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Cena interior
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Montando tenda
no
Rio Grande
Henrique Bernardelli nasceu em Valparaíso (Chile) e faleceu no Rio de Janeiro.
Era filho de um violinista russo e de uma bailarina francesa que se radicaram no Rio
Grande do Sul no começo da década de 1860, após terem viajado longamente pelo México e
pelo Chile.
Quando em 1865 Pedro II esteve em Porto Alegre, ali conheceu os Bernardelli, convidando-os
a virem para o Rio de Janeiro, onde efetivamente já se encontravam em 1867 como
preceptores das princesas imperiais.
No Rio e na Europa
Matriculando-se na Academia Imperial de Belas-Artes, que cursou até 1878, foi aluno de
Zeferino da Costa, Vitor Meireles e Agostinho da Mota, entre outros, tendo conquistado
impressionante número de prêmios e distinções: menção em Desenho de ornatos (1871),
pequena e grande medalha de ouro em Desenho Figurado (1872 e 1874), medalha de prata em
Pintura Histórica (1876), pequenas medalhas de ouro em Pintura Histórica e Modelo Vivo
(1878).
Ao concorrer, porém, à viagem à Europa, no mesmo ano de 1878, foi derrotado por Rodolfo
Amoedo. Magoado com a preterição, que parece ter sido injusta, até porque Amoedo nem
mesmo havia concluído o curso, decidiu partir por conta própria para a Itália,
radicando-se em Roma, como discípulo de Domenico Morelli.
A decepção no
retorno
ao Brasil
Regressando ao Brasil em 1886, Henrique realizou no Rio de Janeiro uma exposição em que
apresentou, entre outras muitas obras, Tarantela, Maternidade, Messalina, Modelo em
Repouso e Ao Meio Dia.
A mostra foi mal recebida, menos por Gonzaga Duque, que assim a ela se referiu em Arte
Brasileira:
«Os defeitos de Bernardelli foram qualidades. Um revolucionário, um inovador, não pode
ser um frio desenhador da linha, nem um colorista preciso. É necessário que ele seja
diferente, que seja resoluto, que pinte o que sente sem artifícios antigos mas por
artifícios modernos, porque, afinal de contas, o estilo não é mais do que um artifício
empregado para exprimir as nossas emoções.»
O artista se esconde
no
convencional
A incompreensão de crítica e público em face da mostra de 1886 parece ter arrefecido o
ímpeto do jovem artista que, a partir de então, e apesar de poucas obras notáveis,
tornou-se mais cauteloso e conservador.
Bernardelli perderia algo daquela «maneira sólida, segura e franca» dos quadros
realizados na Itália, adotando um estilo mais convencional, que, por volta de 1908,
chegara ao esgotamento e à conseqüente repetição
Com efeito, já no Salão de 1904, os retratos que expõe, de Machado de Assis e Ubaldino
do Amaral, merecem de Gonzaga Duque o reparo de que foram «pintados por mão de mestre,
mas, não sei porque, temperados com chocolate».
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Um
mercado sem opções
Na verdade, como tantos de nossos melhores pintores de seu tempo, Henrique Bernardelli
teve de seguir as duas únicas opções que se abriam a um artista brasileiro: lecionar,
ou executar retratos e encomendas oficiais. Foi o que fez, dobrando-se, assim, ao gosto
tradicional.
De 1891 a 1905, lecionou na Escola Nacional de Belas-Artes.
Cultivando idéias arejadas, não aceitou que seu contrato fosse renovado naquele último
ano, alegando que aos alunos devem ser oferecidos, de tempos em tempos, novos professores,
para que o ensino não se torne esclerosado.
Assim, passou a ensinar pintura em sua propria residência em Copacabana, por onde
passaram, entre inúmeros outros, Lucílio e Georgina de Albuquerque, Eugênio Latour,
Helios Seelinger e Artur Timóteo da Costa.
Prova concreta de quanto eram prezados pelos jovens artistas os dois Bernardelli, Rodolfo
e Henrique, deu-se em 1931, quando um grupo de alunos da Escola Nacional de Belas-Artes
criou um ateliê livre de pintura, nos porões da instituição, batizando-o com o nome de
Núcleo Bernardelli.
Sucesso na
decoração
Pintor decorativista, Bernardelli fez painéis para o Teatro Municipal, para a Biblioteca
Nacional, para o Cinema Pathé-Palácio; trabalhou ainda para o Museu Paulista.
Mas suas obras mais importantes, no gênero, são os 22 medalhões em afresco que ornam a
fachada do atual prédio do Museu Nacional de Belas-Artes, na Avenida Rio Branco, expostos
em 1916 no Salão, os quais que lhe valeram a medalha de honra.
Um clima de simpatia
Bernardelli teve defensores entusiásticos, mesmo no ocaso da sua carreira. Assim, Angione
Costa dele fala, em A inquietação das abelhas, de 1927:
«Henrique Bernardelli é um pintor que, na segunda metade da vida, sem marcar uma
evolução acentuada, consegue entretanto, pintar belos quadros, nos quais o colorido é
uma maravilha, e o seu pincelar seguro, um prodígio de concisão.»
Exagero sem dúvida, porquanto, após os 50 anos, Bernardelli aquietara-se, perdera os
ferrões da mocidade, academizara-se em suma.
A
partir de então, o que iria perpassar em sua produção seriam ecos do que anteriormente
fizera, produtos concebidos e executados mecanicamente e sem emoção; nem mais aqueles
«temas helênicos, influência da dança antiga, raras ressonâncias
simbolistas», ou os modismos estilísticos Belle Époque que lhe
surpreendeu Mário Barata; mas as composições do tipo A Saúde da Bela!, de um
rococó anacrônico e anêmico, chupado em Fragonard e em outros artistas franceses do
séc. XVIII e mesmo do séc. XIX. A que distância está-se, já agora, de Messalina,
ou dos Bandeirantes!
Produção variada
Henrique Bernardelli foi pintor de história e de gênero, retratista e paisagista.
Praticou diversas técnicas - o óleo, a têmpera, o fresco, o pastel, a aquarela, a
água-forte.
Sua produção encontra-se distribuída principalmente entre o Museu Nacional de
Belas-Artes (120 obras de diferentes épocas e técnicas) e a Pinacoteca do Estado de São
Paulo (344 desenhos, 41 aquarelas e ainda óleos).
Maternidade,
Tarantela, Bandeirantes, Proclamação da República são seus quadros mais
conhecidos, mas não forçosamente os melhores, pois o verdadeiro Bernardelli revela-se em
detalhes, aqui na vibração de uma nota de cor, ali na elegância de um arabesco ou num
trecho de fatura surpreendentemente moderna, feito mediante um pincelar ágil e seguro.
Fonte: CR-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»
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