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O professor De Crave, citado por Netscher no seu trabalho - Os Holandeses no Brasil - referindo-se ao governo do príncipe, escreveu: "Por onde se estendesse o seu domínio, vinha a civilização espalhar os seus benefícios. Uma multidão de artistas, pintores, escultores, arquitetos, mecânicos, o haviam acompanhado ao Brasil, ou posteriormente se haviam para aí transportado a seu chamado."
Por seu lado, Netscher também informa que as artes e as ciências floresceram sob o governo tutelar do conde, e nele encontraram um protetor esclarecido e zeloso. Aqui teve em sua companhia, além dos dois célebres naturalistas Piso e Marcgraf, autores, o primeiro da - História Naturalis Brasilia -, e o segundo da - Historia Brasilia -, obras ainda hoje de não pequeno interesse, os dois irmãos Pieter e Frans Post (2), aquele arquiteto e este pintor. Com exceção deste último, sobre quem nos ministra interessantes informações o dr. Pedro Souto Maior, no seu valioso livro - Fastos Pernambucanos -, da passagem e permanência daquela multidão de artistas a que acima se alude, nada se sabe e nada se conhece. Frans Post e Eckhout Frans Post (vide página), o primeiro pintor a reproduzir na tela as paisagens, plantas, frutos e aves do Brasil, nasceu em Leyden em 1612 e faleceu em Haarlem a 16 de fevereiro de 1680. Passou todo o octênio do governo de Maurício em Pernambuco, isto é, de 1637 a 1644. Produziu muito e exclusivamente sobre assuntos do Brasil e bem merecia que lhe dessem, assim como fizeram ao seu patrono, o título de brasileiro. Perderam-se, infelizmente, em um incêndio, algumas de suas telas, nada menos de 18, em Vincent van der Vinne, em Haarlem, no ano de 1816 e um grande quadro, representando o palácio de Friburgo, em 31 de março de 1749, em Amsterdam. Acreditava-se que haviam sido destruídas muitas telas suas no incêndio de Mauritsshuis, em Haia, mas tal conjectura não parece exata, pela exposição que fazemos mais adiante. Até agora era conhecida a existência de trabalhos seus nos museus de Haia, Amsterdã, Basiléia, Cassel, Hannover, Londres, Maiença, Munique, Nuremberg, Praga, Schleissheim, Viena e Copenhague, mas nenhum em Paris... Em Amsterdã, referiu-nos o livreiro Frederik Müller que, havia anos, fora comprado um quadro de Post por um cavalheiro residente em Paris e chamado Cavalcanti. Na suposição de que se tratasse do Visconde de Cavalcanti, nos dirigimos à sua viúva, que mui gentilmente nos mostrou o quadro de sua propriedade, o qual tem 1,13 m de largura por 0,85 m de altura e representa uma parte da cidade de Olinda, sendo um dos melhores que temos visto desse autor. A viscondessa, senhora ilustrada e muito entendida em belas artes, possui livros raros e históricos de grande valor; por ela, soubemos que Eduardo Prado também possuíra quadros de Post, Em nossas pesquisas históricas nos arquivos da Holanda encontramos no arquivo particular da casa de Orange, "t'Huis Archief" uma correspondência entre o príncipe João Maurício de Nassau e seus ministros, e vem provar terem ido para Paris e sido instalados na sala da Comédia do Louvre nada menos de quarenta quadros de assunto brasileiro. Além de Post, apenas também se sabe que dentre os seis pintores que Maurício teve, por sua conta no Brasil, outro aqui passou, que se chamava Albert van der Eckout, irmão de Gerbrandt van Eckhout, discípulo de Rembrandt. ECKHOUT (Albert), pintor holandês de gênero e de paisagem (Groningen, 1610 m. 1665). Integrou a corte de Maurício de Nassau em Pernambuco, onde passou sete anos pintando personagens e cenas brasileiras, em companhia de Franz Post. Autor de notáveis retratos de índios e negros, hoje no Museu de Copenhague. Numerosos desenhos seus estão em Cracóvia, Polônia. A pintura na Bahia e no Rio de Janeiro Embora verificado que muitos aqui tivessem trabalhado e que fossem os primeiros a reproduzir pelo pincel vários aspecto da natureza brasileira, nenhuma influência exerceram e em nada concorreram para a formação da pintura. Aludindo a tais artistas, escreve o sr. Manuel Raimundo Quirino, no seu interessante estudo - Artistas Baianos - "No entanto, nessa época a Bahia possuía um Euzébio de Matos, pintor laureado, segundo os escritores do tempo. Com tamanha infelicidade, não se pode, ao certo, discriminar seus trabalhos, por falta de indicação nominal. Depois dos forasteiros holandeses, o pintor mais antigo de que se tem notícia é Ricardo do Pilar, frade do claustro de São Bento, no Rio de Janeiro, onde viveu cerca de trinta anos e onde veio a falecer em 1700. Conquanto muito tivesse produzido, segundo testemunho de Porto-Alegre, que salienta como a obra-prima do frade beneditino a Imagem do Salvador, pertencente àquele mosteiro, nenhuma influência também exerceu entre nós. Passou a existência dentro das quatro paredes do claustro a que se condenara, entregue ao misticismo mórbido, que de todo o afastara do convívio de seus semelhantes. Só na metade do Século 18 é que surgiram os que devem ser tidos como verdadeiros precursores. E estes foram - José Joaquim da Rocha, com os seus discípulos Veríssimo de Sousa Freitas, Manoel José Sousa Coutinho, Antônio Pinto, Antônio Dias, além de outros na Bahia; José de Oliveira, João de Sousa, Manoel da Cunha, Leandro Joaquim, Raimundo da Costa e Silva, José Leandro de Carvalho, Manuel Dias de Oliveira Brasiliense e Francisco Solano, no Rio de Janeiro. Foram as duas velhas cidades os centros precursores de arte, as quais, ainda no decurso de toda a fase orgânica sob o regime monárquico, continuaram a ser realmente os únicos pontos do país onde se poderia assinalar a existência de pintores que merecessem o nome de artistas. O Brasil do Século 18 As condições mesológicas (do meio-ambiente) do Brasil colonial não permitiram o surto de uma arte superior. No seio da sociedade que se formara por um conjunto de elementos imprestáveis e por um processo de colonização, cuja matéria prima eram os condenados, judeus deportados, criminosos homiziados, índios escravizados, negros da Guiné, dirigidos por homens subordinados aos piores preconceitos da Idade Média, e igualmente aproveitados e explorados pela ganância, crueldade, intriga e fereza da época, seria inadmissível a existência de grandes artistas. A arte que então irrompia de um meio tão vazio de condições propícias, não podia deixar de ser acanhada, inferior, balda de inspiração e repetindo-se em desagradável esterilidade. Forçoso é por isso reconhecer que as obras que nos legaram os representantes da arte colonial baiana, como da arte colonial fluminense, foram, no geral, assaz medíocres. O Brasil do Século 19 Malgrado os esforços encomiásticos de alguns escritores, inspirados em exagerado nacionalismo, o que ressalta aos olhos dos julgadores imparciais é que a arte brasileira dos princípios do Século 19 era, e fora até então, quase nula. Salvo uma ou outra manifestação de medíocre intuição do ofício, neste ou naquele primitivo, os nossos pintores e escultores só haviam dado mostras da maior rudimentariedade artística. Nas nossas feíssimas igrejas, exceção feita de uma ou outra, a decoração interna e as telas e painéis provinham de verdadeiros pintâmonos (mau pintor). No nosso país deserto, todas as forças vitais se concentravam, fatalmente, no desbravamento e amanho do terreno virgem, nas preocupações da vida material, ainda mal provida de elementos civilizadores: uma eflorescência artística, de certo valor, nos meios brasileiros seria incompatível com as condições de vida da abandonada região meridional, colocada a sessenta dias de viagem dos mais próximos portos europeus, esquecida e ignorada do mundo culto, inteiramente seqüestrada do convívio mundial pela ciumenta metrópole e habitada por ignara população. A arte primitiva Real contra-senso seria esperar encontrar na arte primitiva brasileira documentos meritórios, quando tudo faltava, num país de florestas a desbravar, em que tribos de índios acampavam a umas poucas léguas da restrita capital. Assim, parece-nos quase verdadeira aberração, o fato de haver coexistido, com o Rio de Janeiro de 1808, um gênio como o de José Maurício Nunes Garcia, cujo talento, em meio tão hostil ao belo, desabrochou em magnífico surto. Dos demais representantes da arte colonial fluminense, ninguém lhes pode muito admirar a obra, nem as pinturas de José de Oliveira, de Leandro Joaquim, ou de João de Sousa, ou mesmo a tão afamada escultura do mestre Valentim, cujo valor é mais que exagerado. FONSECA E SILVA (Valentim da, dito Mestre Valentim), famoso escultor e entalhador brasileiro (Rio de Janeiro, 1750 id., 1813). Filho de fidalgo português e de escrava natural do Brasil, é autor de numerosas obras, entre elas decorações de várias igrejas (Nossa Senhora do Carmo, São Francisco de Paula, Candelária), e projeto e execução parcial do Passeio Público, no Rio de Janeiro. A influência portuguesa Outra circunstância bem pouco favorável ao desenvolvimento artístico do Brasil eram a influência e o atavismo portugueses. Se Netuno e Marte obedeceram aos lusitanos, é preciso confessar que Apolo se lhes mostrou constantemente bem indócil. Lisboa foi sempre uma cidade longe de poder considerar-se como um foco artístico, e não se compreende como aquele movimento que produziu o estilo manuelino tão rápido fosse, sobretudo, tão estéril, verdadeiro relâmpago que se apagou num lampejo e não serviu de farol à arquitetura portuguesa, caída no horrendo estilo jesuítico e conventual a que se devem os monstrengos como Mafra. Oriunda do obscurantismo das eras coloniais, a arte não podia furtar-se à sua influência e a ser, por outro lado, o produto da fé religiosa, que lhes determinara e traçara o círculo das suas manifestações. Foi, por isso, a pintura sacra, o gênero principalmente cultivado, ao qual se seguiram o retrato e a decoração, aliás também inspirada pelo sentimento de fé. Assim, mergulhados na estreiteza do meio, os artistas desta época não se elevaram acima das medíocres pinturas religiosas; e a despeito do cenário que se lhes abria palpitante de belezas naturais, repleto dos mais indizíveis encantos, foram incapazes de observar as riquezas que se lhes ofereciam. Pudessem formar a sua individualidade artística na observação constante da natureza e com a liberdade de cultura, que é a essência do ideal artístico; não estivessem amoldados ao império enervante de uma sociedade desagregada, outros gêneros certamente por eles seriam cultivados. Os franceses no Brasil Não será lícito atribuir senão ao atraso do meio e às condições do momento, o abandono em que ficara a paisagem, num país em que, pelas suas maravilhas e grandezas, pela sua exuberância de tons, de colorido, de luz de nuanças e de surpreendentes panoramas, não poderia existir artista que não deixasse obumbrar (obcecar) pela intensidade das mais fortes impressões, transmitindo-as à tela por meio dos pincéis. A tais emoções, por exemplo, não se pode furtar o gênio de Nicolau Taunay, nome culminante da colônia francesa, o qual, não obstante ter como especialidade a pintura de batalhas, a pintura histórica e a de gênero, não resistiu aos encantos da natureza brasileira, entregando-se como fez, à pintura das nossas florestas e dos nossos cenários, legando-nos quadros primorosos. TAUNAY (Nicolas Antoine), pintor francês (Paris, 1755 - id., 1830), um dos membros da Missão Artística Francesa, que chegou ao Rio de Janeiro em março de 1816. Fora assim constituído e assim representado o cenário do movimento da arte pictural do tempo da colônia, cenário que passou por completa mutação quando, com a chegada dos franceses em 1816, foi, no Rio de Janeiro, instituído o ensino artístico sob a orientação de mestres de reputação firmada. Iniciara, destarte, a pintura no Brasil, a sua verdadeira fase orgânica que, com a continuidade e lento progresso, consoante às condições mesológicas (do meio), já atingiu a certo grau, que nos permite distinguir-lhe duas grandes épocas - uma de formação e outra de desenvolvimento: a primeira, caracterizada pelo aparecimento dos primeiros discípulos dos mestres estrangeiros; a segunda, pelos que se formaram em nosso meio, com os nossos próprios recursos e as nossas próprias condições, embora muitos deles tenham integrado o seu aprendizado artístico em países estrangeiros. A primeira época: formação A primeira época - a de formação - inicia-se em 1816 e vem até 1869, subdividindo-se em três períodos: MEIRELES (Vítor MEIRELES DE LIMA, dito apenas Vítor), pintor brasileiro (Desterro [hoje Florianópolis], SC, 1832 - Rio de Janeiro, 1903). Ainda estudante, conquistou (1852) o prêmio de viagem à Europa. Estudou em Roma, Florença, Milão, Paris. Consagrou-se na pintura histórica, especialmente com a execução de A primeira missa no Brasil, exposta no Salão de Paris de 1861. Nesse mesmo ano retornou ao Brasil, onde passou a exercer o magistério e formou uma geração de pintores importantes. Quadros principais: Combate naval de Riachuelo, Passagem de Humaitá, Batalha dos Guararapes, Juramento da princesa Isabel. AMÉRICO (Pedro Américo de FIGUEIREDO E MELO, dito Pedro), pintor brasileiro (Areia, PB, 1843 - Florença, 1905). Doutor em ciências físicas pela Universidade de Bruxelas, na Bélgica, freqüentou ainda cursos de filosofia e literatura em Paris, onde se aperfeiçoou em pintura. De retorno ao Brasil, conquistou a cátedra de desenho da Academia Imperial das Belas-Artes, transferindo-se mais tarde para a de história das artes, estética e arqueologia. Consagrado com a colocação de seu retrato na sala de pintores célebres da Galeria degli Uffizzi (Florença). Principais quadros: Batalha do Avaí, Grito do Ipiranga, Judith e Holofernes, Rabequista árabe. A segunda época: desenvolvimento A segunda época - a de desenvolvimento - começa em 1860 e vem até os nossos dias, subdividindo-se em quatro períodos:Rio de Janeiro, 1915. Laudelino Freire. ..... |