalara-se com oficina de ferreiro e fundidor, uma das únicas de toda a Capitania. Fez boas relações. Soube cativar as amizades. E tinha boa freguesia. Era de temperamento pacato, parecendo, apenas, pensar numa única coisa: ficar rico... Ficar rico, da noite para o dia, pois era infatigavelmente trabalhador. Labutava como um mouro. Em breve, contraía núpcias com uma filha da terra, descendente de pais portugueses, moça trabalhadeira como ele, e que o ajudou bastante nas coisas domésticas e na luta para a vida. Chamava-se Úrsula. O casal deu-se muito bem. Nasceram-lhe filhos. Chegaram a fazer o seu pé-de-meia e pareciam viver no melhor dos mundos... Todavia, um constante vinco marcava a testa do pouco expansivo Taylor. Nem mesmo com a esposa se abria. Notava-se, porém, que uma preocupação o torturava, amargurando-lhe o atribulado coração. Devia viver um grande drama íntimo. Um drama, ou uma tragédia ?

    Uma noite, não podendo dormir, presa de terrível insônia, rolando na enxerga, resolveu contar algo à esposa dedicada: - "Que tens, Taylor?" - "Nada, Úrsula..." - "Nada? Sempre me respondes a mesma coisa... Que mistério! Nem na tua mulher confias?" - "Está bem, escuta, então. Tenho um pressentimento comigo que, ainda um dia, ficaremos ricos, riquíssimos, sabe? Tão ricos que causaremos inveja a toda a gente da vila e a todos os habitantes da Capitania. Ainda descobrirei um grande tesouro, um tesouro de cujo roteiro tenho o segredo... Está o mapa no fundo da bruaca [mala de couro], escondido e muito escondido. O tesouro (deixa que eu te diga) está na ilha da Moela, lá na costa de Santos... Só eu sei o lugar. Eu e Deus."

    E Taylor, num raro instante de trasbordamento, revelou, afinal, à mulher, a sua história... A história que todos adivinhavam muito vagamente e que todos ambicionavam tanto e tanto conhecer. Uma história diferente com um sabor novelesco.

Invasão à vila de Santos

    Desde 1530, viviam os ingleses rondando as costas do Brasil. Tinham ouvido falar da abundância de ouro no rio Mutinga, que é um rio que nasce no morro do Jaraguá e se lança no rio Tietê, abaixo de Osasco, e tinham vindo ver isso de perto. O próprio John Withall escrevera por mais de uma vez para Londres e insistira, principalmente naquele ano de 1578, sugerindo uma viagem da nau inglesa "Minion of London". Tanto insistiu que a embarcação velejou para aqui, aportando em Santos, em 1580. Anos depois, pelas alturas de 1588 e 1591, por duas vezes, apareceu no litoral paulista, sobressaltando-o, um famoso e perigosíssimo pirata inglês, chamado Tomás Cavendish. Era um indivíduo audacioso a mais não poder, capaz das maiores atrocidades. Seu estado maior era constituído de gente da pior espécie, catada entre os mais temíveis corsários londrinos.

    Um dia, "corria aventuroso o oceano, em busca de adquirir, por meio de piratagem, o que havia perdido em seu país, por suas dissipações domésticas", quando, à falta de provisões, acometeu as povoações de Santos e São Vicente, sendo que a primeira, já àquele tempo, era mais opulenta do que esta última. Imediatamente, determinou que o seu lugar tenente, um tal Cook [não confundir com o navegador James Cook, que viveu dois séculos depois] o qual se intitulava vice-almirante, bem armado e municiado, fosse até a praia e trouxesse de lá o que encontrasse, mesmo contra a vontade de seus habitantes.

    A 16 de dezembro de 1583, Cook investiu contra a Barra Grande, fundeando seus navios bem em frente da vila de Santos, contra a qual mandou abrir fogo, principalmente com o fito de atemorizar toda a gente. Nenhuma resistência veio de terra. Aliás, o corsário estava cansado de saber disso. Desembarcou todo o seu pessoal com a maior facilidade e encontrou o povo na igreja, assistindo a ofícios religiosos. Aquele inútil aparato bélico contra casebres de uma população desarmada, e que só teve por vítima um homem que saiu correndo, desanimou-os de lutar. Cercaram a igrejinha e ali deixaram todos, presos, o dia inteiro. Enquanto isso, os piratas, sem nada o que fazer, entregaram-se a bebedeiras e orgias, até ficar exaustos, esquecendo-se de sua missão de pilhagem. Durante o sono, aproveitaram o ensejo os santistas para fugir para o mato, levando todos os objetos de valor.

    Dias depois, Cavendish, cansado de esperar, fora da barra, pelo seu preposto que nunca voltava, desceu em Santos, a fim de arrecadar o saque que mandara fazer. Encontrou, com surpresa, a vila despovoada. Ninguém nas ruas. Só viu estragos e desmandos praticados pelos seus apaniguados. Inúteis foram todos os esforços do pirata inglês no sentido de fazer a população regressar aos seus lares. Todo mundo estava atemorizado e fugido pelos matos. Cavendish mandou contar-lhes uma bonita história: falou-lhes em nome de um rei, que dizia haver reassumido o trono de Portugal, restaurando-o do poder da Espanha... Tudo em vão. Nada surtiu efeito. Ninguém teve coragem de voltar. Retiraram-se os piratas de Santos ainda mais desprovidos do que quando ali aportaram. Tão raivosos estavam, tão fora de si, que, ao passarem por São Vicente, incendiaram esta vila, arrasando-a.

O saque da vila

    Antônio Knivet fazia parte da expedição de Cavendish, e era o mais letrado de todos. Escreveu, mais tarde, a relação de sua viagem, publicada em inglês no princípio do século 18. Conta que, naquele dia de Natal (1583), pela madrugada, uma chalupa com 23 homens, atacou a vila e que "a igreja se achava com 300 pessoas, e que, tanto a igreja quanto a vila, foram saqueadas". Esta relação não pode deixar de ser filauciosa [presunçosa], comenta Azevedo Marques, pois é incrível que 23 homens pudessem desarmar e fazer fugir 300... "No dia seguinte (é ainda Knivet quem fala) foi que desembarcou Cavendish com 200 homens, fez lançar fogo à vila e alojou-se no convento dos Jesuítas com muitos dos seus, demorando-se dois meses em Santos. Além do dinheiro e gêneros, levaram muito ouro de um certo lugar chamado Mutinga [hoje bairro de Osasco, nas proximidades do morro do Jaraguá]. Acrescenta ainda que foram por terra à vila de São Vicente, e que, no caminho, queimaram cinco engenhos. Daqui, dirigiu-se Tomás Cavendish, com sua esquadrilha, ao estreito de Magalhães, mas, dezesseis dias depois, sobreveio-lhe a tempestade que lhe fez grandes avarias na esquadrilha e perdas de vida na tripulação. Voltando a Santos, cerca de dois meses depois, fez desembarcar os capitães Staford, Soutowell e Barker, com mais vinte pessoas, em um batel feito de caixas de açucar e aduelas de pipa e, chegando em terra, assenhorearam-se do engenho [para que trazer tanto açúcar e cachaça se iam assaltar um engenho?]; ali encontraram um barco grande, apossaram-se dele, enchendo-o de víveres, enviando-o aos navios da esquadrilha. Ao terceiro dia de saque e pilhagem, armaram-se os portugueses que haviam fugido para o interior, e surpreenderam os assaltantes, matando-os todos."

    Esta narrativa difere da de August de Saint-Hilaire (1779-1853), em seu livro "Viagens à Província de São Paulo". Diz o viajante francês que Tomás Cavendish chegou pela segunda vez à altura de São Vicente no dia 25 de agosto de 1591 e que, oito dias depois, destacou uma partida de sua gente, que desembarcou e saqueou a nascente povoação de Santos, impondo aos moradores uma pesada contribuição para o resgate. Em vez, porém, de a fazer realizar de pronto, entregou-se ele e o seu séquito ao deboche e à embriaguez e, durante o sono, fugiram os moradores para o mato com todos os seus objetos de valor: muito ouro do Jaraguá e muita prata do Peru. Acrescenta, ainda, o mesmo autor, que oito dias depois (2 ou 3 de setembro), desembarcava outra vez Cavendish e, não encontrando os moradores, lançou fogo à vila de São Vicente e retirou-se, sofrendo na viagem um grande temporal, que desbaratou sua frota.

O grande segredo

    Deixando São Vicente, Cavendish rumou para a Capitania do Espírito Santo, onde não teve melhor fortuna. Retornou às praias paulistas. Aportou à ilha de São Sebastião e nela deixou alguns homens da sua tripulação que estavam enfermos, entre os quais Antonio Knivet, o autor da narrativa da viagem, falecendo quase todos, e alguns dos que sobreviveram foram aprisionados pelos moradores do Rio de Janeiro. Antes de chegar a Santos, Tomás Cavendish havia aportado a Cabo Frio, onde aprisionou um navio português que ia para o Rio da Prata. Chegou, depois, à Ilha Grande, saqueou a população, e fez-se vela no dia seguinte.

    Foi, então, que o perigoso pirata se sentiu seriamente doente. Atacado de violenta febre, "a febre da terra, com seus acessos e tremores", não mais se levantou da enxerga [colchão ordinário]. Além disso, outro sofrimento o torturava: "uma flecha envenenada ferira-o num braço e punha-lhe em cheque a vida, enchendo-lhe o corpo de chagas". Lembrou-se, em tão terrível emergência, de regressar a Santos, em cujo Hospital da Misericórdia pensava tratar-se e ficar bom. Mas, em Santos, uma medonha surpresa o esperava: a resistência estava organizada e repeliu-o. Haviam descido as tropas da vila de Piratininga e o pirata inglês deu, em tempo, "às de vila Diogo"...

    Com sua armada rechaçada, sem maiores esperanças, Cavendish, doente como estava, não podia pensar noutra coisa senão a morte! E mesmo às portas do outro mundo, não esqueceu, não esqueceu os seus tesouros. Eram tesouros imensos! Talvez vencesse aquela cartada... Não vencera outras contra os homens? Longe da terra, não tendo a quem deixar tanta riqueza, lembrou-se de escondê-la, enterrando-a. E foi o que tratou de fazer, quanto antes. Sem dizer nada a ninguém, ancorado no largo de Bertioga, pensou na ilha da Moela, ali perto. Seria, sem dúvida, um bom esconderijo.

    "Mandou descer para um batel as arcas dos despojos daqueles últimos anos, o tesouro que acumulara em saques e abordagens. Desceu, também, com alguns homens desarmados e, ordenando a Cook que se conservasse naquele ponto, seguiu para longe, disfarçando o itinerário na sinuosidade da costa. Por fim, contornou a ilhota escondida, fora da vista de seus galeões distantes. E o chão da Moela abriu-se, num certo ponto, para receber o tesouro do pirata."

    Em seguida, Cavendish, como se fizesse a coisa mais natural do mundo, passou a matar, friamente, a golpes de adaga, aqueles três ou quatro homens desarmados que se achavam consigo. Matou o primeiro... trucidou o segundo... abateu o terceiro, mas, quando chegou ao último, este, num pulo feroz, precipitou-se nágua e saiu nadando como um doido, rumo a Santo Amaro. Sumiu-se na distância, embrenhou-se nas matas, e dele nunca mais se teve notícia. Quem seria tão estranho personagem? Pois os leitores ainda não adivinharam? Pois bem, outro não era senão o súdito inglês de existência tão misteriosa, que fomos encontrar, anos depois, vivendo pacatamente, na vila de São Paulo, trabalhando como ferreiro e fundidor, dizendo-se católico, casado com d. Úrsula... O tal Taylor, lembram-se agora ?

Em busca do tesouro

    Taylor acabara de contar toda a sua estranha história à esposa, que ouvira tudo de olhos esbugalhados, e boca entreaberta. Pensara em tanta coisa, antes, menos que o seu marido estivesse metido em tamanhas aventuras e era possuidor do segredo de um tesouro que poderia fazê-lo rico de uma hora para outra... Os tempos se passaram e sempre, o velho Taylor, com a idéia fixa de, um dia, partir rumo à ilha da Moela, onde, com o auxílio do roteiro que possuia no fundo da mala, iria tentar desencovar tanta riqueza! Já fora informado, há muito, da morte do temível Cavendish, comido de febres, quando a caminho da Inglaterra. Por conseguinte, o perigo passara.

    Uma manhã, levantou-se da enxerga, disposto a tudo. Foi até a bruaca. Abriu-lhe a tampa. Vasculhou lá por dentro, em vão. Nada. Sumira! Sumira o roteiro que andara rascunhando há tanto tempo, com tanto cuidado, servindo-se da memória. Que decepção!  Aquilo o azucrinou deveras. Que fim levara o papel precioso? Tornou a procurar, sem qualquer resultado. Só quem sabia da existência era ele e sua mulher. Mais ninguém. Se não fora ele, só podia ser ela. Dera, com certeza, com a língua nos dentes... Alguém mais havia que conhecia o segredo! Quem seria essa terceira pessoa? Esse terceiro homem?

    De indagação em indagação, ficou sabendo de tudo: d. Úrsula era muito católica, confessava-se de vez em quando. Seu diretor espiritual era um Jesuíta. O pessoal do Santo Ofício andara sempre curioso atrás de indagar da vida pregressa de cada paulistano, de cada habitante da terra e, naturalmente, ficara sabendo dos antecedentes nada recomendáveis do pobre Taylor. Assim, iam de águas abaixo quinze anos de segredo, e o desmoronamento de tão ambicionado tesouro, que o transformaria noutro Creso [rei da Lídia, Ásia Menor, de quem se dizia conhecer uma praia com areia dourada] de primeira grandeza...

    Desta forma, apenas se servindo de sua embotada memória, resolveu tentar a aventura da descoberta da riqueza enterrada na ilha da Moela. Rumou, no dia seguinte, logo cedo, para Santos. Chovia torrencialmente. Era um temporal fora do comum. Os trovões ribombavam. Os raios gizavam [riscavam com giz] os espaços. Parecia até que os céus vinham abaixo. Juntou alguns homens de confiança, alugou uma catraia grande, e enfrentou, corajosamente, a terrível intempérie. As ondas semelhavam montanhas e, no cocuruto delas, a frágil embarcação era uma casca de noz: corcoveava, pinoteava, equilibrava-se com dificuldade!  Após mil tropeços, chegaram à ponta de Capetuba... Dobraram, sabe Deus com quantos esforços! Lá adiante, o pontal do Itaipu, donde soprava, com força, o aguaceiro sem par. E foram remando, remando...

O segredo se desfaz

    Chegaram a alcançar Piraquara. Em Piraquara, avistaram, lá longe, outra embarcação que vinha vindo, vinha vindo, lutando com os mesmos embaraços. Mal se distinguiam seus tripulantes. Corcoveava, pinoteava, também. Ou até pior. Taylor sentiu um sobressalto. Previu que qualquer coisa estranha estava acontecendo. E estava mesmo. Em breve, ficou sabendo de tudo: A outra catraia cruzava com a sua. Dentro, avistou caixotes empilhados. Aqueles caixotes só podiam ser os do tesouro! E, na mesma embarcação, uns homens vestidos de sotaina [batina]...  Rangeu os dentes de raiva. Soltou uma imprecação de ódio. Blasfemou.

    Logo mais, o temporal tornava-se mais violento. Novos trovões mais fortes. Novos raios mais rutilantes. As ondas subiram mais altas. O barco do tesouro foi ficando mais longe. A catraia de Taylor distanciou-se, também. E, nesse instante, altamente dramático, aconteceu o imprevisto, o inesperado, o inconcebível: a embarcação dos homens de sotaina soçobrava espetacularmente! Ainda se ouviram seus medonhos gritos de horror, vindos de longe, perdidos no ruído da tempestade! Depois, mais nada, apenas a solidão dos mares, apenas a solidão da morte...

    Quem olhasse a figura de Taylor, lívida, esquálida, olhos esbugalhados, todo trêmulo, teria notado duas lágrimas, rolando pelas faces murchas como um pergaminho. Tomou-se, depois, de uma espécie de delírio. Falou coisas desconexas.   Pouco depois, a catraia do inglês ancorava, como um verdadeiro milagre, na ilha das Palmas. Todos aportaram sãos e salvos. Dali, Taylor, como um endemoniado, tocou para Santos. Foi bater na casa de seu amigo John Withal, e contou-lhe tudo. John Withal, que fora sempre seu protetor em todas as horas, acolheu-o, mais uma vez. Homiziou-o. Deu-lhe dinheiro. Pensou numa solução.

    Dias depois, o súdito britânico viajava, como um tripulante qualquer, numa escuna francesa. Deixava para sempre seu lar brasileiro, abandonava sua esposa querida, desprezava seus negócios que iam tão bem, fugia dos poucos amigos, e rumava para a velha Inglaterra, deixando por aqui a lendária e novelesca história em que andara envolvido e que tanto e tanto o atribulara. D. Úrsula nunca mais o esqueceu. Era o Taylor um bom homem. Apenas um pouco casmurro, cismarento, pensando longe... Pensando sempre, num dia distante, que nunca chegou, em que ficaria rico, riquíssimo, como ninguém em São Paulo de Piratininga. Lenda ou realidade ?  O leitor, que tire suas conclusões.


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