O CAMINHO DA
INDEPENDÊNCIA

   O dia 9 de janeiro de 1822 [Dia do "Fico"] podia ser considerado como a verdadeira data da nossa emancipação política. Resistindo formalmente às injunções das cortes portuguesas, D. Pedro tomava, francamente, o partido dos brasileiros, assumindo pessoalmente a responsabilidade de um rompimento definitivo com a metrópole. A facção que preferia a volta do regime colonial mostrou-se logo adversa ao que se passava e, sobretudo, ficou muito irritada com a insubordinação do príncipe. No meio das festas que se celebravam em toda a cidade, os soldados da divisão auxiliadora iam provocando desordens e cometendo desacatos contra os brasileiros. O comandante dessa força, general Avilez, quis, mesmo, reagir e inutilizar os planos do príncipe, forçando-o a embarcar para a Europa, conforme tinha ordenado o governo português.

    D. Pedro, porém, tomou atitude enérgica, à frente dos milicianos brasileiros e de grande número de patriotas. No campo de Santana reuniram-se tropas e povo fiéis ao príncipe, enquanto Avilez tomava posição no alto do Castelo, preparando-se para romper fogo contra a cidade.  D. Pedro dirigiu uma proclamação ao povo, pedindo, naquela emergência, o concurso de todos os brasileiros. Felizmente, o general português compreendeu a gravidade do momento e cedeu à intimação que lhe fez o Regente, capitulando, e partindo, logo depois, para a Europa. Estava ganha pelos independentes mais aquela batalha. Para assegurar o triunfo completo e definitivo da causa nacional, entra em cena, a partir de então, a figura destacada de José Bonifácio, que dá vigoroso impulso e direção firme à obra da Independência.

    Nomeado ministro do reino e dos negócios estrangeiros, José Bonifácio exerceu notória influência sobre o espírito de D. Pedro e cuidou, com solicitude e habilidade, de criar uma situação da qual fosse impossível recuar.   Um dos primeiros atos que José Bonifácio inspirou ao príncipe foi a convocação de um Conselho de Procuradores Gerais de Província, o qual devia ter   quase a função de uma assembléia constituinte. Era desta forma que o governo do Regente respondia aos decretos das cortes de Lisboa. A 21 de fevereiro era publicada uma resolução que estabelecia a necessidade do cumpra-se do governo regencial para que pudessem ser executadas as leis e ordens que emanassem do governo português, com o que a soberania da metrópole foi reduzida a um mito. Por último, um aviso dirigido a todos os governantes de províncias marítimas, ordenava a proibição de desembarque de forças portuguesas.

    Frente à atitude do governo do Rio, correspondia, em geral, o movimento favorável de opinião em todos os pontos do país, por mais anormal e agitada que fosse a situação dos ânimos em toda parte. Portugal, como era natural, procurou conter a onda dos acontecimentos. A 9 de março chegava ao Rio de Janeiro uma esquadra, comandada por Francisco Maximiliano de Sousa, com os reforços que o general Avilez [agora em Portugal] solicitara. Surpreendentemente, esta esquadra, em vez de criar embaraços, trouxe mesmo vantagens à causa dos independentes. Sousa desistiu de hostilizar o príncipe, retirou-se e, ainda mais, deixou no Brasil grande parte das forças que trazia. No meio das dificuldades que o príncipe vinha dominando, havia, porém as contínuas dissensões entre os chefes nacionalistas, mas D. Pedro, seguro e desassombrado, usava de seu prestígio para restabelecer a concórdia.

    Em Lisboa, o espanto e indignação não tinham limites. Nas cortes, uma tempestade se desencadeava contra o Brasil. Valeu, e muito, que o Brasil tinha assento nas cortes e nossos representantes ali se bateram com heroísmo pela causa da pátria, a tal ponto que, os mais audaciosos, foram obrigados a se retirar de Lisboa para escapar à sanha da populaça. O governo português, instigado pelas cortes, preparou novas tropas para expedir contra o Brasil e ordenou a todos os seus agentes na Europa que impedissem o despacho de armas e munições de guerra com destino a portos da colônia. A essa medida, rebateu José Bonifácio, avisando os agentes consulares no Rio de Janeiro que o governo do Regente dispensava despacho de autoridades portuguesas para artigos de guerra, e que tais artigos seriam despachados nas alfândegas brasileiras sem   as formalidades vigentes.

O grito do Ipiranga

   Como se vê, na resolução e coragem com que defendia a causa da independência, o governo do príncipe andava adiante do povo. Por ocasião de comemorar-se o aniversário natalício de D. João 6º, o Senado da Câmara do Rio, sem esquecer as homenagens devidas ao Rei, chegou a pedir ao príncipe Regente que aceitasse para si e para seus descendentes, o título de Defensor Perpétuo do Brasil, ao que D. Pedro não rejeitou, já consciente da responsabilidade que assumia perante a nação portuguesa. Deu-se esse fato a 13 de maio, data que também se poderia considerar como a da nossa Independência.

    Animados com a disposição do príncipe, os patriotas trataram de assegurar, o mais prontamente possível, o êxito da grande causa. Nova representação foi levada ao paço da cidade, sugerindo a D. Pedro que, em vez do Conselho de Procuradores Gerais, convocasse logo uma Assembléia Constituinte, que se incumbisse de organizar a nação. Como aquela era a mais grave das resoluções que teria de tomar, primeiro o Regente auscultou o sentimento das diversas províncias e, a 3 de junho, era publicado o decreto da convocação. Nada mais faltava, portanto, senão o encontro definitivo com a metrópole, no terreno da força. Para completar o decreto relativo à Constituinte, D. Pedro respondeu às ameaças de Portugal, declarando que seriam tratadas como inimigas as tropas portuguesas que desembarcassem em território brasileiro sem permissão do governo regencial.

    Essa resolução é de 1º de agosto e, nesse mesmo dia, era feita uma proclamação ao povo, que se tornou famosa, e que era uma positiva declaração de que estavam rotos os laços de dependência com a metrópole. Nesse documento, as palavras nada mais dissimulavam: "Do Amazonas ao Prata, não retumbe outro eco que não seja Independência." As cortes de Lisboa, no desespero que tais acontecimentos causavam por lá, opunham outros decretos aos do Regente, enquanto o Regente, indiferente a essas medidas, ia seguro no seu caminho. Logo depois do decreto e da proclamação de 1º de agosto, D. Pedro dirigiu um manifesto às nações amigas explicando os motivos que o levavam a resistir aos intentos da metrópole.

    Como acabava de dar-se em Minas, onde o príncipe, com sua presença, tinha conciliado diversos chefes divergentes, também na província de São Paulo a discórdia ia comprometendo a aspiração suprema daquele momento, em que era tão necessária a união de todos os brasileiros. Por isso, D. Pedro deliberou ir também pessoalmente apelar para o patriotismo dos paulistas e, a 14 de agosto, partia para São Paulo, onde chegava a 26 de agosto [doze dias de viagem], despertando entusiasmo geral. Bastou a presença do príncipe para restabelecer a concórdia entre os paulistas. Da capital da província, o Regente foi à Marinha, visitando Santos e as fortificações da barra.

    No dia 7 de setembro de 1822, D. Pedro punha-se em caminho, de volta a São Paulo e, à tarde, achava-se o príncipe, com sua comitiva, já perto da cidade, junto ao riacho do Ipiranga, quando vai ao seu encontro um emissário, vindo a toda a pressa do Rio de Janeiro, o qual lhe apresenta despachos que acabavam de chegar de Lisboa. Com esses despachos, também lhe foram entregues cartas de José Bonifácio e da princesa D. Leopoldina, que ficara no Rio como Regente interina. Ali mesmo, D. Pedro leu e releu toda a correspondência e, após alguns momentos de hesitação, arrancou do chapéu o laço português e gritou, no meio do espanto e do entusiasmo de todos: "Independência ou Morte!". É indescritível o que se passa a seguir e, ao entrar na cidade, o príncipe foi recebido no meio de delírio geral [Veja o depoimento de duas testemunhas].
Leia também: Três cartas da Imperatriz Leopoldina.

Lutas da Independência

   Para D. Pedro, a viagem de volta, de São Paulo até o Rio, foi uma verdadeira marcha triunfal. Tendo chegado à noite de 14 de setembro [a viagem de volta durou, pois, sete dias], no dia seguinte, ele já se apresentava no Teatro São João com o distintivo, de letras amarelas, fita verde e os dizeres "Independência ou Morte!". Cerca de um mês depois (outubro), por iniciativa do Senado da Câmara, D. Pedro era aclamado solenemente por uma grande massa do povo, reunido no campo de Santana, como Imperador Constitucional do Brasil. Nesse mesmo dia, D. Pedro fez publicar um manifesto, em que se dirigia de forma especial, aos portugueses, concitando-os a firmar amizade com os brasileiros e, caso Portugal pretendesse desconhecer a obra consumada, jurando-lhes guerra de morte como inimigos da pátria constituída.

    Dado aquele grande passo decisivo, o chefe da nova nação, cercado de homens notáveis e de vasto prestígio, cuidou de fazer sua autoridade reconhecida em todas as províncias. No Pará, no Maranhão, na Bahia e na Cisplatina, foi necessário operar com energia para expelir tropas portuguesas que teimavam em manter-se fiéis ao governo da antiga metrópole. Na Bahia, principalmente, aquelas tropas deram muito trabalho e, já muito antes de 7 de setembro, se havia expedido o general Pedro Labatut, apoiado por uma esquadrilha ao mando do chefe da divisão De Lamare. O general português Madeira de Mello, que havia sido nomeado dez meses atrás para substituir a um comandante brasileiro, acabava de receber valiosos reforços da Europa e ofereceu tenaz resistência à nova ordem, até que, não podendo mais sustentar sua posição, resolveu embarcar para o reino.

    No dia 2 de julho de 1923, as forças brasileiras entravam na capital da Bahia [esta data é comemorada na Bahia como o verdadeiro Dia da Independência]. Dali, Lord Cochrane, que havia assumido o comando da esquadrilha imperial, seguiu para o Maranhão, onde logo submeteu os reacionários e enviou sobre o Pará o capitão Greenfell. Este, do mesmo modo, conseguiu colocar aquela província sob a autoridade de D. Pedro. Sem esquecer os grandes serviços prestados ao Império por este marinheiro, a História não pode absolvê-lo dos grandes crimes que cometeu e, por honra da justiça humana, há de levar à consciência da posteridade o mais nefando desses crimes. Logo depois que se instaurou em Belém do Pará a nova ordem de coisas, começaram a aparecer dissensões que obrigaram Greenfell desembarcar tropas e fazer prisões em massa, para restabelecer a ordem. Não havendo cárceres em terra, mandou Greenfell encerrar duzentos e cinqüenta e tantos infelizes no porão de um navio, onde todos, menos um,  morreram asfixiados, depois de haverem sofrido os horrores da fome e da sede.

    A respeito, diz Matoso Maia: "Custa-nos crer que essa carnificina, a mais bárbara que apontam os anais de nossa História, tivesse sido ordenada por um inglês engajado ao serviço do Brasil para batalhar pela causa da Independência nacional." E acrescenta o ilustre professor, depois de firmar a responsabilidade de Greenfell por aquela horrorosa matança, mesmo que não a tivesse ordenado: "Se impune ficou tão negro procedimento, sirva o veredicto da História, ao menos de castigo a um tão grande crime e de holocausto aos manes [almas elevadas à condição de divindade] desses 257 brasileiros tão atrozmente sacrificados." O que mais espanta, é que o próprio governo imperial se mostrasse insensível e indiferente ante aquela clamorosa impiedade, e ainda continuasse a aceitar serviços do desentranhado mercenário!"

    A submissão de todo o norte foi seguida do reconhecimento da Independência em todo o sul. Na Província Cisplatina, o general português Álvaro da Costa, com cerca de quatro mil homens, entrincheirara-se em Montevideu, e ali resistiu por muitos meses ao sítio que lhe impusera o general Lecor. Porém, assim que teve notícias das vitórias alcançadas pelas armas brasileiras na Bahia, no Maranhão e no Pará, não hesitou em capitular, o que aconteceu em 18 de novembro de 1823, embarcando para a Europa, com sua divisão de Voluntários Reais. O novo império dava, assim, provas de que já podia apoiar no esforço e no valor de seus filhos o direito de erguer a voz soberana entre as nações do mundo.

O reconhecimento de Portugal

   Ao mesmo tempo que sustentava contra Portugal a Independência proclamada, o governo do Imperador ia procurando o reconhecimento de outras nações, e para isso nomeou representantes seus junto aos principais gabinetes da Europa. Por outro lado, Portugal, favorecido por alguns governos, continuava a insistir pela conservação, ao menos, de uma certa tutela ou ascendência sobre o nosso país. Então, o gabinete de Londres ofereceu sua mediação amistosa entre os governos do Rio de Janeiro e de Lisboa. Em face, porém, da impertinência das cortes portuguesas, resolveu bruscamente dar como inúteis os seus esforços e deliberou enviar um encarregado de negócios ao Rio, reconhecendo, desse modo, a existência do novo Estado. Já, antes disso, o governo norte-americano havia reconhecido a nossa Independência.

    Compreendendo, afinal, que nada mais poderia tentar contra o fato consumado, em 29 de agosto de 1825,  resolveu D. João VI entrar em acordo com o governo imperial. Incumbiu isso ao representante da Inglaterra, com quem D. Pedro combinou as bases de um tratado, pelo qual era reconhecida a Independência do Brasil mediante uma indenização a ser paga ao governo português, no valor de dois milhões de libras esterlinas. Mas, se no exterior, a obra da nossa emancipação política era assim afagada pela fortuna e contava com a simpatia de outros povos, já dentro do país essa obra ainda teria de custar muito sacrifício, pelos embaraços e tropeços de toda ordem, que o novo governo tinha de vencer.

A Assembléia Constituinte

    Passado o momento em que o ideal de Independência unia todos os patriotas, surgiu nova fase, em que começaram a aparecer dissensões, e a política interna teve de atravessar um período mais difícil e mais cheio de perigos que a precedente. Além do processo invulgar para o reconhecimento da independência por Portugal, que envolveu um arranjo familiar, duas outras causas acidentais concorreram para que se tornassem agitados os primeiros anos do império: o autoritarismo de D. Pedro I e a influência indisfarçável dos Andradas. Assim que se viu coroado imperador, D. Pedro não hesitou em aceitar o desafio que lhe lançara o espírito liberal, assumindo francamente uma atitude de aberta resistência. Nem trepidou em perseguir os próprios chefes mais notáveis, entre os que haviam colaborado para a obra da Independência, deportando uns e obrigando outros a fugir para o estrangeiro.

    A princípio, apesar de sua índole absolutista, o Imperador até que se mostrava condescendente com os Andradas mas, quando estes se viram na oposição, mostraram-se de um liberalismo tão exaltado que parecia, mesmo, propenso a exceder aos moldes monárquicos. No início de abril de 1923 o ânimo público se manifestava em grande ansiedade pelos eventos que se prenunciavam. No dia 3 de maio de 1923 era instalada, solenemente, a Assembléia Constituinte. É provável que D. Pedro não se apercebesse da situação excepcional que se ia criando. Como homens de partido, os Andradas puseram-se ao lado da coroa, enquanto era preciso se concretizar elementos para a organização de um governo forte e desassombrado. Mas D. Pedro se esqueceu que seus auxiliares eram brasileiros, os mesmos brasileiros que, no seio das cortes portuguesas tinham feito troar, vibrante e temerosa, a voz da nova potestade que se erguia.

    Desde que os Andradas firmaram seu prestígio, a grande causa nacional, avassaladora e suprema, passava a colocá-los em colisões inevitáveis com as tendências do Imperador. Divorciados dos intuitos de D. Pedro, José Bonifácio e Martim Francisco demitem-se do Ministério e vão, com Antônio Carlos e outros, dirigir a formidável campanha que se levanta contra a política imperial. Com o projeto de Constituição que Antônio Carlos apresentara, a atitude dos liberais assume proporções de um franco rompimento. Por esse projeto, o governo que se organizava ia ser quase um governo republicano, tendo um chefe com o título de Imperador. Só aí D. Pedro compreendeu que a tempestade ia desencadear-se.

O fechamento da Assembléia
e a Constituição outorgada

   Com as agitações que se iam fazendo no seio da Constituinte, exacerbavam-se os ânimos, sobretudo entre portugueses e brasileiros, estimulados pela atitude da imprensa oposicionista em relação aos portugueses. Os tumultos que se deram durante a primeira quinzena de novembro de 1923 obrigaram o presidente da Assembléia a suspender indefinidamente as sessões. O ministério, sem prestígio para evitar os embaraços, foi substituído. Paralelamente, D. Pedro assumiu afoitamente a direção do momento difícil que se atravessava e tratou de reunir tropas para afrontar as fúrias que se desprendem. Ao saber disso, a Assembléia reabre, declarando-se em sessão permanente e reclamando explicações do governo sobre sua atitude. A crise atingia, assim, um aspecto de excepcional gravidade.

    No entanto, D. Pedro não hesitou ante as responsabilidades com que ia arcar e, a 12 de novembro de 1823, decretava a dissolução da Constituinte, fazendo prender e deportar os mais exaltados e prestigiosos, dentre os chefes liberais. Em seguida, nomeou um Conselho de Estado, composto de dez membros, dando-lhe a incumbência especial de redigir uma Constituição. Em poucos dias, estava já formulado o projeto que o Imperador ia outorgar, muito à semelhança da então recente Constituição portuguesa. A 25 de março de 1824, essa Carta era solenemente jurada na capital do Império e nas províncias. É de justiça dizer-se que, na Constituição decretada, D. Pedro transigia, o mais que lhe era possível, com o sentimento nacional. Por toda a parte, já se fizera sentir a influência da Revolução Francesa, principalmente na América, onde a ausência de tradições facilitava a vitória dos grandes princípios que tinham sido proclamados. Assim, a par das disposições altamente conservadoras, figuravam, na Carta Constitucional de 1824, preceitos salutares de liberalismo.

[Adendo: Saiba a diferença entre promulgar e outorgar uma Constituição. Quando uma Assembléia Constituinte redige, discute, vota e assina o documento, sem interferência do Executivo, diz-se que a Constituição foi promulgada. É a forma democrática de se criar a Carta Magna, pois houve participação popular, na pessoa dos representantes eleitos. Agora, se o Executivo (no caso, o Imperador), manda redigir a Constituição e ele mesmo assina, sem participação do Congresso, diz-se que ela foi outorgada, isto é, concedida pela autoridade maior. É a forma usada pelas ditaduras ou regimes fortes. No Brasil, tivemos outorgadas as Constituições de 1824, assinada por D. Pedro I; de 1937, assinada por Getúlio Vargas; e a de 1969, assinada por uma Junta Militar. Esta última recebeu o nome de Emenda nº1, mas as modificações feitas sobre a Constituição de 1967 foram tantas que, na prática, passou a ser uma nova Constituição. Todas as três   foram assinadas em regime de exceção, com o Congresso fechado. A Constituição de 1824, embora liberal,  possuía um quarto poder, o Poder Moderador, acima dos outros três poderes (legislativo, judiciário e executivo), que permitia a ingerência direta do Imperador nos negócios do país. Da eleição ao Congresso Nacional participavam somente homens, proprietários de terra e com adequado nível de renda. Os Presidentes de Província eram nomeados pelo Imperador. A partir de 1834, foram criadas Assembléias Legislativas nas províncias. A partir de 1847, o regime passou a ser parlamentarista. O Imperador indicava o Presidente do Conselho, que organizava o Ministério, segundo as forças políticas dentro do Congresso, com as quais governava. Mas, na prática, foi o Imperador que continuou governando, pois o seu Poder Moderador permitia a dissolução do Congresso e convocação de novo pleito. De 1847 a 1889 tivemos um total de 28 gabinetes, o que dá idéia da turbulência política e da disputa pelo poder. Veja quais foram os Presidentes de Conselho indicados pelo Imperador para formar esses Ministérios.

A Confederação do Equador

    Os acontecimentos ocorridos no Rio de Janeiro tinham larga repercussão nas províncias. O arbítrio do Imperador começou logo a inspirar desconfianças ao partido mais avançado em seus conceitos, e isso ocorreu principalmente em alguns pontos do norte, onde as idéias francamente republicanas faziam progresso alarmante. O ato da dissolução da Constituinte foi recebido pelos republicanos, em toda a parte, como uma violência inominável e um grande atentado à nação, ocorrendo essa desconfiança principalmente em Pernambuco, onde despertaram o alarme geral dos patriotas sobreviventes da trágica revolução de 1817. Um desses sobreviventes, Manuel de Carvalho Pais de Andrade, começa a levantar heróico protesto contra o ato do Imperador. A ele, juntam-se outros chefes pernambucanos, e publicam um manifesto em termos violentos, no qual denunciavam à nação o crime do grande traidor.

    A insurreição estendeu-se depressa até o Ceará e o governo provisório, estabelecido em Recife, a 2 de julho de 1824 proclamou a união das províncias que aderiram ao movimento, constituídas em Estado livre sob a denominação de Confederação do Equador. Um rico proprietário de Recife, nomeado presidente da província de Pernambuco, iniciou prontamente a reação, com apoio de algumas forças que se conservaram leais ao império. Por sua parte, o governo imperial expedia para o norte, sem demora, forças de terra, sob o comando do coronel Francisco de Lima e Silva, e forças de mar, sob o comando do lorde Cochrane. Operando combinadamente, e de acordo com os voluntários pernambucanos, aquelas forças conseguiram retomar a capital da província no dia 12 de setembro de 1824. Os revolucionários, então, fortificaram- se em Olinda, mas, cinco dias depois, eram derrotados, num renhido combate.

    Paes de Andrade, que se refugiara a bordo de um navio inglês, procura, ainda, reanimar os seus comandados mas, de desastre em desastre, a revolução foi definhando, até a rendição final. Nas outras províncias por onde havia se alastrado o movimento, a restauração da legalidade se fez, então, facilmente. Logo após,  seguiram-se as costumeiras perseguições e vinganças, de cuja pompa sacrílega se desvanece, quase sempre, a covardia dos vencedores. O terror dominou, por longos meses, naquelas míseras províncias. Não satisfeito com a severidade dos tribunais regulares, o governo imperial entregou a alçadas especiais a sorte dos implicados na sublevação. Tão grande foi o número de execuções, e tão rigoroso se mostrava, cada vez mais, o governo, que os próprios juizes (como acontecera em 1817) representaram ao Imperador contra o sacrifício de tantas vidas. Por fim, a clemência imperial, conquanto tardia, salvou, ainda assim, alguns dos comprometidos.

E os problemas se sucedem

    As complicações da política interna se tornam cada vez mais graves. O governo tinha de andar contendo as contínuas agitações em que vivia a população da capital e, ao mesmo tempo, tinha de reprimir o espírito de anarquia que lavrava por todo o país. Na província da Bahia, não cessavam as perturbações, e nem o rigor aplicado aos revoltosos de Pernambuco  serviu para conter a audácia dos baianos na exaltação do sentimento liberal. Acostumado a por em ação o seu prestígio pessoal (que dera certo antes), D. Pedro resolveu ir ao norte. Conquanto não despertasse ali o entusiasmo que esperava, sua presença obteve alguns resultados e, tendo aplacado os ânimos, restaurando ordem na província, voltou o Imperador para acudir aos acontecimentos do Prata, acerca dos quais já nos antecipamos no capítulo anterior.

    Assim é que D. Pedro seguiu para o extremo sul, na confiança de que, com sua presença, iria mudar a situação. Nem bem chegou ao Rio Grande, e já teve motivos para retroceder incontinente, confiando ao marquês de   Barbacena o comando geral das forças em operação contra os argentinos. [Felisberto Caldeira Brant Pontes Oliveira e Horta, marquês de Barbacena, era mineiro da cidade de Mariana e foi quem, como ministro, assinou o contrato do segundo casamento de D.Pedro. Introduziu no Brasil a navegação a vapor e a vacina antivariólica]. Conforme já foi narrado no capítulo anterior, após a batalha de Ituzaingo, o Exército Imperial se retirou, enquanto nossa esquadra naval sofria idêntico revés. Logo após, houve o tratado de paz com os argentinos, ficando reconhecida e assegurada a Independência da República do Uruguai.

    No meio dos embaraços que solicitavam, de todos os lados, a atenção do governo imperial, este não se descuidava, porém, das medidas gerais visando a encaminhar o desenvolvimento econômico do país. De 1826 a 1829, o Brasil celebrou tratados com a França, a Inglaterra, a Áustria, com Hamburgo e Bremen, com a Prússia, Dinamarca, Holanda, Estados Unidos, etc.  Por decreto de 11 de agosto de 1827, foram criadas as academias de direito de Pernambuco e de São Paulo, as quais eram instaladas logo no ano seguinte. Ao mesmo tempo, o governo tomava providências em prol da instrução popular, ordenando que se criassem escolas em todas as cidades e vilas do Império.

    Todavia, a partir de 1828, as dificuldades crescentes foram assoberbando o ânimo do imperador. Em 6 de julho de 1828, ocorre insólita afronta à nossa soberania, feita pelo contra-almirante francês Roussin, o qual, com três navios, penetra na nossa baía, com mechas já acesas para detonar os canhões. A propósito das lutas no sul, exige ele não só uma satisfação do governo imperial, mas ainda o pagamento imediato de prejuízos causados aos súditos da França, bem como a devolução de navios apreendidos no Prata por ocasião do bloqueio de Buenos Aires. O governo brasileiro teve de ceder à imposição. Pouco depois da agressão dos franceses, a população do Rio de Janeiro é alarmada com a revolta de alguns batalhões de soldados mercenários, que serviam o Brasil desde a Independência. Durante três dias, a população fluminense esteve sob a pressão da soldadesca amotinada.

    Reprimida, enfim, a sedição, os batalhões foram dissolvidos, e a maior parte de seus componentes foi deportada. Em janeiro de 1829, ocorreram novos motins na Bahia e em Pernambuco. Para agravar a situação, lá em Portugal, o príncipe D. Miguel tenta usurpar o trono e fazer-se rei absoluto [D. Miguel era irmão de D. Pedro I, mas, pela linha de sucessão, o trono cabia à filha deste último, D. Maria da Glória]. A interferência de D. Pedro em problemas que nada tinham a ver com o Brasil irritou os brasileiros e exacerbou ódios antigos. Até princípios de 1831, o espírito público andou em contínua agitação. No dia 5 de abril de 1831, D. Pedro resolve mudar o Ministério, chamando para junto de si somente os cortesãos, com cuja dedicação à sua causa pessoal poderia contar.  O povo, reunido no campo da Aclamação, incumbe uma comissão de Juizes de Paz de ir ao paço de São Cristóvão reclamar a reintegração do Ministério destituído. D. Pedro se recusa, mas as diversas milícias vão aderindo à causa popular, até que, em 7 de abril de 1831, abandonado e só, D. Pedro resolve abdicar em favor de seu filho, partindo, em seguida, para a Europa [leia "O começo do fim"].


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