MAUÁ, UM GÊNIO
DESPREZADOIrineu Evangelista de Souza, Barão de Mauá, depois Visconde com Grandeza de Mauá foi um gênio que seus contemporâneos não souberam reconhecer, um empreendedor que o destino marcou para o sucesso, mas que teve sua obra interrompida pela ação destruidora da inveja, do despeito e do ódio. Nasceu em Arroio Grande, no Rio Grande do Sul, no ano de 1813, vindo a falecer em Petrópolis, Estado do Rio em 1889, o ano em que o país se desfazia do império e iniciava sua trajetória acidentada como República federativa. Seu tino empresarial, sua experiência e arrojo eram tudo o que o Brasil procurava na fase do segundo Império, quando, consolidada a nossa independência, o país, desesperadamente, precisava criar uma infra-estrutura que permitisse o seu desenvolvimento.
Órfão de pai aos cinco anos, seu tio o levou para o Rio de Janeiro em 1822. Trabalhou como caixa até 1830, quando arranjou emprego em uma importadora. Aprende inglês e contabilidade e, sete anos depois se torna gerente da firma. Em 1839, manda buscar sua mãe e uma tia que haviam ficado no Sul. Com elas, vem, Maria Joaquina Machado, com quem ele se casa em 1841. No ano de 1846, monta uma pequena fábrica de navios em Niteroi e, no ano seguinte, o estaleiro já contava com mais de mil empregados.
Essa grande oficina produz, além de navios, também caldeiras para máquinas a vapor, engenhos de açúcar, guindastes, prensas e armamento. Em 1852, e nos quatro anos que se seguem, organiza companhias de navegação a vapor e implanta a primeira ferrovia do país, entre Petrópolis e Rio de Janeiro. Depois, monta uma companhia de gás para iluminação pública da capital federal e inaugura o trecho inicial da primeira rodovia pavimentada do país, entre Petrópolis (Rio) e Juíz de Fora (Minas Gerais).
Em associação com os ingleses, participa da construção de três estradas de ferro e é responsável pela instalação dos primeiros cabos telegráficos submarinos, ligando o Brasil à Europa. No final da década de 1850. funda o Banco Mauá, com filiais no Brasil e no Exterior.
Paralelamente às suas atividades empresariais, teve atuação política destacada, sendo a favor do liberalismo, da abolição da escravatura, e posicionando-se contra a Guerra do Paraguai, o que lhe rendeu inimizades nos setores mais conservadores, colocando-o também em atrito com o governo imperial.
Começa aí, a derrocada de Mauá e do complexo empresarial que ele ajudou a montar e que vinha gerindo com absoluto sucesso. Suas fábricas passaram a ser alvo de sabotagens e, a par com a atuação criminosa de seus inimigos, ainda foi atingido por decretos do governo, sobretaxando as importações, necessárias para o funcionamento, manutenção e ampliação dos empreendimentos. Não houve como reagir. Em 1875, o Banco Mauá vai à falência e a maioria das empresas tem de ser vendidas.
No processo de falência, Mauá dá um exemplo de caráter e honradez, ao oferecer à listagem para leilão até seus bens pessoais, inclusive o aro de seus óculos, que era de ouro. Passou seus últimos anos de vida procurando pagar suas dívidas e, assim, diminuir o prejuízo causado aos credores com a falência.
"Com o organismo minado pelo diabetes, Mauá morre, em 21 de outubro de 1889, em uma casa alugada. A família recebeu os pêsames do Imperador e o Banco do Brasil fechou seus portas em sinal de luto, o mesmo fazendo outras casas bancárias do Rio e de Petrópolis. Ao enterro, só compareceu um dos filhos, Henrique Irineu de Souza e o genro, João Frick, casado com Lísia Ricardina. Não veio o outro filho, comendador Irineu Evangelista de Souza.
"Na efervecência, naqueles poucos dias que nos separavam da República, não havia espaço para homenagens ou celebrações, menos ainda para a reparação das injustiças cometidas. Só muitos anos mais tarde o Brasil começará a entender o que significava a vida desse homem que quís transformar as estruturas do país com antecedência de meio século.
"Ao Brasil de Mauá, faltava povo, principalmente povo livre. Faltou-lhe uma classe intermediaria capaz de levar a efeito as reformas e os empreendimentos que ele preconizara. Nenhum impulso vinha das camadas de baixo. Tudo sucedia na cúpula, na pequena elite dirigente. Daí a importância da personalidade de Mauá, que tentou modificar as bases sociais do Império em estruturas livres e estáveis. Não conseguiu. Ninguém teve a culpa. O crime era da época em que ele viveu."
Fontes: Enciclopedia Koogan-Houaiss, Almanaque Abril
e o livro "Mauá e seu Tempo", de Lídia Besouchet,
Editora Nova Fronteira, 2@ Edição, 1978.
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