Miguel Navarro y Canysares
( ? - 1913)

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Frei Domingos de Guadalupe

Bahia de São Salvador

     Nascido em Valencia (Espanha) e falecido no Rio de Janeiro.

     Fez seu aprendizado artístico na terra natal, aperfeiçoando-se em Roma, com bolsa de estudos obtida em concurso em que sua composição O Enterro de Santa Catarina alcançou o primeiro prêmio.

     Vindo para o Brasil, aportou em começos de 1876 a Salvador, tornando-se pouco depois professor de desenho do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia.

     Desentendendo-se, em dezembro de 1877, com a diretoria do estabelecimento, dele se afastou para só alguns dias mais tarde fundar a Academia de Belas-Artes de Salvador.

Academia de Belas-Artes

     Em Artistas bahianos, Manuel Querino refere-se em termos elogiosos à sua atuação, bem como aos motivos que o levaram a finalmente trocar a Bahia pelo Rio de Janeiro:

     «Data dessa época o renascimento do verdadeiro ensino do desenho, em todas as suas aplicações, cabendo ao professor Cañizares, principalmente, a glória desse cometimento.

     «Fundada a Academia, os alunos mais dedicados se encarregaram do fornecimento da mobília escolar, composta de caixões de pinho, lanternas de folhas de Flandres e mais pertences, todos modestíssimos.

     «Tudo prosseguia bem, trabalhava-se muito, o número de matriculados excedeu de 400 e faziam-se anualmente 600 a 800 desenhos. As condições financeiras, porém, do professor Cañizares perigavam. Não se encomendavam retratos todo o dia, nem a Bahia proporcionava meios de subsistência a um artista de sua ordem.»

Baía da Guanabara

      Em 1881, Cañizares chegou ao Rio de Janeiro, de onde não mais se ausentaria, ali se entregando a intensa atividade, principalmente como retratista.

     O Retrato da Princesa Isabel, executado em 1888 e hoje no Museu Imperial de Petrópolis, exemplifica a sua arte, convencional ao extremo, caracterizada por um bom desenho, mas chã e sem vibração.

     Existe, porém, um outro Cañizares, encontrável nos raros momentos em que se entregava livremente à pintura, sem a preocupação de satisfazer ao gosto de terceiros. Nesses momentos, o pintor se distingue pela inventiva, pelo desenho, de um barroquismo incomum, e pela composição teatral, quase maneirista (O Remorso, 1887, Pinacoteca do Estado de São Paulo).

Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»

 
 
 


Texto do livro de Laudelino Freire
"1816-1916 - Um Século de Pintura"
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     Natural de Valência, Espanha. Aí, obteve o prêmio de viagem a Roma, entre dezenove concorrentes, com o seu quadro Enterro de Santa Catarina, que se acha no Museu Real de Madri.

      Quando, em 1876, chegou à cidade da Bahia, já era artista feito e de nomeada. Cogitava-se aí de dar maior desenvolvimento ao ensino, no Liceu de Artes e Ofícios, tendo se oferecido o pintor espanhol para lecionar o curso superior de desenho.

    O Diário da Bahia de 14 de maio de 1876 refere-se ao fato nos seguintes termos:

     "Acaba de oferecer-se para lecionar pintura no Liceu de Artes e Ofícios, dispensando qualquer remuneração, o célebre professor de pintura, Sr. Miguel Navarro y Canysares que, em viagem para o Rio de Janeiro, se demorará algum tempo entre nós. Filho de uma família muito distinta da Espanha, membro de numerosas sociedades conhecidas, percorreu o distinto professor a Europa, demorando-se em Roma oito anos, e América, por onde conquistou renome, como bem provam os jornais das capitais que visitou, e as distinções honoríficas que lhe foram conferidas."

     Em 1877, Canysares, com alguns discípulos, entre os quais João Francisco Lopes e Manuel S. Lopes Rodrigues, tratou de criar uma escola de belas-artes. Para esse fim, elaborou os respectivos estatutos e os apresentou ao Governo que, os aceitando, deu a seguinte resposta aos iniciadores da idéia:

      "Aos Srs. Miguel Navarro y Canysares e outros, ex-professores e ex-alunos de desenho do Liceu de Artes e Ofícios, foi dirigido, em 10 de novembro findo (1877), o seguinte ofício: 'Devolvendo o projeto de estatutos da Academia de Belas Artes que V. Mercês pretendem fundar nesta cidade, declaro-lhes que, atendendo que a idéia da instalação da mesma academia é um ato de patriotismo e de interesse pelo progresso das artes nesta Província por V. Mercês praticado, o qual, partindo da iniciativa individual, merece todo apoio e proteção do Governo, podem fazer a instalação da referida Academia no edifício de que fez o Governo aquisição para as escolas do Curato da Sé, e nele funcionar até que dê princípio às obras que tem de ser executadas para adaptá-lo ao fim a que está destinado."

      E, de fato, a 17 de dezembro de 1877, sob os auspícios do barão de Lucena, fundava-se a Escola de Belas Artes da Bahia, cabendo ao pintor espanhol, principalmente, a glória desse acontecimento.

     A Bahia deve ao professor Canysares o serviço inestimável de ter feito ressurgir, vantajosamente, o ensino de desenho. Durante sua permanência nessa Capital, produziu diversos trabalhos, principalmente retratos, a saber:

  • Um quadro alusivo à lei de 28 de setembro de 1871, onde se vê o benemérito Visconde do Rio Branco quebrando algemas de escravizados, encomenda do Dr. Luís Álvares dos Santos e existente na igreja do Bonfim;
  • Restaurauração de nove painéis na Catedral;
  • Pintura do atual pano-de-boca do Teatro São João, em 1880;
  • Importante retrato histórico, trabalho a crayon, gravado nos Estados Unidos da América do Norte, mandado fazer pelo Partido Liberal, em homenagem ao então presidente da Província, Barão Homem de Melo, com alegorias representando os fastos da Bahia, além de vários outros.

     Por desinteligência com alguns de seus colegas, Canysares retirou-se da Bahia, vindo para esta cidade [Rio de Janeiro], onde viveu desde 1881 até a data de seu falecimento, ocorrido em outubro de 1913. Aqui, também, muito trabalhou e, ainda na exposição de 1900, apresentou um bom trabalho intitulado: Eva.
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