A VISÃO DE HELIO FERNANDES SOBRE
A VINDA DA FAMÍLIA REAL
Tribuna da Imprensa (RJ) - 14 de março de 2008
A subserviência histórica do Brasil
E o exagero inexplicável aos 200 anos da chegada da Família Real Desde o início fiquei estarrecido com o estardalhaço das comemorações dos 200 anos da chegada ao Brasil da Família Real de Portugal. (Leia-se: fuga covarde diante da avassaladora invasão das tropas da França. E nem era Napoleão como dizem, este ficou bem longe. As tropas que assustaram o amedrontado Dom João VI eram comandadas pelo general Junot, que não era nem o segundo de Napoleão). A fuga de Dom João VI e dos apaniguados e favoritos foi vergonhosa e desastrada. Embarcaram amontoados uns nos outros, em navios sem nenhuma segurança, viajaram por mares nunca dantes navegados, principalmente por eles. Chegaram, viram e não venceram. Instalados magnificamente, continuaram a exploração das riquezas do Brasil, coisa que já faziam desde Pedro Alvares Cabral. Pouco antes, degolaram, salgaram e partiram em dezenas de pedaços, que foram espalhando do Rio a Minas Gerais. Quem foi que sofreu tudo isso? Tiradentes, o herói da resistência contra o colonialismo e a exploração de Portugal. Agora, exaltamos de forma primária, subserviente e vergonhosamente bajulatória, aqueles que massacraram um dos maiores heróis (dos raros que temos) da nossa história. 1 - Devemos alguma coisa a Dom João VI ou aos portugueses? 2 - Ele remodelou a cidade, como dizem sem pudor e sem constrangimento? 3 - Abriu os portos, apregoada grande conquista do Brasil? 4 - Foi a alavanca e o ponto de apoio da Independência de 1822? Vamos esclarecer cada um desses pontos, de forma sumária, não pode ser de outra maneira. Existem mais, fiquemos em quatro. 1 - Dom João VI usou e abusou das nossas belezas e riquezas, não fez nada pelo Brasil ou pelo Rio. Era estouvado, amarfanhado, só gostava de comer e de dormir. Devemos alguma coisa a ele? Nada vezes nada. 2 - Hilariante a afirmação de que REMODELOU a cidade. Era preguiçoso e inútil demais para isso. Viveu esplendidamente na Quinta da Boavista e depois no Jardim Botânico, que era lindíssimo, e comprou por 200 mil contos de réis do empresário de fogos explosivos Rodrigo de Freitas, que depois seria nome da Lagoa. Dom João VI abriu apenas uma rua. Um sobrinho teve problemas numa das vistas, precisava ser tratado na centenária (já naquele tempo) Santa Casa. Como era impossível levar o rapaz na liteira, não havia caminho, mandou abrir uma rua. Que chamou de Santa Luzia, padroeira dos olhos. 3 - A abertura dos portos era obrigatória para Portugal, os desinformados creditaram isso na conta de Dom João VI como benefício para o Brasil. Com o general Junot acampado em Lisboa, e o medo incrustado na alma, na mente e no coração de Dom João VI, ele não podia voltar. Mas e as exportações e importações, indispensáveis para o reino? Então, abrindo os portos do Brasil, tudo era feito por aqui. E os trogloditas e iconoclastas saudando, ATÉ HOJE, Dom João VI por essa abertura de mão única. 4 - Dar a Dom João VI os créditos pela Independência de 1822 é o ponto mais alto da desinformação. Depois da frase tola, "façamos a revolução antes que o povo a faça", Dom João VI deu a maior demonstração da burrice crassa que o acompanhava: achou que já havia roubado tudo que o Brasil possuía de riqueza, quis se livrar disso. Ofereceu o Brasil à Inglaterra. Esta que era "dona" de vastas terras na África, "proprietária" do Canadá, da Austrália (que se chamava então Australásia), da Índia (acabara de perder aquelas possessões que se transformariam nos Estados Unidos da América do Norte) não admitiu ficar com o Brasil. Como Portugal devia 175 mil libras à Inglaterra, esta só queria saber QUEM IRIA PAGAR. Lógico, os brasileiros, trouxas de sempre. Começava então a DÍVIDA EXTERNA, que só faria crescer, administrada pelo gênio financeiro dos Rothschilds. (Só Prudente de Moraes, presidente em 1896, se recusou a RENEGOCIAR A DÍVIDA).
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