OS FRANCESES
NO MARANHÃO

   Desde 1594, alguns traficantes franceses começaram a fixar-se no Maranhão. Um deles, Jacques Rifault, vendo a riqueza da terra, e animado com o acolhimento que lhe faziam os índios, concebeu a idéia de fundar naquelas paragens um estabelecimento definitivo. Nesse propósito, associou-se a alguns companheiros e deliberou retornar à França para trazer novos recursos, deixando em seu lugar, no Maranhão, um tal de Charles Desvaux. Como, porém, Rifault nunca mais voltava, entenderam os sócios impacientes que deviam, por sua conta, enviar um mensageiro à corte para entender-se com o rei.

    Henrique 4º deixou-se inflamar pelas narrativas do aventureiro, acedendo de pronto em fazer estudar as condições em que se poderia estabelecer uma colônia naquelas paragens, quase que inteiramente abandonadas pelos portugueses. Então, incumbiu-se Daniel de la Tousche de visitar o Maranhão e tomar as proporções do problema. La Tousche partiu para a América em 1610 e, dentro de pouco tempo, estava de volta à França, dando as melhores informações acerca das terras cuja conquista se projetava. Henrique 4º, no entanto, acabava de ser vítima do punhal de Ravaillac [Nesse ano, o rei francês associou-se aos protestantes alemães, pretendendo iniciar uma guerra impopular contra a Alemanha e a Espanha, irritando, com isso, seus inimigos, que lhe tramaram a morte]. Maria de Medicis, regente em nome de Luís 13, todavia, amparou o empreendimento organizado por La Tousche, associado agora a Razilly.

    Aquela nova expedição que veio ao Brasil era composta de três navios armados de guerra, trazendo mais de mil homens para iniciar a colônia. Na ilha do Maranhão, encontraram os primitivos imigrantes, ainda muito animados. Nesse tempo, eles haviam feito as melhores relações com os índios, cujo apoio e concurso muito lhes valeram. Os franceses cuidaram, então, de fundar na ilha um forte a que deram o nome de São Luís, em honra ao rei infante, dando origem à cidade que é hoje a capital do Maranhão. Logo que se viram ali bem instalados, foram tratando de ampliar as explorações, principalmente para o lado do rio Amazonas.

    Desde muito se impressionavam os portugueses com o esquecimento em que se ia deixando aquela parte do litoral, assim exposta à façanha dos aventureiros, alarmando-se agora com as notícias vindas do Maranhão. Diogo de Menezes, que em 1606 havia sucedido a Diogo Botelho no governo geral, parecia cada vez mais embaraçar-se com os padres, numa luta de que só resultavam males para a colônia. Assim, este Governador apenas pôde fundar um forte no Ceará, que   foi o princípio da atual cidade de Fortaleza. Em 1608, de novo, o Brasil foi dividido em dois governos com sede, o primeiro na Bahia, e o segundo no Rio de Janeiro. Até 1612, Diogo de Menezes continuou como Governador da circunscrição do norte; e, para o sul, foi enviado D. Francisco de Sousa, ex-Governador e superintendente das minas, o qual, em 1610, foi sucedido por seu filho, D. Luís de Sousa. Este último governou até 1616. Durante a administração de Diogo de Menezes, em 1609, instalou-se na Bahia a primeira Relação [Tribunal de Justiça], composta de nove desembargadores, vindos da metrópole. Em 1612, Diogo de Menezes foi substituído no governo do norte por Gaspar de Sousa, que veio com incumbência especial de expulsar os franceses do Maranhão.

    Em 1617, mais uma vez, os governos do norte e do sul foram reunidos em um só, sendo D. Luís de Sousa nomeado Governador Geral, cargo que ocupou até 1622.

Expulsão dos franceses - Conquista do Pará

   Retrocedendo a 1612: Gaspar de Sousa, provisoriamente, estabeleceu seu governo em Pernambuco. Em seguida, Jerônimo de Albuquerque foi nomeado para comandar uma expedição dirigida contra os franceses, fundando, na baía das Tartarugas, o forte do Rosário. Ignorando que os franceses estivessem tão bem fortificados, incumbiu a Martim Soares Moreno de investir contra eles. Tendo este, porém, reconhecido a importância do inimigo, voltou ao forte do Rosário e aí, pouco depois, os brasileiros sofreram um ataque dos franceses, em aliança com os selvagens. Ante a gravidade da situação, Jerônimo de Albuquerque deixou o forte suficientemente guarnecido e voltou a Pernambuco em busca de reforços.

    Com cinco embarcações sob o comando de Diogo de Campos, trazendo gente de desembarque, portugueses, mamelucos e índios, Jerônimo de Albuquerque avançou afoitamente até Guxindiba, já dentro da baía ao sul da ilha do Maranhão, fundando ali, imediatamente, o forte de Santa Maria. Os franceses começaram logo a dar sinais de hostilidade. Alguns dias depois, a 19 de novembro de 1614, travou-se um combate formal, com as tropas brasileiras comandadas pelo sargento-mor Diogo de Campos. Apesar da grande superioridade do inimigo, os pernambucanos alcançaram uma vitória que se tornou decisiva. Logo depois, Jerônimo de Albuquerque tomou a ofensiva e obrigou La Tousche a capitular. Mesmo vitorioso, o capitão brasileiro ainda teve generosidade excessiva para com os vencidos, concedendo-lhes um longo prazo para a retirada e até indenizações absolutamente descabidas.

    Queixavam-se os franceses do desamparo em que os deixava a metrópole, enquanto, de Lisboa, eram os pernambucanos valiosamente socorridos por uma expedição sob o comando de Alexandre de Moura, a quem o governo da Espanha concedera plenos poderes contra os franceses [lembre-se que, entre 1580 e 1640, Portugal se achava sob o domínio espanhol]. Os comandantes das duas forças tinham combinado entre si comunicar às respectivas cortes a situação dos negócios, de forma a conciliar definitivamente os interesses em conflito naquela região, que os franceses se obstinavam em não reconhecer como de domínio incontestável da coroa portuguesa. Chegando, porém, a Itapari, parte da ilha do Maranhão já ocupada pelos brasileiros, o novo comandante desautorizou Jerônimo de Albuquerque, anulando, pois, o convênio que este havia feito com La Tousche.

    Dispondo de forças consideráveis, Alexandre de Moura pôs os franceses sob cerco, obrigando-os a capitular, no dia 1º de novembro de 1615, e intimando-os a sair imediatamente do território ocupado, concedendo-lhes apenas o direito de retirada em ordem, com os bens que pudessem conduzir. No dia 3, os intrusos deixaram aquela terra, onde tantas esperanças os tinham seduzido.  Jerônimo de Albuquerque foi investido do cargo de capitão-mor do Maranhão, enquanto Francisco Caldeira Castelo Branco era encarregado de prosseguir para além na conquista do litoral.

    Chegou Castelo Branco à baía de Turiassu, ainda em 1615, onde mandou fazer as necessárias explorações e, em seguida, avançou até Guarujá, entre a ilha do Marajó e o continente. Teve notícias de que, por ali, já haviam andado os holandeses e, por segurança dos seus empreendimentos, mandou logo construír o forte do Presépio, em torno do qual se formou a povoação que mais tarde veio a ser a cidade de Belém. Sem demora, expediu uns vinte homens sob o comando de Pedro Teixeira, incumbidos de destruir as feitorias dos holandeses. Expulsos estes, Castelo Branco entrou numa luta desesperada com os índios. Muito custou a defesa do forte, pois, além de colisões com o gentio, puseram-se em discórdia os conquistadores. Por fim, o capitão-mor é deposto pelo governo e começa a reinar ali a mais completa anarquia, contra a qual nada pôde fazer o novo capitão-mor, Jerônimo Fragoso de Albuquerque.

Estado do Maranhão

   Ia-se fazendo, rapidamente, a conquista do litoral, até para além da foz do Amazonas. Por ali, foram ainda mais competidas as lutas que os portugueses tiveram de travar contra os intrusos, e principalmente contra o gentio, cada vez mais tremendo na resistência oposta aos invasores. O primeiro capitão-mor do Pará, Castelo Branco, tinha conseguido bater a multidão de traficantes, da Inglaterra, da França e da Holanda, que teimavam em se apossar de trechos da costa. Mas, expulsos de um ponto, passavam-se para outro, e iam assim criando os maiores embaraços à ação dos colonos. Os mais recalcitrantes e tenazes foram os holandeses, os quais só em 1621 puderam ser expulsos do Amazonas por Bento Maciel.

    Este Bento Maciel é uma das figuras mais curiosas daqueles tempos. Tornou-se ele famoso pela sua audácia destemperada, pelo seu espírito de intriga e, sobretudo, pela crueldade com que perseguiu e exterminou muitas das numerosas tribos indígenas que, do sul do Amazonas, haviam refluído para a bacia do rio-mar. Anteriormente, no Maranhão, Bento Maciel já havia sido encarregado por Jerônimo de Albuquerque de levar uma grande bandeira ao interior dos sertões, à busca de ouro. Tais foram os horrores cometidos por Bento Maciel contra os índios que, de volta daquela missão, foi preso e enviado a Pernambuco. Mas o Governador D. Luís de Sousa, em vez de puni-lo por semelhantes atrocidades, preferiu aproveitar-lhe os serviços contra as hordas insurgidas que alarmavam todo o norte.

    Bento Maciel assume, pois, o comando de uma formidável expedição contra os índios do Pará e os acossa para os sertões do Amazonas. Ali mesmo, no Pará, ataca os últimos intrusos e põe-se logo em conflito com o capitão-mór Jerônimo Fragoso. Após a morte deste, tramou tais maquinações que, depois de algumas administrações interinas, cada qual mais inútil, pela inabilidade dos administradores e pelas complicações que se acumulavam, conseguiu ele apossar-se do governo, em 1621. Apesar de sua índole aventurosa, do seu temperamento irriquieto e turbulento e do seu gênio violento, Maciel tornou-se muito útil ali, pela sua infatigável atividade, e pela grande energia com que defendeu a colônia contra agressões externas, ao mesmo tempo em que estendia para o interior a conquista e exploração do país.

    A capitania do Maranhão desenvolvia-se rapidamente. Para ali afluíam muitas famílias de imigrantes portugueses, principalmente ilhéus dos Açores e da Madeira.  Muitas famílias também se trasladavam de outras capitanias vizinhas para as povoações daquela parte do litoral. Em pouco tempo, por toda a costa, se haviam fundado diversos estabelecimentos. No entanto, as contínuas discórdias entre alguns chefes, bem como entre as autoridades civis e os padres, eram sempre um impedimento crescente à prosperidade das capitanias do extremo norte.

    Foi por isso que a corte de Madri deliberou criar naquela parte o Estado do Maranhão , independente do Estado do Brasil, e composto das capitanias do Pará, Maranhão, Piauí e Ceará, conforme decreto de 13 de junho de 1621. O primeiro Governador do novo Estado foi Francisco Coelho de Carvalho, capitão-mór da Paraiba. Sua nomeação deu-se em 1624 mas, devido à má situação dos negócios, e principalmente à primeira investida dos holandeses, só em 1626 pôde assumir o exercício do cargo. Coelho fundou novos núcleos coloniais no litoral e repeliu assaltos de ingleses e de flamengos [holandeses]. Veio a falecer em 1636, sucedendo-lhe Jácome Raimundo de Noronha, sob cuja administração, Pedro Teixeira parte para explorar o Amazonas até o Peru.


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