CAÇANDO SOLDADOS
PARA A GUERRA

(do livro "São Paulo de Nossos Avós", de Raimundo de Menezes - Coleção Saraiva, 1955)

    A notícia estourou em São Paulo como uma bomba. Ouvira-se falar nas estrepolias de Solano Lopez, mas ninguém supunha que a coisa fosse tão grave assim. O ditador paraguaio invadira naqueles dias o Mato Grosso e, daí a pouco, ocupara também a Província do Rio Grande do Sul. Por isso, diante de tamanho atentado à soberania nacional, o Brasil fora obrigado a declarar-lhe guerra. Era Presidente da Província, na ocasião, o Conselheiro João Crispiano Soares, que assinou uma proclamação aos paulistas, naquele memorável 25 de janeiro de 1865, exatamente na data aniversária da fundação de São Paulo, concitando-os à guerra. Tocou ao velho professor os primeiros preparativos da mobilização. Foi ele quem organizou, fardou, armou e equipou o 7* Batalhão de Voluntários da Pátria, que se destinava a Santana do Parnaíba, no Mato Grosso.

    O entusiasmo de partir para a guerra, de alguns, era grande. Da grande maioria, não. A  Guarda Nacional aprestava-se com rapidez. Sabia-se que, país afora, se organizavam 57 batalhões de voluntários, sendo que o sétimo seria formado com paulistas. Entre o povo, ressoava, com visível má vontade, a palavra "recrutamento". Principalmente entre os caboclos e os negros. Chegaram mesmo alguns a mutilar-se para evitar servir ao Governo: "uns cortavam um dedo, outros quebravam os dentes, e houve até pretos que despejaram sobre o pé um reminhol cheio de garapa fervente! Mas, o principal recurso era a fuga. Metiam-se pelo sertão, embrenhavam-se nas matas, preferindo, à guerra, uma vida de penúria e privações. Entre as pessoas, porém, que prestaram concurso entusiástico ao Brasil, nessa emergência, se sobressaiu a Marquesa de Santos, então viúva do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, que ajudou com bons donativos em dinheiro.

    A 9 de julho - seis meses depois - o Presidente Crispiniano entregava solenemente aos soldados paulistas a sua bandeira, confeccionada pelas mulheres de Piratininga, "bordada por algumas senhoras desta capital e oferecida por elas ao 7º Batalhão de Voluntários, depois de sagrada pelo excelentíssimo Bispo Dom Sebastião Pinto do Rego". Na Sé, o Bispo, rodeado do Cabido e dos capelães, com as capas de asperges, benzeu a bandeira sagrada e a entregou ao Conselheiro João Crispiniano Soares que, por sua vez, a depositou nas mãos do Comandante Francisco Joaquim Pinto Paca. Foi um festão!

    As primeiras tropas já haviam partido desta capital desde 10 de abril de 1865, sob o comando do Coronel Manuel Pedro Drago. A 8 de novembro de 1866, assumia a Presidência da Província o Desembargador José Tavares Bastos, natural de Maceió, que exercera o cargo de Juiz de Direito da Comarca da Capital, e cuja administração foi das mais desastradas à testa do Governo. Dias depois, ocorreram nesta capital rudes demonstrações de quartel contra a partida dos guardas-nacionais para a guerra. Sentindo Tavares Bastos dificuldades em recrutar voluntários para a Guerra do Paraguai, lançou mão de um meio razoável, e que revoltou meio mundo.

    Foi assim. O novo Presidente determinou, logo no começo de sua administração, que todos os componentes da Guarda Nacional fossem recolhidos ao Quartel do Corpo Fixo. (...) Por ordem do Governo, fora convocada grande massa popular, sob o pretexto de passar em revista a Guarda Nacional, no edifício do quartel. Logo que notou razoável número de homens, dentro dos muros, mandou o Presidente fechar todas as portas, e agarrar os moços mais prestantes, e assim conseguiu boa quantidade de voluntários de "pau e corda", como diziam os antigos. Aquilo só poderia provocar a maior revolta, como provocou. Ali aquartelados, os guardas-nacionais sofreram o diabo.

    O tratamento que receberam foi dos mais humilhantes. Basta dizer que, durante dois dias, não receberam qualquer espécie de alimento. Houve um momento em que a tropa quis rebelar-se, sair para a rua e depor o Presidente. Não fosse a interferência da oficialidade, que a conteve, a coisa teria sido muito séria. O Coronel-Comandante-Superior, que era o Dr. Inácio José de Araújo, conseguiu apaziguar os ânimos: mandou comprar, por ordem do Presidente Tavares Bastos, "quatrocentas roscas de vinte réis cada uma", fazendo a distribuição aos guardas, que eram em número de quatrocentos, mais ou menos. Tal episódio teve a mais dolorosa repercussão. A má fama de Tavares Bastos ganhou mundo. Essa felonia, nunca a puderam esquecer os paulistanos.

    A caça aos recrutas para a guerra continuou cada vez mais tenaz e violentíssima. A rapaziada "azeitou as canelas" e "pernas, pra que vos quero?"  Não havia quem arriscasse a pele na rua. Dentro de casa ninguém corria perigo. Lá fora, todos o sabiam, andavam, quais novos bichos papões, o Capitão Pimenta, depois Major Antônio Rodrigues Veloso Pimenta, e o Chico Metralha, como assim era conhecido Francisco Emílio Oppermann, ambos pertencentes ao Corpo Policial Permanente, de laço em punho, catando Deus e todo o mundo, sem dó nem piedade.

    Nisso, chegaram as festividades da Semana Santa, que, naquele tempo, tinham muita pompa e esplendor. Todos faziam questão de assisti-las. Não havia quem se deixasse ficar em casa. E como proceder, em tal emergência, os moços que andavam escondidos, com medo do Capitão Pimenta e do Chico Metralha? Tiveram, então, uma idéia, e que idéia luminosa! A coisa tem sabor de piada fina. Que fizeram os espertíssimos moços paulistanos daquela época? O seguinte, e não riam antes do tempo: mandaram comprar várias saias de seda preta e algumas mantilhas de pano, também preto e puçá de retrós de cor idêntica e, assim vestidos, enfiaram-se na procissão da Semana Santa, que saiu da Igreja do Carmo.

    Tal era a perfeição do disfarce, que iludiram meio-mundo. Os próprios recrutadores, apesar de informados do embuste, não tiveram coragem de agarrar nenhum personagem de mantilha, como suspeito. Era arriscadíssimo! Poderiam, por um azar, segurar respeitabilíssima matrola e empurrá-la para um lado, como sendo um dos espertalhões. E se isso acontecesse... E assim terminou a procissão, sem incidentes. Recolheu-se a multidão e, no meio dela, os embuçados também...


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