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São Tomé das Letras
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Pintor por acaso
Nascido em Treviso (Itália) e falecido no
Rio de Janeiro. Chegou ao Brasil em novembro de 1849, após exercer em sua terra natal
atividades políticas que o obrigariam a deixá-la.
Não se sabem detalhes de sua
aprendizagem artística; é provável, mesmo, que nem se destinasse à pintura, para a
qual descambou levado pelas circunstâncias, e não por força de uma sólida,
irreprimível vocação.
De qualquer modo, ao chegar ao Rio de
Janeiro dedicou-se ao ensino do Italiano e do Desenho, retomando, pouco depois, sua
incipiente carreira artística, para se tornar cenógrafo e, afinal, retratista.
Na verdade, era pouco mais que um
amador, sem o indispensável preparo técnico para enfrentar as dificuldades do retrato, e
muito menos a concorrência de tantos retratistas profissionais ativos, então, no Rio de
Janeiro.
Paisagem, gênero
inferior
Não foi por outro motivo que muito em
breve sentiria a necessidade de mudar de gênero, passando a fazer paisagens, tanto mais
que a paisagem, em meados do Séc. XIX, era tida no Brasil como gênero inferior, e a um
paisagista não fazia tanta falta, como a um retratista, o arsenal de conhecimentos
técnicos que se espera de um autêntico pintor.
Mais por instinto, começou Facchinetti
a passar, para a tela, trechos da natureza brasileira; a princípio, com dificuldades, aos
tropeções, aprendendo na prática o que ninguém lhe ensinara em qualquer academia;
depois, com relativa galhardia, e finalmente com mestria.
Foi essa aprendizagem prática que lhe
permitiu alcançar, com o tempo, não só o domínio técnico, como sobretudo certa
tipicidade, seus quadros não se parecendo com os de ninguém mais.
Nada mais que a
verdade
Gonzaga Duque descreveu o método de
trabalho de Facchinetti:
«Antes de pintar, ele ia ao local,
estudava o ponto, esquadrinhando todos os detalhes. Depois tracejava o motivo em
separado, numa página de álbum, numa folha de papel, que lentamente completava.
«Preparado com esse exato desenho,
decalcava-o na tela, a carvão, cobria-o com grafite e terminava fixando-o com tinta
comum, por meio de aguda pena de aço.
Uma ocasião, estranhando-lhe eu todo
esse lento, meticuloso processo, que anulava a emoção, respondeu-me que o seu interesse
era a verdade, quanto mais exata, mais acabada fosse a cópia, tanto maior seria o mérito
do seu trabalho...»
Fiel à realidade, Facchinetti costumava
portanto executar suas paisagens in loco, embora não diretamente a óleo sobre a tela, o
que o separa definitivamente de um Grimm, esse sim, executando ao ar-livre.
Ainda assim, já esse processo do
artista italiano basta para lhe garantir lugar de relevo na história do paisagismo
brasileiro, ao lado, justamente, de Grimm, de Agostinho José da Mota e de poucos mais.
Mirante e atelier
Sempre que o contratavam para executar
determinada obra, desse ou daquele sítio, montava seu ateliê no lugar, e ali permanecia
até concluí-la.
Em 1871, para atender a uma
encomenda de um certo Sr. Harrah, passou alguns meses junto à Fortaleza de São João, de
onde podia descortinar o panorama das praias da Saudade e de Botafogo: o resultado foram
as duas paisagens expostas no Salão de 1872, de extrema fidelidade e não menor força
poética.
Na soberba vista de São Tomé das
Letras, do Museu Nacional de Belas-Artes, pode-se até ver, no primeiro plano, ao centro
da composição, uma tosca cobertura, de dentro da qual podia com vagar contemplar o
imenso panorama de toda aquela esplêndida região, cobertura que lhe servia de abrigo,
dormitório, mirante e ateliê.
Esse mesmo amor à natureza transpira também das longas
inscrições que, em letra firme de espessos contornos, costumava apor ao dorso de seus
quadros, geralmente contendo indicações precisas sobre o sítio retratado, a época da
execução e o autor da encomenda, além das invariáveis notas Pintado fielmente do
natural, Efeito da manhã, Efeito da tarde, etc.
Essa meticulosidade levou alguns
críticos do século passado, como Félix Ferreira, em 1884, a considerá-lo "um
paisagista de largos traços, febril e impressionista", embora o que menos se possa
ver, nessas obras topográficas, seja exatamente a largueza de traços, a execução
febril, o Impressionismo.
O paisagista da
Corte
Com o tempo, a arte de Facchinetti
aprimorou-se. No Salão de 1864 deram-lhe os jurados menção honrosa, e no do ano
seguinte, medalha de prata.
As encomendas passaram a ser numerosas,
tanto mais que a própria Imperatriz Tereza Cristina dava o exemplo. Por fim, Facchinetti
tornou-se o pintor favorito da aristocracia do Rio de Janeiro, e não houve mansão de
nobre ou de cidadão abastado que não lhe exibisse as paisagens em lugar de destaque.
Passou também a lecionar a diversos
alunos, quase todos hoje esquecidos, com exceção de Maria Agnelle Forneiro, a qual lhe
assimilou de tal modo a maneira, que no Salão de 1884 chegou a expor quatro vistas de
Niterói feitas de parceria com o mestre.
Um mestre
meticuloso,
mas sem brilho
Trabalhador infatigável, Facchinetti
deixou obra extensa, de que são características básicas o sólido desenho, a capacidade
inata de captar amplos espaços nas exíguas dimensões do quadro, um sentimento natural
pelas tonalidades justas e, talvez acima de todas, o respeito à realidade, que sem
embargo transcende por acentuados dotes de lirismo.
Tais qualidades iriam granjear-lhe,
enquanto vivo, sérias críticas - como a de Gonzaga Duque, que afirma, de seus quadros,
serem "mais uma obra de paciência, mais uma prova de infatigável cuidado, do que
uma simples obra de arte".
Também Reis Júnior, tantos anos
depois, descreve aquele que considerava "mais um paciente que um artista -
faltava-lhe emoção";
Reconhecimento
tardio
Nos dias de hoje, felizmente, tais
juízos viram-se atenuados, e as paisagens de Facchinetti desfrutam de uma celebridade que
teria surpreendido o próprio pintor.
Isso ocorreu, quem sabe, porque nosso
tempo valoriza de modo especial estas imensas extensões de espaço virgem, que se
contemplam nostalgicamente em meio aos problemas crescentes da contaminação do meio
ambiente.
Facchinetti faleceu no Retiro da Boca do
Mato, Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, a 16 de outubro de 1900, aos 76 anos de idade e
mais de 50 de carreira.
Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»
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