Depoimento
do Padre Belchior Pinheiro
Foi
nessa altura, no lugar denominado Moinhos, que dois correios da Corte se aproximaram
açodadamente. Entregaram importantes papéis ao príncipe. O príncipe mandou ler alto as
cartas trazidas por Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro. Eram elas: uma instrução das
Cortes, uma carta de D. João [chegadas de Portugal], outra da princesa, outra de
José Bonifácio e ainda outra de Chamberlain.
D. Pedro, tremendo de raiva, arrancou de minhas mãos os papéis e,
amarrotando-os, pisou-os, deixou-os na relva [N da R: então não estava sobre o
cavalo]. Eu os apanhei e guardei. Depois, virou-se para mim e disse: - "E agora, padre Belchior?" E eu
respondi prontamente: - "Se V. Alteza não se
faz rei do Brasil será prisioneiro das Cortes e, talvez, deserdado por elas. Não há
outro caminho senão a independência e a separação.
D. Pedro caminhou alguns passos, silenciosamente, acompanhado por mim,
Cordeiro, Bregaro, Carlota e outros, em direção aos animais que se achavam à beira do
caminho. De repente, estacou já no meio da estrada, dizendo-me: - "Padre Belchior, eles o querem, eles terão a sua
conta. As cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de rapazinho e de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão quebradas as
nossas relações; nada mais quero com o governo português e proclamo o Brasil, para
sempre, separado de Portugal."
Respondemos imediatamente, com entusiasmo: - "Viva a Liberdade! Viva o Brasil separado! Viva
D. Pedro!" O príncipe virou-se para seu ajudante de ordens e falou: - "Diga à minha guarda, que eu acabo de fazer a
independência do Brasil. Estamos separados de Portugal." O tenente Canto e Melo
cavalgou em direção a uma venda, onde se achavam quase todos os dragões da guarda.
Depoimento
do Barão de Pindamonhangaba
Chegando
ao Ipiranga, sem que ninguém aparecesse, fiz parar a guarda junto a uma casinhola [hoje
conhecida como "Casa do Grito"] que ficava à beira da estrada, à margem
daquele riacho. Para prevenir qualquer surpresa, mandei o guarda Manuel de Godoi , que era
dos mais moços, colocar-se de atalaia em lugar onde pudesse descobrir a aproximação do
príncipe. Tomando esta providência, apeamos e nos pusemos a descansar, conforme era
natural.
Poucos minutos poderiam ter-se passado depois da retirada dos referidos
viajantes (Bregaro e Cordeiro), eis que percebemos que o guarda, que estava de vigia,
vinha apressadamente em direção ao ponto em que nos achávamos. Compreendi o que aquilo
queria dizer e, imediatamente, mandei formar a guarda para receber D. Pedro, que devia
entrar na cidade entre duas alas. Mas tão apressado vinha o príncipe, que chegou antes
que alguns soldados tivessem tempo de alcançar as selas. Havia de ser quatro horas da
tarde, mais ou menos. Vinha o príncipe na frente. Vendo-o voltar-se para o nosso lado,
saímos ao seu encontro. Diante da guarda, que descrevia um semicírculo, estacou o seu
animal e, de espada desembainhada, bradou:
- "Amigos! Estão,
para sempre, quebrados os laços que nos ligavam ao governo português! E quanto aos topes daquela nação, convido-os a fazer
assim." E arrancando do chapéu que ali trazia, a fita azul e branca, a arrojou
no chão, sendo nisto acompanhado por toda a guarda que, tirando dos braços o mesmo
distintivo, lhe deu igual destino.
- "E viva o Brasil
livre e independente!" gritou D. Pedro. Ao que, desembainhando também
nossas espadas, respondemos: - "Viva o Brasil
livre e independente! Viva D.Pedro, seu defensor perpétuo!" E bradou ainda o
príncipe:
- "Será nossa divisa
de ora em diante: Independência ou Morte!". Por nossa parte, e com o mais
vivo entusiasmo, repetimos:
"Independência ou
Morte!"
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