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A influência dos mestres franceses
Com o presente período, abre-se à pintura uma fase de franco desenvolvimento que,
dia-a-dia se vem acentuando e traduzindo na formação de pintores, a alguns dos quais
não seria justo negar as qualidades que se podem exigir de um artista, em meio adiantado
e culto.
Em qualquer centro de fina e esmerada arte, não se sentiria diminuído o Brasil com o
ostentar-se nas pessoas de Pedro Américo, Vítor Meireles, Zeferino, Almeida Júnior,
Amoedo, Décio, Visconti, Batista, além de outros, nomes que se prendem à fase iniciada
em 1860.
A cultura artística fora até então obra exclusiva mas, em grande parte, inspirada,
dirigida e impulsionada pelo fator alienígena, cuja influência se fizera sentir de modo
eficiente em todo o transcurso quase semicircular da primeira fase.
Os primeiros
mestres brasileiros na Academia
Augusto Müller, Simplício de Sá, Corte-Real, Correia de Lima, Porto-Alegre, Barros
Cabral, Costa Miranda, Reis Carvalho, fizeram-se sob influência direta de mestres
estrangeiros, e com eles irrompera a nossa pintura, que passava a ter, nestes artistas, o
primeiro grupo de representantes, e para cujas mãos se foi operando a deslocação do
ensino.
Cada um, na esfera de ação que se traçara, tivera a função histórica de imprimir-lhe
e, consequentemente, à obra de arte, cujo diverso daquele que lhes davam o sentir e o
pensar estranhos.
Iniciava-se o que se poderia chamar de nacionalização do meio artístico. A pintura
passou a inspirar-se no sentimento das coisas pátrias, e embeber-se em motivos
propriamente nacionais. E por pouco que, com aquele primitivo grupo, se não desenleou de
todo da influência estranha.
Mas a influência
estrangeira permanece
A década de 1830 a 1840 assinala-se pelo predomínio do elemento nacional. Não se
verificara, porém, tal ocorrência, senão de modo acidental, em virtude da ausência de
pintores estrangeiros; não fora o resultado de desígnios assentados que tivessem em
vista a emancipação da cultura.
E tanto assim que, nos vinte anos que se seguiram, como tivesse afluído ao país uma leva
não pequena de estrangeiros, a movimentação, quer particular, quer em torno das
exposições, quase se limitara aos trabalhos por eles executados, em contraste com a
reduzida produção de artistas nossos, cujos principais eram então apenas Agostinho da
Mota, Carlos do Nascimento, Grandjean Ferreira, Maximiano Mafra.
No entanto, entre aqueles estrangeiros, se poderia apontar Cláudio Barandier, Luís
Buvelot, os irmãos Moreaux, Luís Constante Belisle, Alexandre Cicarelli, Maurício
Rugendas, Lasanha, Júlio Le Chevrel, Joaõ Batista Borelli, Fernando Krumholtz, Luís
Stalloni, Corelli, Facchinetti, Henrique Vinet, Augusto Francisco Biard, Carlos Linde,
Calixto Taglibue, Frederico Tirone, Sílvio Piccozzi Giuliani, G. M. Heaton, em sua
maioria, artistas de boa, fina e apurada arte.
Presença
estrangeira abafa nacionalização da arte
De alguns, foi passageira a estada no Brasil. Neste caso estão Bellisle, Cicarelli, de
quem possui a Galeria dois retratos, Rugendas, Lasanha, Corelli, Heaton, Biard, Tirone,
Taglibue, Piccozzi e Giuliani. Foram nomes que não se prenderam à nossa história.
Ficara, destarte, subalternizada, e em plano secundário, a ação nacionalista que se
começara a manifestar.
Se é verdade que, ao merecimento de um Krumholtz, poder-se-ia contrapor o valor
indiscutível de um Augusto Müller; se, às apuradas qualidades de paisagista de um
Vinet, correspondiam as de um Agostinho da Mota; e se, à larga visão técnica de um Le
Chevrel, oporíamos a um Correia de Lima, menos exato não será o reconhecer que, a
nenhum dos nacionais, em que pese ao prestígio da sua arte já consciente, foi dado ter,
nesse sentido, a mesma ação significativa e preponderante que a Vítor Meireles coube
exercer.
Os pioneiros da
arte nacional
Secundado pelo gênio de Pedro Américo, pela dedicação de Zeferino da Costa e
pela operosidade de A. de Sousa Lobo, ao grande artista estava reservado o papel de criar
a escola verdadeiramente brasileira, integralizando a nacionalização do ensino, de forma
a tirá-lo e mãos estranhas, onde só ocasionalmente poderia voltar, e confiá-lo à
competência dos brasileiros. E de tal sorte se conduziu, que conquistou a glória de ter
sido o mais fecundo dos mestres, aquele que, com mais assinalada dedicação, maior
número de discípulos soube formar.
Quando, em 1859, Pedro Américo, mediante auxílios de Pedro 2º, partiu pela primeira vez
para a Europa a fim de aperfeiçoar-se, já aqui deixara Vítor Meireles recebendo as
primeiras manifestações de justa celebridade, que se começara a firmar na exposição
geral daquele ano, com o quadroSão João Batista no Cárcere, e na de 1862 com a
tela A Primeira Missa no Brasil, e que o havia de sagrar o nome mais
legitimamente representativo da arte a que se dedicara.
O seu aparecimento, seguido muito de perto do aparecimento de Pedro Américo, culminante
individualidade, significa que, à longa fase de preparação, iniciada pelos franceses e
continuada por Simplício de Sá, Porto-Alegre, Correia de Lima, Augusto Müller, Barros
Cabral, Costa Miranda, Reis Carvalho, Agostinho da Mota e Maximiano Mafra, se sucederiam
os resultados que dela seria licito esperar.
Revelara-se o meio já suficientemente preparado, dele não surtindo revelações
promissoras, senão artistas, cujas obras, perpetuadas em admiráveis padrões, os
tornaram dignos de admiração.
Pedro Américo e
Vítor Meireles,
os primeiros mestres brasileiros
Pedro Américo e Vítor Meireles, embora tivessem ambos aprimorado o seu aprendizado nos
centros europeus, são produtos de nossa cultura porque, filhos de nossa Academia, quando
dela saíram, já eram pintores habilitados e capazes.
Voltando à pátria, naturalmente mais enriquecidos de conhecimentos e com horizontes mais
dilatados, entre ambos se estabeleceu a verdadeira luta artística em que, alternadamente
se tornaram, um do outro, êmulos e competidores, ao mesmo tempo em que, pela
superioridade das suas inteligências, surgiram os nossos maiores mestres, firmando época
na história da pintura, destinados a instituir-lhe a fase de desenvolvimento.
Completavam, destarte, os dois grandes brasileiros, a obra que nos legara D. João 6º.
A pintura desprendeu-se dos laços em que a detinha a estreiteza do meio e, inspirando-se
em mais largos motivos, em concepções mais elevadas, revestindo-se de formas superiores,
concretizou-se em apreciáveis resultados.
Evoluiu ela, gradativamente, da pintura dos claustros e das igrejas, das irmandades e dos
conventos, à cultura de todos os gêneros. E, de quanto floresceu nas primeiras décadas
da segunda metade do século passado, dá irrecusável testemunho a obra dos artistas que
vicejaram no período que se inicia em 1860, e das brilhantes gerações que se sucederam.
Os dois grandes artistas encheram todo esse período, que se estende até 1879, e no qual
também florescem Zeferino da Costa, Sousa Lobo, Arsênio Silva, Delfim da Câmara,
Leopoldino de Faria, Augusto Duarte, Estêvão Silva, J. Medeiros, P. Peres, Leôncio
Vieira, Antônio Alves do Vale de Sousa Pinto, Francisco Vilaça, a quem se juntam De
Martino, Ângelo Agostini, Felix Perret, Júlio Mill, Ulrich Steffen, Luís Borgomainerio,
Gustavo James, Bordalo Pinheiro, B. Wiegandt, C. Sanderson, Eduardo Salusse, Augusto
Petit, Insley Pacheco, Canysares, Rodrigues Nunes e Tito Capinan.
A Academia que, então, teve o seu corpo docente constituído dos professores Moreira
Maia, Carlos da Fonseca, Chaves Pinheiro, Maximiano Mafra, Bethencourt da Silva, Agostinho
da Mota, José M. Jacinto Rebello, Vítor Meireles, Pádua e Castro, Pedro Américo,
Júlio Le Chevrel, Domingos Silva, José Pereira Rego Filho, Nicolau Tolentino, Francisco
Praxedes de Andrade Pertence e Thomás Gomes, continuou a ser o principal, senão o único
centro de irradiação artística.
Exposições e
Bolsas de Estudos
O movimento recrudesceu em torno dos concursos para os prêmios de viagem, chamados
prêmios de primeira ordem, e das exposições públicas oficiais.
Desde 1852, ano em que fora premiado Vítor Meireles, ficaram suspensos os concursos. Em
1860, porém, recomeçaram, e até o fim do período estudado (1879), se realizaram os
sete seguintes:
O de 1860, em que foi premiado
Joaquim José da Silva Guimarães, gravador de medalhas, julgado sem parecer de comissão,
em sessão de 23 de novembro do mesmo ano, e que teve como concorrentes um pintor
histórico e um arquiteto.
O de 1862, em que foi premiado
José Rodrigues Moreira Júnior, arquiteto, julgado em sessão de 1º de dezembro do mesmo
ano, pela comissão formada de José da Silva Santos, professor de gravuras e de medalhas,
Francisco Manoel Chaves Pinheiro, professor de estatuária, Francisco Joaquim Bethencourt
da Silva, professor de arquitetura, Dr. Ernesto Gomes Moreira Maia, professor de desenho
geométrico, e João Maximiniano Mafra, professor de desenho de ornato; teve como
concorrente um escultor.
O de 1865, em que foi premiado
Cândido Caetano de Almeida Reis, estatuário, julgado em sessão de 3 de junho do mesmo
ano pela comissão formada de Chaves Pinheiro, Silva Santos, Antônio de Pádua e Castro,
professor de escultura e de ornatos, Vítor Meireles, professor de pintura histórica, e
Agostinho José da Mota, professor de paisagens. Concorreram, também, um pintor
histórico e um paisagista.
O de 1868, em que foi premiado
João Zeferino da Costa, pintor de história, julgado em 14 de agosto do mesmo ano, pela
comissão constituída de Agostinho Mota e Júlio Le Chevrel, professor interino de
desenho figurado. Concorreram mais quatro pintores históricos.
O de 1871, em que foi premiado
Heitor Branco de Cordoville, arquiteto, julgado em sessão de 30 de agosto do mesmo ano,
pela comissão seguinte: Le Chevrel; Pedro Américo, professor de estética; Dr. Domingos
de Araújo e Silva, professor de matemática aplicada; e Maximiano Mafra. Concorreu,
também, um pintor histórico.
O de 1876, em que foi premiado
Rodolfo Bernardelli, julgado em sessão de 16 de setembro do mesmo ano, pela seguinte
comissão: Dr. Ernesto Gomes Moreira Maia, Antônio de Pádua e Castro e Maximiano Mafra.
Não teve concorrentes.
O de 1878, em que foi premiado
Rodolfo Amoedo, pintor histórico, julgado em sessão de 31 de outubro do mesmo ano pelos
professores Vítor Meirelles, João Zeferino da Costa e Maximiano Mafra. Teve como
concorrentes um pintor histórico e um paisagista. É de interesse a leitura da ata da
sessão do julgamento desse concurso:
"Terminado o expediente, o Sr. Conselheiro Diretor declara que a reunião da
Congregação tem por fim o julgamento do concurso ao prêmio de 1ª ordem:
desce esta à sala do concurso e, depois de prolongado exame, é lido o parecer da
comissão especial. Voltando a Congregação à sala das sessões, abre-se a discussão
sobre o parecer, que é o seguinte:
As novas
revelações
"«A Comissão nomeada para estudar e dar parecer sobre o concurso de pintura
histórica e de paisagem para o prêmio de 1a ordem, cujo título é
Sacrifício oferecido por Abel, depois de maduro exame, concordou que o trabalho do
paisagista é inferior aos dos pintores históricos, e tanto que estes lhe levam vantagem
até na paisagem, a qual, sendo neles acessório, é naquele objeto principal. Não pôde,
portanto, ser escolhido.
"«Os dois concorrentes de pintura histórica deram conta de sua missão. Em ambos, a
composição é boa. Há sentimento de arte, que deixa evidente que qualquer deles pode
aproveitar o prêmio que se lhe for concedido. Em ambos há qualidades e defeitos no
desenho. Há expressão, colorido e harmonia. É, porém, impossível à Comissão dizer
qual dos dois é superior e, limitando-se a declarar que ambos merecem igualmente o
prêmio de 1a ordem, julga que seria injustiça preferir qualquer dos dois ao
outro.
"«É, pois, de parecer, que seja decidido pela sorte, no caso de não poder a
Academia alcançar do Governo Imperial o mesmo prêmio para ambos, o que seria mais justo
e proveitoso para a arte. Sala do concurso, 31 de outubro de 1878. Assinados: Vítor
Meireles de Lima, João Zeferino da Costa, João Maximiano Mafra.»
O impasse e a
decisão salomônica
"O Sr. Domingos é de opinião que se deve conceder o prêmio de 1a ordem
a um só dos candidatos, porque foi para a escolha de um só pensionista, que se abriu o
concurso.
"O Sr. Diretor entende, como o Sr. Domingos, que a Congregação deve decidir-se por
um só dos candidatos mas que, como na dotação anual da Academia tem havido sobras em
todos os exercícios, o Governo pode, como graça especial, mandar estudar à Europa o
candidato preterido.
"Os membros da Comissão sustentam que é impossível decidir qual dos dois trabalhos
é melhor, e que ambos merecem o prêmio que disputam.
"Finalmente, procede-se à votação do parecer, por partes, o qual é unanimemente
aprovado quanto à reprovação do paisagista e à aprovação dos dois pintores
históricos.
"É rejeitado o concurso da sorte e, contra o voto da Comissão, é resolvido que a
Congregação votará, por escrutínio secreto, a escolha do candidato que deve ser
premiado.
"Procedendo-se, então a votação, o Sr. Conselheiro Diretor declara que só votará
em caso de empate, e obtém os dois trabalhos designados com os números 1 e 2, três
votos cada um, aparecendo duas cédulas em branco. O Sr. Diretor desempata em favor do
número dois, que se reconheceu ser o Sr. Rodolfo-Amoedo.
"O Sr. Diretor, com o assentimento unânime da
Congregação, declara que solicitará para o aluno Henrique Bernardelli, como graça
especial, a concessão do mesmo prêmio conferido ao colega. Academia de Belas Artes, 31
de outubro de 1878. Dr. Moreira Maia, A. de Pádua e Castro, Chaves Pinheiro, Vítor
Meireles de Lima, J. Zeferino da Costa, Domingos de Araújo e Silva, João Maximiano Mafra
(secretário)."
A influência das
exposições
As exposições públicas e oficiais, por outro lado, se sucedem, permitindo que se
intensifique a emulação entre os artistas.
Na exposição de 1860, distinguiram-se, conquistando recompensas superiores, os artistas
Francisco Manuel Chaves Pinheiro, Agostinho José da Mota e Morel Fatio, aos quais se
seguiram: Joaquim Lopes de Barros Cabral, Emílio Bauch e Poluceno Pereira da Silva
Manuel, com medalhas de ouro; José Tomás da Costa Guimarães, D. Joana Carvalho e
Leopoldo Heck, com medalhas de prata; e Joaquim da Rocha Fragoso, com menção honrosa.
Na de 1962, a Academia mencionou com louvor, no ato solene de distribuição dos prêmios,
os nomes de Vítor Meireles, José da Silva Santos e Agostinho da Mota, e conferiu
medalhas de prata a Henrique Vinet, Arsênio Silva e Leopoldo Heck; menção honrosa a
José Bernardino Dias Medronho e Frederico Tironi.
Na de 1864, foram premiados os pintores: Carlos Luís do Nascimento e Vítor Meireles, com
o hábito de Cristo; Martin Johnston Heade, com o hábito da Rosa; Júlio Le Chevrel, E.
Müller, Henrique Vinet e Wahnschaffe, com medalhas de ouro; Arsênio Silva, Mariano de
Almeida, José Tomás da Costa Guimarães e Insley Pacheco, com medalha de prata, e
Nicolau Facchinetti, com menção honrosa.
A propósito desta exposição, assim se pronunciou o então diretor, conselheiro Dr.
Tomás Gomes dos Santos, no discurso que proferiu na solenidade de distribuição dos
prêmios:
E como progrediram
nossos alunos !
"Dois retratos do Sr. Luís Carlos do Nascimento primam pelo desenho e pelo colorido:
o desenho é corretíssimo, o colorido é cheio de suavidade. São obras de um mestre
experimentado, o qual deve suas brilhantes e sólidas qualidades ao próprio talento e a
seu acurado estudo dos melhores painéis da Galeria Acadêmica.
"Este habilíssimo artista tem feito relevantes serviços à arte brasileira,
restaurando com suma felicidade os quadros dos grandes mestres que adornam a Pinacoteca e
que, por certo, não existiriam hoje sem a sua admirável perícia.
"Um magnífico retrato de S. M. Imperial, feito pelo professor Vítor Meireles de
Lima, lembra a correção de desenho e a harmonia do colorido, que tornaram tão notável
o autor da Primeira Missa no Brasil. A mestria com que é pintado este painel demonstra
que, se o nosso primeiro pintor histórico se tem desviado das vastas composições, não
o fez certamente por sentir enfraquecido o seu talento. Pelo contrário, medita ele uma
grande obra que, para glória sua e da Academia, será executada em breve...
"O quadro em que o Sr. Le Chevrel representa os Últimos momentos de Bussy d'Amboise [AMBOISE (conjuração de), formada por Condé e os huguenotes,
dirigida por La Renaudie, em 1560, para subtrair Francisco II à influência dos Guises.
Malogrou e foi cruelmente reprimida.] é
notável pela excelente ordem da sua composição: o herói domina a cena e sobressai
naturalmente aos dois grupos que separa; é profunda a impressão que causa o contraste da
figura resoluta e nobre de Bussy com a dos seus assassinos, em cujas fisionomias se vê a
hedionda expressão das paixões mais baixas.
"O Sr. Vinet expôs paisagens estudadas com grande esmero. São trabalhos
conscienciosos, em que nada é omitido. Para este fino observador, todos os acidentes da
natureza são preciosos, e todos representa em sua tela...
"Ao Sr. Arsênio Silva, que tanto se distingue pela delicadeza do seu pincel, coube
uma medalha de prata."
Na exposição de 1865, foram premiados: Vinet, com o hábito da Rosa; Pedro Américo e
José dos Reis Carvalho, com medalhas de ouro; Mariano de Almeida e Nicolau Facchinetti,
medalhas de prata; Antônio Araújo de Sousa Lobo e João Zeferino da Costa, com menções
honrosas.
Surge a
"Carioca" de Pedro Américo
Nesta exposição, exibiu Pedro Américo o seu quadro Carioca, sobre o qual assim se
referiu o diretor, no ato da distribuição dos prêmios:
Na Carioca do Sr. Pedro Américo, a figura é modelada com perfeição. Falta-lhe, na
verdade, a beleza tradicional da arte antiga. E bem fez o pintor, em meu conceito,
abstendo-se dessa fácil reprodução. Violentar a ninfa grega, exilando-a dos vales da
Arcádia para as florestas e fontes da Guanabara, seria ato de pouco critério. O Sr.
Américo, em que despontam primorosas qualidades de gosto e engenho, não podia cometer
tal erro. A ninfa da Carioca é brasileira, e sua beleza, a das nossas patrícias. Toda
execução do painel é firme e larga, o colorido cheio de vigor.
"As flores do Sr. José dos Reis Carvalho confirmam sua reputação de primeiro
pintor de flores da nossa escola. Não é possível maior limpeza de tintas, nem mais
exata imitação da verdade."
A exposição de
1866
Merece destaque especial a exposição de 1866, assim julgada pelo diretor da Academia, na
solenidade da distribuição dos prêmios:
"Na exposição do ano que corre, três obras capitais produziram sensação no
público: duas perfeitamente acabadas; uma apenas em esboço. Esboço, porém, tão belo e
grandioso que fixou as atenções e excitou aplausos de quantos o viram.
"Nenhuma das exposições da Academia tem sido visitada por tão avultada
concorrência de espectadores: durante quinze dias, perto de mil pessoas circulavam
quotidianamente em nossas galerias, examinavam as obras de arte e se congratulavam com os
artistas expositores.
"Além das três grandes composições, de que por ora não me ocuparei, as obras que
mais se avantajaram neste concurso artístico foram mimosas miniaturas sobre o marfim, do
Sr. José Tomás da Costa Guimarães. Em todas, se admira a finura dos toques, a
transparência das cores, a delicadeza e a graça. A Academia julgou digno de uma medalha
de ouro o autor de trabalhos tão perfeitos.
"Um retrato do Sr. Pádua, executado pelo Sr. Joaquim da Rocha Fragoso, obteve igual
prêmio. Toda essa obra foi bem estudada. A semelhança física do rosto é perfeita.
Porém, o que mais impressiona é a gravidade digna e a viva inteligência que
caracterizam a fisionomia do ilustre escultor, fielmente trasladadas na tela. O Sr.
Fragoso expôs mais cinco retratos e uma cópia. São estes trabalhos dignos de estima.
"Foram expostos pelo Sr. Insley Pacheco dezoito paisagens e uma marina. Em muitas
obras desta coleção são notáveis a harmonia dos tons e a firmeza dos toques. A
Academia votou ao Sr. Insley Pacheco uma medalha de prata.
"O Sr. Francisco Viriato de Freitas apresentou quatro retratos e duas cópias. Dentre
esses retratos, distingue-se o de nº 20, em cuja execução empregou o autor mais estudo
e esmero. A Academia faz dele menção honrosa.
"A mesma distinção mereceram uma delicada miniatura sobre marfim, cópia de Aníbal
Carhache, feita pelo Sr. Antônio José da Rocha; duas pequenas paisagens, cheias de
harmonia, copiadas do natural pelo Sr. Antônio Araújo Sousa Lobo, que expôs mais dois
retratos; e nove paisagens do Sr. Vinet, entre as quais se distinguem as de nºs. 27 e 28.
Em todas, porém, se manifesta o caráter da natureza brasílica e a exata observância
das regras da perspectiva aérea.
Mergulhando na
mitologia grega
"Apesar de não terem sido premiadas pela Academia, por não permiti-lo a situação
dos seus autores, que não são membros dela, não posso deixar de mencionar duas obras
que adornam esta exposição: o magnifico retrado do falecido Marquês de Abrantes,
primorosamente pintado pelo Sr. [Vítor] Meireles de Lima, e um busto de gesso do falecido
brigadeiro Dr. Frederico Leopoldo Cesar Burlamaqui, e executado com perfeição pelo Sr.
Chaves Pinheiro.
"Os trabalhos premiados ou mencionados com honra pela Academia revelam não ter
arrefecido o ardor empregado nestes últimos anos à cultura das artes.
"Três obras, porém, de mérito superior, deram grande realce à última
exposição, excitando vivamente as simpatias do público e merecendo plena aprovação
dos artistas. Foram elas: Baco implorando o socorro de Netuno contra os lusitanos que vão
assenhorear-se da Índia, conquista antiga dofilho de Semele; Moema arrojada morta sobre a
praia; e a Estátua equestre de Sua Majestade na rendição de Uruguaiana.
"Destes três assuntos, o primeiro, todo de fantasia, foi largamente desenvolvido
pelo Sr. Le Chevrel, que transferiu para a sua tela a cena tão maravilhosamente pintada
pelo divino Camões no Canto 6 dos Lusíadas. Inspirado pelo grande poeta, o hábil pintor
mostra aos olhos surpreendidos pelas refracções e reflexões de luz, através das águas
e cristais oceânicos, o palácio em que
No mais íntimo
fundo das profundas / Cavernas altas, onde o mar se esconde, / Lá donde as ondas saem
furibundas / Quando as iras do vento o mar responde / Netuno mora ................
"Tudo, nessa morada, são maravilhas, a areia é prata fina, os aljôfares [pérolas
diminutas], os cristais, pérolas, as gemas preciosas são em tal abundância, que a vista
é ofuscada por tantos e tão variegados esplendores.
"O Sr. Le Chevrel fixou no seu quadro esses efeitos de luz descritos pelo poeta e,
seguindo o mestre, passo a passo, nos conduz ao átrio do alcáçar [palácio mourisco]
submarino, donde entrevemos, confusamente, as ricas decorações do interior. À entrada,
vemos Baco com o rosto afogueado pela cólera, com que
Arde, morre,
blasfema, desatina. / Vem recebê-lo Netuno com as ninfas / ............... Que se estão
maravilhando / De ver que cometendo tal caminho / Entre no Reino d'agua o Deus do Vinho. /
Por ordem de Netuno, Tristão que era / Mancebo grande, negro e feio / Trombeta de seu pai
e seu correio.
"Convoca as divindades marinhas para, em conselho, ouvirem a Baco:
Soa a trombeta do
filho de Netuno, / A voz grande e sonora foi ouvida/ por todo o mar que longe retumbava.
"Não tardaram em se aproximar os deuses e semideuses, cujo império as ondas
encobrem os olhos dos homens, quando as não separam a poesia ou a pintura, como há três
séculos fez Camões, como agora o fez de novo o Sr. Le Chevrel.
"Nessa multidão de imortais, que ele nos mostra, todas as formas são puras,
elegantes, majestosas. Em todas, domina o tipo grego, com a sua graça, beleza e força. E
assim devia ser, pois que é um mito grego o que esse quadro nos representa.
"Ao primeiro aspecto do painel, estranha-se o fantástico do colorido; mas apenas se
fixa a atenção, admira-se o primor do desenho e a magistral distribuição das massas.
Com efeito, muitas são as qualidades superiores desta obra prima, porém, sobre todas,
destacam-se as purezas do desenho e a mestria da composição.
Toda poesia de
"Moema" no
painel de Vítor Meireles
"Obra de maior valor, pois reúne, em grau subido as qualidades da grande pintura, é
a Moema do Sr. Vítor Meireles de Lima. Desenho, colorido, transparência aérea, efeitos
de luz, perspectiva, exata imitação da natureza em seus mais belos aspectos, elevam esta
composição magistral à categoria de um original de grande preço.
"O assunto, todo nacional, é uma das nossas lendas mais tocantes. Diogo, o Caramuru,
regressa à Europa em uma nau francesa, levando em sua companhia a esposa mais amada, a
formosa Paraguaçu, e abandonando a outra, que talvez o amasse mais, a bela Moema. Lamenta
a desgraçada tanto amor tão mal correspondido, solta sentidíssimas queixas, chama
clamorosamente o esposo que lhe foge.
"Entretanto... Impelida de um reflexo sereno, vai se afastando a nau que leva o
ingrato, talvez seu único amor, alma de sua existência, ainda há pouco tão doce: a
infeliz cega, louca de amor e desespero, se aremessa às ondas, fende-as impetuosamente, a
paixão de a arrebata, dá-lhe forças sobre-humanas, avizinha-se da nau, pode enfim
segurar-se ao leme mas, já exausta e quase sem alento, com voz entrecortada diz:
Bem puderas,
cruel, ter sido esquivo / Quando eu a fé rendia ao teu engano, / Que é favor dado a
tempo um desengano; / Porém deixando o coração cativo, / Fugiste-me, traidor e desta
sorte / Paga meu fino amor tão crua sorte. / Perde o lume dos olhos, pasma e treme. /
Pálida a cor, o aspecto moribundo, / Com a mão já sem, soltando o leme, / Entre as
salsas espumas desce ao fundo... / Tornando a aparecer desde o profundo, / ... Ah! Diogo
cruel!! disse com mágoa, / E sem mais vista ser sorveu-se n'agua...
"O painel do Sr. [Vítor] Meireles de Lima representa o final deste drama tão
patético, omitido pelo poeta: as ondas restituem à erra o corpo gentil da infortunada
Moema, que repousa sobre a areia erma e silenciosa. Tudo, neste painel, respira
melancolia, mas tudo é suave e calmo. O céu límpido e sereno, como o rosto da mulher
que sofreu muito e já não se queixa.
"Na superfície do mar, apenas se entrevê brando movimento, leves crespos de água
vêm lentamente, como que receosos, beijar a vítima de tão malfadado amor, não se
atrevem, porém, a fazê-lo, e recuam sem tocá-la. À direita, e não longe, vê-se um
bosquezinho de arbustos com mui pouca espessura, cujas últimas ramas, com dificuldade se
deixam mover pelo sopro do terral.
"`A esquerda e defronte, o mar tranqüilo. A cena é iluminada pela claridade da
manhã, tão branda e suave, que se harmoniza com a melancolia geral da composição, e a
torna mais sentida. Moema sela a reputação do mestre, que despontara brilhante à sua
estréia, na segunda missa celebrada no Brasil.
Mais quadros
laudatórios
"Resta-me, ainda, apontar uma grande obra que, como aquela com que há pouco me
ocupava, fixou todas as atenções: é a Estátua eqüestre de Sua Majestade, o Imperador
na rendição de Uruguaiana. Este trabalho se acha em esboço, mas suas proporções são
tão grandiosas, tão perfeitas suas linhas... Há na figura tão grande semelhança com o
original, e tão grande nobreza no porte que, certamente, quando acabado, será o
monumento uma obra prima.
"Seu autor, Sr. Chaves Pinheiro, abalançou-se a um grande cometimento, o primeiro
deste gênero na arte brasileira. Árduas dificuldades se lhe opõem. Serão vencidas. Em
Chaves Pinheiro, como em [Vítor] Meireles de Lima, arde o fogo sagrado que alimenta o
amor e a arte, e o do Brasil.
"Honra e louvor aos mestres que, inspirando-se das lendas nacionais e das nossas
glórias, nos afervoram aos peitos o amor da pátria, e conservam a memória dos atos que
enobrecem.
"Nada mais direi, Senhor. Beijo reverente as mãos de Vossa Majestade. Tenho
terminado. Então, o secretário procederá à chamada dos artistas premiados, pela forma
abaixo mencionada, os quais receberão seus prêmios das augustas mãos de Sua Majestade,
o Imperador."
E as exposições
continuam
À exposição de 1867, seguiram-se as de 1867 e 1868, que carecem de importância. Na de
1867, inaugurada a 16 de junho, foram apresentados 122 trabalhos, por 34 expositores,
dentre os quais figuraram Zeferino da Costa, Insley Pacheco, Rocha Fragoso, Le Chevrel,
Facchinetti, Pedro Américo, Vítor Meireles e Vinet. Na de 1868, obteve Antônio Araújo
de Sousa Lobo a segunda medalha de ouro, com o seu quadro a óleo Tomada do Forte de
Itapiru.
A exposição de 1870 teve regular animação, e a ela concorreram os artistas Júlio Le
Chevrel, com um quadro; Henrique Vinet, com quatro paisagens; J. da Rocha Fragoso, com
quatro retratos de corpo inteiro e sete de meio corpo; Vítor Meireles, com um retrato de
corpo inteiro; Agostinho José da Mota, com um retrato a cavalo (Barão do Triunfo), um
quadro de frutas, um de flores e uma paisagem; Poluceno Pereira da Silva Manuel, com dois
retratos; Carlos do Nascimento, com dois retratos e sete painéis da Academia, por ele
restaurados; Nicolau Facchinetti, com uma paisagem; Augusto Duarte, com três retratos; A.
J. da Rocha, com duas miniaturas, além de alguns artistas mais, e de quatro trabalhos de
Eduardo De Martino.
Na exposição de 1872, que foi visitada por cerca de cinqüenta e três mil pessoas,
alcançam os primeiros lugares os dois grandes pintores Vítor Meireles e Pedro Américo.
O primeiro, com a Batalha do Riachuelo, A Passagem de Humaitá e três retratos; o
segundo, com a Batalha do Campo Grande e o Retrato de D. Pedro 1º .
Concorreram mais: Zeferino da Costa, com alguns estudos feitos em Roma; Rocha Fragoso, com
alguns retratos; Agostinho da Mota, com duas paisagens; Facchinetti, com várias
paisagens; Vinet, com uma paisagem e alguns painéis; De Martino, com algumas marinhas;
Poluceno da Silva Manuel, com vários retratos; A, de Sousa Lobo, com um retrato de uma
senhora e Augusto Duarte, com algumas paisagens.
A esta exposição concorreram, pela primeira vez, os dois artistas estrangeiros F.
Perret, com alguns trabalhos de gênero, e Júlio Mill, com duas paisagens.
Concorreram 47 artistas à exposição de 1875. De Martino, segundo o voto da
Congregação, merecia alta recompensa, se já não tivesse sido distinguido em
exposição anterior; Almeida Reis e Francisco Caminhoá foram premiados com a primeira
medalha de ouro; Rodolfo Bernardelli, Francisco José Pinto Carneiro e Dona Joana de
Carvalho, com a segunda medalha de prata; José Maria dos Santos Carneiro Júnior,
Francisco da Cruz Antunes e Felipe Nery, com menção honrosa.
Zeferino da Costa, Insley Pacheco e Nicolau Facchinetti, que também se apresentaram, não
concorreram aos prêmios. Nela também figuraram Agostinho da Mota, Sousa Lobo, Augusto
Duarte, Francisco Vilaça, James Vinet, J. Medeiros, Júlio Mill, Leôncio Vieira,
Borgomainerio, Pedro Peres e Vítor Meireles.
Em 1876, a
premiação tornou-se generalizada
Quanto à exposição de 1876, transcrevemos a ata em que foram julgados os trabalhos
expostos, o seguinte:
"A Comissão nomeada para dar parecer sobre o merecimento das obras exibidas na
exposição geral deste ano, composta dos senhores professores A. J. da Mota, A. de Pádua
e João Maximiano Mafra, apresenta o seu trabalho. Posto em discussão, o Sr. Vítor
[Meireles] nota que houve demasiada generosidade na proposta de prêmios. O Sr. Maia
sustenta o parecer em todas as conclusões.
"Falam sobre este assunto todos os senhores professores. Votando-se por partes os
prêmios indicados pela comissão, todos são aprovados, sendo, por unanimidade, os
seguintes: 1a medalha de ouro ao Sr. Rodolfo Bernardelli; medalha de prata aos
Srs. Ullrich Steffen e Estêvão Roberto da Silva; menção honrosa aos Srs. Cristiano
Schmidt, Dona Elvira Airosa, Francisco da Cruz Antunes e Francisco Vilaça. E, por maioria
de votos, os seguintes: 1a medalha de ouro ao Sr. Antônio Araújo de Sousa
Lobo, votando contra os Srs. Vítor Meireles e Dr. Barbosa; e ao Sr. José Maria de
Medeiros, cntra o voto do Sr. Vítor, somente; 2a medalha de ouro ao Sr.
Leôncio da Costa Vieira e Dona Francisca Braves; medalha de prata ao Sr. Delfim da
Câmara; e menção honrosa ao Sr. Antônio Alves do Vale. Contra todos, votou unicamente
o Sr. Vítor.
"Sobre os trabalhos do Sr. Júlio Mill e Antônio José da Rocha, julga a
Congregação que eles são inferiores aos dos anos anteriores e, por isso, não merecem
prêmio seus autores, votando contra este juízo o Sr. Pádua e o Secretário.
"Resolve a Congregação que se declare ao Governo que não foram julgados os 13
bustos de mármore vindos de Portugal, e que se acham expostos com os números 108 a 120,
por não terem sido submetidos por seus ilustres autores ao julgamento desta Academia.
"Por indicação do Exmo. Sr. Conselheiro Diretor, declara ao corpo acadêmico que
julga necessário proceder-se ao concurso para o prêmio de 1a ordem."
Pausa para
reavaliação
Foi a última exposição do período aqui estudado, seguindo-se-lhe a de 1879, na qual
não foi pequena a concorrência de estrangeiros. Além dos que se incorporaram ao nosso
movimento, tendo aqui se domiciliado, como aconteceu com De Martino, Petit, Bordalo
Pinheiro, Wiegandt, Júlio Mill, Perret, Borgomainerio, Gustavo James, Canysares, Papf,
Standerson, outros por aqui passaram em rápidas excursões, apresentando-se em alguns dos
nossos certames, sem que, no entanto, tivessem exercido qualquer influência.
Entre esses, ocorrem-nos os nomes de Morel Fatio e Emílio Bauch, que se distinguiram na
exposição oficial de 1860, alcançando o primeiro uma recompensa superior e, o segundo,
uma medalha de ouro. De Morel Fatio existe na Galeria Pública o trabalho intitulado:
Vento Fresco.
Na direção da Academia, a ação eficassíssima de Felix Emílio Taunay e Araújo
Porto-Alegre não sofrera solução de continuidade ao passar para as mãos do conselheiro
Dr. Tomás Gomes dos Santos, que a exercera de 1857 a 10 de julho de 1874, data em que
faleceu, tendo sido substituído pelo conselheiro Antônio Nicolau Tolentino, nomeado por
decreto e empossado a 22, tudo de outubro daquele último ano.
Pelo impulso recebido na sua fase de preparação, entrara num período de florescência
como jamais tivera atingido, dando-nos as gerações de 1860, 1879 e 1884, às quais
pertencem os mais notáveis pintores que o Brasil tem tido.
Na sua direção, se fazia também sentir a ação valiosa de Tomás Gomes e Nicolau
Tolentino, secundados ambos pelo operoso e inteligente secretário João Maximiano Mafra,
cujos serviços foram inestimáveis.
Movimento declina
na Bahia
Na Bahia, o movimento artístico declinava, não tendo continuidade o que fora iniciado
por Franco Velasco. Criada a Sociedade de Belas Artes em 1854, nada adiantou ela aos
esforços dos primitivos mestres.
De 1860 em diante, porém, devido à iniciativa particular, surgiram as primeiras
tentativas de uma escola de Belas Artes, tendo o Dr. Antônio Alves da Silva, em 1864,
apresentado à Assembléia Legislativa Provincial um projeto de lei naquele sentido, não
tendo, porém, vingado a idéia nele contida.
Em todo o caso, a animação em torno das artes se acentuara, de modo que, no decênio de
1870 a 1880, não somente no Liceu de Artes e Ofícios o ensino superior adquire melhor
desenvolvimento, como, a 17 de dezembro de 1877, é, finalmente, inaugurada a Academia de
Belas Artes, devido, principalmente, aos esforços do artista Miguel Navarro Y Canysares,
secundado, nesta obra meritória, pelo Barão de Lucena, então presidente da Província,
pelo dr. Virgílio Clímaco, José Allioni, João Francisco Lopes Rodrigues e outros.
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