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Marabá
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Discípulo de
grandes
mestres
Nascido em Salvador (BA) e falecido no Rio de Janeiro,
para onde veio em 1868 em companhia dos pais.
Aos 16 anos, após ter sido ajudante do pintor-letrista Albino Gonçalves, matriculou-se
no Liceu de Artes e Ofícios, onde foi aluno de Costa Miranda, Sousa Lobo e Vitor
Meireles.
Em 1874 passou a estudar na Academia Imperial de Belas-Artes, como aluno de Vítor
Meireles, e ainda de Agostinho José da Mora, Zeferino da Costa e Chaves Pinheiro, tendo
sido fortemente influenciado por Zeferino e sobretudo por Agostinho José da Mota, a quem
até o fim da vida continuou tratando respeitosamente de "Seu Mota".
Viagem à Europa
Aluno apenas discreto, venceu sem embargo o concurso de premiação de 1878, impondo-se a
Firmino Monteiro e ao favorito Henrique Bernardelli pelo voto de Minerva do diretor da
Academia, Antonio Nicolau Tolentino.
A pintura que lhe valeu a viagem à Europa foi O Sacrifício de Abel. Em maio de
1879 seguiu para a França, fixando-se em Paris. Não logrando admissão na primeira
tentativa de ingresso na École des Beaux Arts, freqüentou a Academia Julian, a conselho
de Almeida Júnior. Em 1880 sua segunda tentativa viu-se coroada de sucesso:
«Após submeter-me a dois concursos de admissão, por isso que eu fora do Brasil sem ter
completado o curso, ainda longe de terminá-lo, logrei matricular-me na Academia de Belas
Artes de Paris. Aí fiz todo o curso artístico, repetindo o que já tinha feito no
Brasil, tendo tido como principais mestres Alexandre Cabanel e Puvis de Chavannes.»
A influência de
mestres
parisienses
Esses dois mestres marcaram-no estilisticamente: Cabanel, "mão habituada à
prestidigitação das formas, alma de Prix de Rome, olho de fotógrafo" (Octave
Mirbeau), era de uma total intolerância para com a arte moderna; já Pierre Puvis de
Chavannes foi artista de muito maior fôlego e chegou a influenciar Gauguin e Seurat.
Amoedo intermesclou o estilo de ambos para plasmar o seu próprio, embora Puvis o marcasse
mais fundamente, como se pode verificar por Jesus em Cafarnaum ou A
Narração de Filetas, sobre a qual o próprio Puvis assim se teria expressado:
«C'est merveilleuse, cette peinture!»
Tanto Cabanel quanto Puvis eram porém coloristas discretos, e isso explica, ao menos em
parte, o papel secundário que desempenha a cor na pintura de Amoedo.
Curiosamente, entre 1880 e 1887, ainda estudante em Paris, Amoedo executou a parte mais
conhecida e apreciada de toda a sua produção, a qual inclui ainda, além das obras acima
mencionadas, O Último Tamoio, Marabá e A Partida de Jacó.
Deixando-se levar
pelo
convencionalismo
Em dezembro de 1887, Amoedo regressou ao Brasil, e, em fevereiro do ano seguinte, foi
nomeado professor honorário de Pintura da Academia Imperial. Mostrando os óleos
executados em Paris, pouco depois, mereceu grandes elogios da crítica e dos colegas,
embora Zeferino da Costa neles reparasse «falta de individualidade».
Após a Narração de Filetas, infelizmente, a obra de Amoedo tornou-se mais e
mais convencional e menos emotiva, para o que pode ter contribuído, em grande parte, a
preocupação que sempre devotou aos problemas da cozinha pictórica.
Assim, João Ribeiro, comentando-lhe em 1897 os trabalhos, afirmou:
«O Sr. Rodolfo Amoedo possui firmeza e correção de desenho e não poucas vezes grande
felicidade de colorido. Mas todas essas boas qualidades são nele às vezes sufocadas por
uma excessiva minuciosidade, quer nos desenhos das linhas, quer na sua tendência
analítica, de fazer ensaios e experimentações de colorido. Deixa muitas vezes de ser
sincero, para ser teorista, muito preocupado de químicas e alquímicas.»
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Professor
de
rédeas curtas
Essa preocupação com a parte física da pintura, raríssima entre os artistas nacionais,
Amoedo levava a extremos.
A seus alunos, aconselhava a adoção de uma palheta de 15 cores, dispostas
organizadamente: na extremidade esquerda, o preto; o branco ao centro, o verde esmeralda
na extremidade direita... A tela tinha de ser preparada à base de cola e branco de zinco;
o verniz de Vibert, puro ou diluído em essência de petróleo, seria utilizado como
diluente na pintura a óleo; só excepcionalmente admitia o uso de branco em aquarelas.
Mesmo assim, era suficientemente inteligente para rir de si mesmo, quando o processo
tentado desandava. A Agripino Grieco, relatando o fracasso de um novo método de pintura
à base de ovo, comentou:
«A coisa acabou em ruim fritada.»
Um mestre de
gênios
Como professor, primeiro na Academia, depois na Escola Nacional de Belas Artes (1888-90;
1891-1906 e 1918-34) e ainda na Escola Politécnica (1889), formou numerosos alunos, entre
eles Batista da Costa, Visconti, Rafael Frederico, os dois Carlos Chambelland e Rodolfo
Chambeland; Artur Timóteo da Costa e João Timóteo; Lucílio de Albuquerque, Eugênio
Latour e mesmo Cândido Portinari.
Em fevereiro de 1893 tornou-se vice-diretor da Escola, que dirigiu interinamente em
várias ocasiões.
Esteve quatro vezes na Europa, excluído o tempo do pensionato: em 1890-91 (quando em
Lisboa se casou com Adelaide Moraes), 1906-08, 1911-12 e 1913, sempre «muito ocupado,
entre uma encomenda e outra, nenhuma a passeio. Não conheço, assim, a parte divertida
das coisas». Conquistou, ao longo da carreira, importantes medalhas e prêmios, inclusive
em Chicago, em 1893, e no Rio de Janeiro em 1908 e 1917.
Pelo Brasil afora
Das pinturas decorativas que fez, vale destacar os painéis que pintou a convite de Rio
Branco no Palácio Itamaraty, por ocasião da visita do Presidente Roosevelt; três
painéis, Justiça, Paz e Lei para o teto do salão nobre
do Supremo Tribunal Federal do Rio de Janeiro; A Fundação do Rio de Janeiro,
na sala de sessões do antigo Conselho Municipal da mesma cidade, em colaboração com
Roberto Rowley Mendes, em 1925; e mais os dois pequeninos painéis Reflexão e
Memória da Biblioteca Nacional.
Trabalhou ainda para o Museu do Ipiranga, em São Paulo, e fez os panos de cena dos
teatros José de Alencar, em Fortaleza, e Carlos Gomes, em Natal:
«Nunca me balancei a viajar para vender, assim como nunca pedi ou solicitei, através de
amigos, encomendas para fazer. Se algum já tomou essa iniciativa, fê-lo por conta
própria, sem o conhecimento meu, asseguro-lhe. Ninguém poderá dizer que eu lhe fosse
pedir trabalho...»
A arte de fazer
inimigos e
irritar pessoas
Amoedo criou fama de homem ferino, de temperamento irônico e mesmo mau. Sua inimizade com
Parreiras tornou-se notória. E não guardava as conveniências, quando se tratava de
atacar colegas.
Em dada ocasião, criticou abertamente Parreiras: «Não sei se ele sabe pintar.
Dizem que pinta. Na Escola esteve um ano, apenas, vindo de profissão radicalmente oposta,
o comércio».
Sobre Georgina de Albuquerque, diz: «Não sabe planos. Tudo na sua pintura é chato, sem
relevo».
Sobre Pedro Bruno «Não sabe prumo. Não conhece a lei de Newton». E assim por diante.
Natureza-morta,
só em quitanda
Detestava naturezas-mortas: «Quando quero comprar frutas, vou à quitanda da esquina, ou,
para maiores compras, à Praça do Mercado».
Era natural que fosse antipatizado, tanto mais que levava vida reclusa, defendendo sua
privacidade de tudo e de todos. Seu ressentimento era ainda maior quando lhe comparavam a
produção contemporânea à dos tempos parisienses, com evidente desvantagem para os
trabalhos recentes.
Um homem sem
emoções
Pouco emotivo, chegou a declarar a Angione Costa, que lhe perguntara sobre quais suas
maiores emoções na carreira:
«Não as tenho. Indo cedo para a Europa, passei nove anos em Paris. Trabalhei, estudei,
completei o curso. Pintadas algumas telas, voltei. Aqui tenho lutado, resistido...»
Amoedo faleceu no Hospital Gaffré-Guinie, do Rio de Janeiro, a 31 de maio de 1941,
deixando viúva, mas sem descendentes.
Quando de sua morte, numerosas obras de sua autoria, em sua maior parte estudos, manchas e
desenhos, algumas de altíssima qualidade, foram doadas ao Museu Nacional de Belas-Artes,
em troca de uma pensão vitalícia concedida pelo governo à viúva.
Esse Museu, que em 1957 consagrou ao artista importante retrospectiva, conserva boa parte
de sua produção - nada menos de 433 obras, de todas as épocas, técnicas e gêneros.
Percorrendo vários
estilos
Foi romântico em Marabá ou em Desdêmona, realista ou naturalista em Último
Tamoio, herdeiro do academicismo francês à la Cabanel em A Partida de Jacó ou
em Jesus em Cafarnaum, aproximando-se do Simbolismo em A Narração de
Filetas.
Amoedo era muito mais sensível e pessoal nas aquarelas, por exemplo, quando se despejava
de sua crosta acadêmica e se voltava para uma expressão mais direta e sincera.
Quase toda a sua obra versa sobre a figura humana, sendo de realçar a importância que
nela assumem os nus femininos. Também executou retratos, cenas de gênero, paisagens,
interiores e decorações.
Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»
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Texto
do livro de Laudelino Freire
"Um Século de Pintura" |
[Rodolfo Amoedo é] uma das nossas figuras de maior destaque. Natural desta cidade [Rio de
Janeiro] e nascido a 11 de dezembro de 1857. Dois seis aos onze anos, viveu na Bahia,
tendo aí iniciado os estudos de primeiras letras no Colégio Sebrão.
Em 1868, voltou para o Rio, matriculando-se no Colégio Vitório, de onde, algum tempo
depois, se passou para o de Pedro 2º. Em 1873, iniciou os estudos artísticos no Liceu de
Artes e Ofícios, tendo sido discípulo de Costa Miranda, Sousa Lobo e Vítor Meireles. Em
1874, matriculou-se na Academia, onde, novamente, foi discípulo de Vítor Meireles, e
também de Agostinho da Mota, Zeferino da Costa e Chaves Pinheiro.
A 31 de outubro de 1878, depois de renhido concurso em que teve Henrique Bernardelli como
principal competidor, conquistou, com seu quadro O sacrifício de Abel, e pelo voto de
qualidade do diretor, o prêmio de viagem à Europa, seguindo em maio de 1879.
Só depois de submeter-se duas vezes ao respectivo exame de admissão, foi que conseguiu
matricular-se na Academia de Belas Artes de París. Aí, fez de novo todo o curso
artístico, tendo tido como principais mestres Alexandre Cabanel e Puvis de Chavannes.
Concluiu o prazo de sua pensão em 1887, regressando em dezembro do mesmo ano. Em 1888,
fez a primeira exposição dos seus trabalhos executados na Europa. Dedicou-se ao
magistério.
De sua produção, destacam-se: Narração de Filetas, A partida de Jacó, Jesus em
Cafarnaúm, Último Tamoio, Marabá, Dominó.
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