Contexto Histórico
Paulo Victorino

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Termina a Guerra do Paraguai

     Com a morte do marechal Francisco Solano Lopez, em agosto de 1869, executado pelas tropas brasileiras sob o comando geral do Príncipe Gaston de Orléans (Conde D'Eu), termina a guerra contra o Paraguai, um pesadelo que durou quatro anos e que ceifou centenas de milhares de vidas, deixando atrás de si, como rastro, uma legião de desgraçados, mutilados de guerra, e um sem número de famílias desamparadas por terem, seus chefes, sucumbido nos campos de batalha.

     Nos círculos oficiais, pelos quais transitavam nossos grandes mestres da arte, o ambiente permnecia festivo, pois ainda não se haviam contabilizado os prejuízos humanos e financeiros  ocasionados pela grande catástrofe. Em 1872, Vitor Meirelles expõe A Batalha do Riachuelo e a Passagem de Humaitá, enquanto Pedro Américo, na mesma exposição, brilha com A Batalha de Campo Grande.

     Nos vários palácios onde se achavam os ministérios e repartições governamentais, outras obram registram a presença brasileira na guerra. Umas laudatórias, com "A estátua eqüestre de Sua Majestade, o Imperador na rendição de Uruguaiana", de Chaves Pinheiro; outras, registrando grandes momentos de luta, como a Tomada do Forte de Itapiru, de Sousa Lobo.

Momento de reavaliação

     Nas ruas, nos quartéis, nos órgãos de imprensa e nos centros de poder, assim como no Congresso Nacional, o entusiasmo do primeiro momento foi dando lugar a um processo de reavaliação que, passo a passo, ia pondo em foco as injustiças sociais e a iniquidade do sistema, questionando o próprio regime e seus governantes.

     Passados vários anos, ainda pesavam, e muito, na opinião pública os processos espúrios utilizados para arregimentar os "voluntários da Pátria", selecionados principalmente entre caboclos e negros, mas também entre jovens das cidades, arrancados de suas famílias ao arrepio da lei.

      Em São Paulo, por exemplo, o Presidente da Província, desembargador José Tavares Bastos, ao início da guerra, não conseguindo preencher sua cota de "voluntários", convidou a população para uma solenidade no quartel da Guarda Militar, que teve grande afluência. Com o páteo lotado, os portões foram fechados, determinando-se a saída de mulheres, velhos e crianças, e retendo-se os jovens em condições de prestar serviço de guerra.

    "O tratamento que receberam foi dos mais humilhantes" conta o romancista histórico Raimundo de Menezes. "Basta dizer que, durante dois dias, não receberam qualquer espécie de alimento. Houve um momento em que a tropa quis rebelar-se, sair para a rua e depor o Presidente. Não fosse a interferência da oficialidade, que a conteve, a coisa teria sido muito séria.

     "O Coronel-Comandante-Superior, que era o Dr. Inácio José de Araújo, conseguiu apaziguar os ânimos: mandou comprar, por ordem do Presidente Tavares Bastos, 'quatrocentas roscas de vinte réis cada uma', fazendo a distribuição aos guardas, que eram em número de quatrocentos, mais ou menos. Tal episódio teve a mais dolorosa repercussão. A má fama de Tavares Bastos ganhou mundo. Essa felonia, nunca a puderam esquecer os paulistanos."

Os custos da guerra para os civis

     Processos idênticos foram usados no restante do país, e não era para menos: Em cada batalha importante, perdia-se vários milhares de soldados, que precisavam ser imediatamente repostos, para que a guerra pudesse prosseguir.

     Os custos desse terrível confronto pesaram também sobre os cofres públicos que, esvaziados, provocaram medidas impopulares, com aumento de impostos e emissão desordenada de moeda, empobrecendo a população, diminuindo os lucros das oligarquias e gerando uma crise que atravessou décadas, vindo a solucionar-se somente no período republicano, sob a presidência de Campos Sales.

Os custos da guerra para os militares

     Para Governo, já não era mais tranqüila a situação no seio militar, sobretudo no Exército que, terminado o conflito, firmou sua indiscutível supremacia sobre a Marinha, tida até então como nossa mais importante arma.

     O preço pago pelos oficiais superiores por sua participação na guerra foi elevado. Era um tempo em que generais não podiam ficar ao abrigo de postos de observação, acompanhando as batalhas com binóculos e dando ordens de comando sem expor suas vidas. O movimento contínuo de tropas, e a falta de uma tecnologia de comunicações, obrigava-os a ficar ao lado de seus comandados, sofrendo todas as penúrias e riscos.

     Caxias que, com o desinteresse da Argentina e do Uruguai, tornou-se o comandante-em-chefe das tropas, não resistiu e, em 16 de abril de 1869, teve de entregar o comando ao Conde D'Eu, há um ano casado com a princesa real, a quem coube a glória da vitória final, meses depois.

     O grande comandante, que retirou-se com sua saúde irremediavelmente comprometida, não mais se recuperaria, vindo a falecer em 1880, já elevado a Duque, o único duque em nossa história imperial. Com ele, retirou-se da guerra, também, Joaquim José Inácio, o Visconde de Inhaúma, herói das batalhas de Curupaiti e Humaitá, que morreu logo ao chegar ao Rio de Janeiro.

     Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, para não citar outros tantos altos oficiais do Exército e da Marinha, também saíram da guerra com a saúde comprometida e, embora atuantes na vida militar, nunca mais puderam se recuperar.

A visão distorcida dos Gabinetes

     Pois foi a todos estes heróis dos campos de batalha que Gabinetes de visão distorcida aplicaram uma sanção moral inominável, ao utilizá-los em funções incompatíveis à sua atividade, como a caça de escravos foragidos ou ao trabalho de policiamento, estranho às forças do Exército.

     Por outro lado, nesta altura dos acontecimentos, os militares tinham maior consciência de sua força e tencionavam participar, de forma concreta e atuante, nas modificações políticas e sociais que começavam a se esboçar como aspiração da sociedade civil.

     O ambiente político estava tumultuado. Nos vinte anos que se sucederam à guerra, cairam 12 governos. Só nos cinco anos a que se refere este capítulo, o Gabinete foi dissolvido cinco vezes. E, a contrapor-se à autoridade do Imperador e à do Chefe do Gabinete Parlamentar, havia os republicanos, agindo abertamente e já se preparando para constituir-se em partido político dentro do Império.

     Era esse o contexto histórico em que se desenvolveu o período analisado neste capítulo de Laudelino Freire, abrangendo um curto espaço de cinco anos, de 1879 a 1884. O país perdera sua inocência. Nossos pintores, ligados à Academia, ainda viviam do apoio governamental, mas sua pinceis não tinham mais o fervor épico traduzido nas obras do período anterior, aproximando-se agora mais da sociedade, que vivia um momento de reavaliação, seguindo um processo que, anos mais tarde, mudaria completamente os rumos da Nação.