GUTTMANN BICHO, Galdino (1888-1955).
Nascido em Petrópolis e falecido no Rio de Janeiro. Descendente de suíços, menino ainda
seguiu para Sergipe, onde cresceria livre e desabusado, adquirindo o temperamento rude,
mas leal e generoso, que conservaria pela vida afora. Aliás, não se considerava
petropolitano, mas nordestino, mesmo porque não gostava da cidade natal, que identificava
a Dom Pedro II e à Monarquia, que detestava.
Retornando rapazola ao Rio de Janeiro, matriculou-se primeiro no Liceu de Artes e
Ofícios e logo depois na Escola Nacional de Belas-Artes, na qual foi aluno de
Belmiro de Almeida, Zeferino da Costa e Rodolfo Amoedo. O escritor Agripino Grieco, que o
conheceu na mocidade, assim rememora seu primeiro encontro com o pintor:
«Fico
muitas vezes pensando no período em que conheci na Paraíba o pintor petropolitano
Guttmann Bicho, de quem eu viria a ser cunhado. Ali fora ele executar alguns retratos.
«Andara
pelas ruas carregando ostensivamente a caixa de tintas e, logo que me falou, entrou a
atacar os velhos mestres, mostrando especial indignação contra o retratista Auguste
Petit, que o explorava, e lamentando não poder deixar de trabalhar com ele.
«Confessou-se-me, ao contrário, doido pelos romances de Maximo Gorki, tanto assim que
daria a um filho o nome de Pavel, ou seja, de um herói do escritor russo.
«E
declarou-me que naquilo que ele mais se recreava era no gosto dos barcos e das pescarias.
Fora criado às soltas em praias do Nordeste e nunca perdera a nostalgia daqueles
coqueiros, daquelas jangadas de velas abertas ao vento.
Para Petit,
"que o explorava", trabalharia ainda muitos anos, pintando retratos de
políticos e de abastados comerciantes que o velho artista francês somente assinava. No
entretempo, expunha no Salão Nacional de Belas Artes, nele obtendo menção de 1º e de
2º graus (1907 e 1908), medalha de prata (1912) e, finalmente, o prêmio de viagem à
Europa, em 1921, com Panneau Decorativo , executado na técnica
pontilhista.
Em 1922,
após curta temporada no Norte ao lado do historiador Rocha Pombo, quando preparou várias
ilustrações para uma edição da História do Brasil que se fazia para comemorar
o Centenário da Independência, Guttmann Bicho embarcou para a França, permanecendo dois
anos em Paris.
A fase de
pesquisa e de experimentações termina com a volta ao Brasil, em 1924. A partir de então
o pintor, obrigado a fazer mais e mais retratos e mesmo a trabalhar no Serviço de Febre
Amarela para ganhar a vida, torna-se mais acomodado.
No Salão
de 1925 conquista medalha de ouro; continuaria participando do certame até 1954, quando
recebe o prêmio de viagem pelo Brasil, embarcando para o Maranhão - que lhe forneceria o
tema para as últimas paisagens.
Retratista
admirável (Retrato de Farias Brito), bom paisagista, autor de interiores
eivados de um japonismo então em grande voga, de naturezas-mortas e sobretudo de nus de
opulenta carnação, Guttmann Bicho praticou ainda a Cerâmica, que lecionou, a partir de
1947, num curso que criara na Escola Técnica Nacional do Rio de Janeiro. Projetou também
prédios e hospitais em cidades do Nordeste e na Ilha do Governador, onde morou muitos
anos.
Eterno apaixonado do mar, desenhou inúmeras embarcações de todos os feitios e tamanhos,
nelas aventurando-se pelo oceano, ou em explorações, rios adentro, pelo território
fluminense.
Como artista, ficará decerto lembrado pelos numerosos retratos e figuras, pelas muitas
paisagens, pelos interiores; e ao menos pelo espírito de rebeldia e pela eterna
irreverência com que soube enfrentar medalhões e tabus vigentes em sua mocidade, pode
ser considerado um dos precursores da arte moderna no Brasil.
Era um
modernita a despeito de não nutrir a mínima admiração ou simpatia pela arte moderna, o
que não deve causar espanto, pois era também muito exigente, impiedoso e até feroz para
com os passadistas, os que se julgavam herdeiros e continuadores da grande tradição
clássica, protegidos por enorme despreparo e não menor soma de modéstia
.