ÉPOCA DE DESENVOLVIMENTO
SEGUNDO PERÍODO: 1879-1884

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Conheça o contexto histórico desse período
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A exposição de 1879

     A exposição oficial de 1879 abre, ao desenvolvimento da arte, novo e fecundo período. Traduzira, esse certame, o mais notável [período] até então levado a efeito, o resultado natural da preparação do meio, que já se revelava em condições propícias, e no qual ficava assegurada à cultura artística a necessária continuidade no seu desenvolvimento.

     Aos esforços iniciais de Debret, Felix Emílio e Porto-Alegre; à dedicação de Maximiano Mafra; e às proveitosas administrações de Tomás Santos, Tolentino e Moreira Maia, se juntara a ação largamente fecunda de Vítor Meireles, Pedro Américo, Zeferino e Sousa Lobo. Junte-se-lhes a estes nomes o de D. Pedro 2º e ter-se-á o quadro dos maiores benfeitores da arte da pintura no Brasil.

     O êxito da exposição fora o que se devia esperar de um meio que já se apresentava convenientemente preparado e no qual, à assistência do Estado, se unia [de um lado] o interesse do público pelas produções das belas artes; [de outro] ao entusiasmo e amor próprio dos artistas, se aliava o gosto que acentuadamente principiava a desenvolver-se.

A mais notável das exposições

     «É esta, - afirma o diretor da Academia, - é esta a mais notável exposição de belas artes que temos tido. Notável não só pelo grande número de produções apresentadas, mas também pela importância e incontestável merecimento de muitas delas.»

     Por outro lado, escreve a comissão julgadora:

     "Tem receio de faltar à justiça que deve caracterizar sempre os juízos da Academia das Belas Artes, principalmente nesta ocasião em que esse juízo tem por fim distribuir as palmas da vitória e as coroas da glória que tão galhardamente foram disputadas num certame tão lisonjeiro para a arte brasileira, como aquele que acaba de ser ferido nas salas da Academia em dois meses de exibição pública, apreciado por toda a imprensa da capital do Império, e presenciado por perto de mil espectadores...

     "Pensa que seria esta a ocasião de solicitar, para os mais notáveis artistas, títulos de ordem superior às condecorações que já a munificência do Governo Imperial concedeu, por ocasião da exposição geral de 1872, a mais importante que, até então, se havia feito, mas que foi gloriosamente ofuscada por aquela que agora vai ser julgada.

     "Eis a conclusão desse parecer:

A Batalha dos Guararapes

    "A comissão distingue, pois, em primeiro lugar, os dignos senhores professores da Academia: Vítor Meireles de Lima, Dr. Pedro Américo de Figueiredo e Francisco Joaquim Bethencourt da Silva. Não necessita a comissão analisar longamente a obra capital do Sr. Comendador Vítor: o tribunal perante o qual ela fala já, por certo, a julgou há muito.

     "A Primeira Batalha de Guararapes é um quadro original de vasta dimensão, que mede uma superfície de 882  palmos quadrados [cerca de 200 metros quadrados], e que contém centenares de personagens, sendo as do primeiro plano de grandeza natural, e de uma forte proporção.

     "Inteira concepção do assunto, unidade de composição, correção do desenho, colorido brilhante e harmonioso, efeito completo de perspectiva, em que sobressai a verdade das tintas quentes do céu dos trópicos, figuras bem concebidas, bem proporcionadas, notando-se-lhes a exatidão das expressões fisionômicas, panejamentos escolhidos e executados com aquele gosto e aquele talento que distinguem as obras dos mestres

     "E, principalmente, a tranqüilidade geral da composição tão recomendada por todos os grandes mestres, e tão difícil de conseguir em quadros de batalhas, são qualidades principais desta obra principal. [É uma] obra que só será devidamente aquilatada quando, com o correr dos tempos, e os progressos da nossa sociedade, souber o nosso público conhecer onde, na arte, reside o verdadeiro merecimento.

A Batalha do Avaí

     "Sobre a Batalha do Avaí, do Dr. Pedro Américo de Figueiredo e Melo, quadro de igual dimensão e não menos trabalho que o precedente, a comissão julga-se dispensada de emitir opinião, visto que já tem sido, esta obra, muito discutida e analisada.

     "Ela tem sem dúvida elevado merecimento, pois, sem isso, não conseguiria o ilustre autor, como conseguiu, galvanizar o habitual indiferentismo do nosso público, e obter por ela, do Governo Imperial, uma recompensa pecuniária que honra a arte e os artistas. Este fato, pois, denotando um juízo já feito sobre o valor da obra, justifica a classificação que, do seu autor, faz a Comissão.

Ornamentação Arquitetônica

     "O Sr. Professor Bethencourt da Silva tem direito a muito elevado prêmio, pois que, à sua iniciativa e constante pertinácia, se deve o gosto pela ornamentação arquitetônica que, com evidente vantagem para os artistas, se vai, felizmente, difundindo nesta cidade em suas principais construções.

     "No salão de honra do Imperial Colégio D. Pedro 2º, construído sob os planos e imediata direção do Sr. Comendador Bitencourt, a riqueza e o bom gosto disputam a primazia.

     "Entre as diversas qualidades recomendáveis desse trabalho monumental, lembraremos a harmonia geral que existe nas variadíssimas decorações dos painéis do teto, a riqueza da tribuna da orquestra, o alçado elegante e gracioso do trono imperial, a acertada escolha dos mosaicos de variadas madeiras do pavimento e, principalmente, o vestíbulo da entrada principal onde se acha suspensa a majestosa escada elíptica; obra por demais ousada, e de que se tirou o artista com a maior fortuna.

     "Nos edifícios para as escolas públicas das freguesias da Glória e de Santa Rita, mostrou seu autor ser mestre na arquitetura doméstica, qualidade muito recomendável, e que nem todos os grandes arquitetos cultivam com vantagem.

     "Na frontaria da Igreja do S. Sacramento, enfim, o nome do Sr. Bethencourt perpetuou-se no granito e no mármore, elevando-se às nuvens nas grimpas [cristas] dos altíssimos campanários que a adornam, e que são as torres mais esbeltas que existem na cidade.

Distinções honoríficas

     "Para estes artistas, entende a Comissão que deve a Academia solicitar títulos honoríficos de grau mais elevado do que as distinções que o governo concedeu por ocasião da Exposição de 1872. Julga a Comissão que merecem distinções honoríficas como as que já, por vezes, tem o governo concedido aos senhores:

  1. Léon Dèsprés de Cluny, escultor, não só pelo seu plano em relevo da baía do Rio de Janeiro, obra que demanda grande estudo, e cuja utilidade é óbvia; mas, também, pelo seu grupo na fachada da Escola de Santa Rita, e pela estátua da Ciência, que orna o alto da escada do Externato Imperial Colégio de D. Pedro 2º.
  2. Pedro José Pinto Peres, pelo seu belíssimo quadro a óleo, representanto a Elevação da Cruz, em que ele mostrou-se digno discípulo do professor de pintura histórica da Academia.
  3. Gustavo James, pelas suas excelentes Marinhas.
  4. Francisco Caminhoá, pelos Retratos fotográficos inalteráveis sobre esmalte.

Medalhas de Ouro

     "Julga a Comissão que merecem a primeira medalha de ouro os seguintes artistas:

  1. O Sr. Wiegandt, pelas suas excelentes e belíssimas vistas e estudos a aquarela, trabalhos em cujo gênero não foram ainda expostos, na Academia, outros com tanta perfeição.
  2. O Sr. Júlio Balá, pelo seu Jesus Cristo no Sepulcro.
  3. O Sr. Joaquim José da Silva Guimarães Júnior, gravador de medalhas, pelos seus Projetos de Medalhas.
  4. O Sr. Antônio Araújo de Sousa Lobo, pelos seus diversos retratos a óleo.
  5. O Sr. Décio Rodrigues Vilares, pelo seu quadro representando São Jerônimo.

     "Merecem a segunda medalha de ouro:

  1. O Sr. Augusto Rodrigues Duarte, pelos seus diversos trabalhos apresentados, especialmente pelo de número 36.
  2. O Sr. Antônio Firmino Monteiro, pela paisagem histórica Exéquias de Camorim;
  3. O Sr. Francisco Villaça, pelas suas composições a óleo e a fusain [carvão], tão repassadas de poética melancolia.
  4. A Sra. Francisca Breves, pelo seu quadro a óleo, intitulado Cupido;
  5. O Sr. Adolfo Cirilo de Sousa Carneiro, pelo seu painel Deposição de Jesus Cristo.
  6. O Sr. Leôncio da Costa Vieira, pelo estudo de paisagem histórica, denominado Catequese.
  7. O Sr. Marcos Ferrez, pelas suas fotografias a carvão.

Medalhas de prata e menção honrosa

     "Merecem a medalha de prata:

  1. O Sr. Antônio Alves do Vale, pelos seus trabalhos a lápis;
  2. O Sr. Estêvão Roberto da Silva, pelos retratos a óleo.
  3. O Sr. Francisco da Cruz Antunes, pelos retratos e grupos a ponta de lápis.
  4. A Sra. Dona Cornélia Ferreira França, pelo seu bonito estudo de parasitas a aquarela.

     "Merecem menção honrosa:

  1. O Sr. Alexandre Biagini, pelo quadro a óleo Ló fugindo à destruição de Sodoma.
  2. A Sra. Dona Guilhermina Tollstadius, pelos seus estudos do natural;
  3. A Sra. Dona Júlia Labourdonnais Gonçalves Gonçalves Roque, pelos seus estudos a óleo.
  4. A Sra. Dona Emília Labourdonnais Gonçalves Roque, pelos seus estudos a óleo.
  5. A Sra. Dona Isabel Labourdonnais Gonçalves Pinho, pelos seus estudos a óleo.
  6. A Sra. Dona Raquel Hadock Lobo, pelos seus estudos a lápis.
  7. O Sr. Numa Haring, pelas suas paisagens a óleo.
  8. O Sr. Francisco d'Almeida Costa, pelas armas imperiais em mármore do Brasil.
  9. e 10. - Os Srs. A. J. de Faria Brito e Antônio de Castro Martins, pelas suas fotografias.

     "Desses artistas, julga a comissão que devem ser classificados na seção de Aplicações de Belas Artes, os Srs. José Ferreira Guimarães, Francisco de Almeida Costa, A. J. de Faria Brito e Antônio de Castro Martins. Academia das Belas Artes, 18 de julho de 1879. S. R. João Maximiano Mafra, Antônio de Pádua e Castro e João Zeferino da Costa.

Mudanças na premiação

     "Posto em discussão, falam sobre ele os Srs. Bethencourt, Mafra e Vítor, que declara não concorrer aos prêmios da Academia. O Sr. Conselheiro Vice-Diretor diz que a obra do Sr. Vítor é tão importante que não pôde deixar de ser contemplada no julgamento. O Sr. Bethencourt fundamenta e apresenta ao parecer da Comissão a seguinte emenda:

     "Proponho, como emenda ao ilustrado parecer da Comissão do julgamento da última exposição, as seguintes alterações: para distinção honorífica, o Sr. Wiegandt, em lugar da primeira medalha. Para o Sr. F. Caminhoá, a primeira medalha, em lugar de distinção. Para o Sr. Décio Rodrigues Vilares, a segunda medalha, em vez da primeira medalha. Para o Sr. Augusto Rodrigues Duarte, a primeira, em vez da segunda medalha. E mais, para os Srs. Augusto Off, uma medalha de prata; Luís Schreiner, uma medalha de prata. Rio de Janeiro, 18 de julho de 1879. F. J. Bethencourt da Silva.

     "A Comissão, por seu relator, declara aceitar integralmente a emenda do Sr. Bethencourt. Encerrada a discussão, o parecer e a emenda são aprovados unanimemente, por escrutínio secreto."

A maior de todas exposições

     Nessa exposição, foram exibidos trabalhos até hoje [1816] não excedidos, os quais continuam a ser obras primas da pintura nacional. A Batalha dos Guararapes, de Vítor Meireles, e A Batalha de Avaí, de Pedro Américo, são as manifestações mais brilhantes da nossa cultura artística.

     Foi nesse período que começou a vicejar a geração dos primeiros discípulos de Vítor Meireles, Zeferino, Sousa Lobo e Pedro Americo.

     Apenas precedidos de Augusto Duarte, Pedro Peres, J. Medeiros e Leopoldino de Faria, surgem os moços de então: Rodolfo Amoedo, Almeida Júnior, Décio Vilares, Henrique Bernardelli, Firmino Monteiro, Aurélio de Figueiredo, Leôncio Vieira, Estêvão Silva, Pagani, José Luís Teixeira, todos filhos da Academia, que, no presente período.

     [A Academia], além de Vítor, Zeferino, Lobo e Américo, teve mais os seguintes professores: Tolentino, diretor; Moreira Maia, Bethencourt da Silva, Pádua e Castro, Neves Leão, Chaves Pinheiro, J. Medeiros, Domingos Silva, Mafra (também secretário), Luís Carlos e Pertence.

     Aos nomes daqueles artistas, se reúnem, também pertencentes ao mesmo período, os de Berárd, Brocos, Grimm, Driendl, Horácio Hora, Off, Frate, Rouéde...

Mostras alternativas

     Por motivos diversos, ora por falta de dotação orçamentária, ora por falta de expositores, não se realizaram, até o final do período, outras exposições públicas, nem concursos para o prêmio de viagem.

     Efetuaram-se, porém, algumas [exposições] de iniciativa particular, de não pequeno interesse, entre as quais, merecem ser destacadas a que realizou (em 1882) a Sociedade Propagadora das Belas Artes, no Liceu de Artes e Ofícios; a de Almeida Júnior, numa das salas da Academia; e as de Arsênio Silva e Aurélio de Figueiredo, em 1883.

     Na do Liceu, além dos expositores de outras seções, figuraram na pintura, Arsênio Silva, Insley Pacheco, Ângelo Agostini, Sousa Lobo, Off, Duarte, Petit, Décio Vilares, J. Medeiros, Alves do Vale, Driendl e Jorge Grimm que, pela primeira vez se apresentava ao público com 128 trabalhos, que logo lhe asseguraram a reputação de bom paisagista. A de Almeida Júnior, teve completo sucesso e nela se revelou o artista admirável que realmente foi.

O movimento artístico na Bahia

     Fundada em 1877, na Bahia, a Academia de Belas Artes, o ensino se desenvolveu regularmente. E, no período estudado, «o que foi o ensino de desenho nessa instituição foi cabalmente demonstrado nas exposições anuais, em que foi posto à prova o aproveitamento dos alunos, traduzido por uma realidade palpável, comprovado, ainda hoje pelos atuais cultivadores das Belas Artes.»

     São aí os principais representantes desse período, os artistas Manuel Lopes Rodrigues e André Pereira da Silva.