ÉPOCA DE DESENVOLVIMENTO
QUARTO PERÍODO: 1889-1916

.


Conheça o contexto histórico desse período
.


A chegada da República

     Implantado o regime republicano no país, nenhum ramo da pública administração, no prurido das reformas radicais a que se entregaram os estadistas democráticos deixou de ser amoldado à nova ordem de coisas. Nem sempre, porém, bem inspiradas foram as modificações introduzidas no que houvera legado o regime extinto.

     A república encontrara as belas artes em estado de franco desenvolvimento. Na última fase do segundo império, as exposições realizadas pela Academia, como as de 1872, 1879 e 1884, foram verdadeiros certames artísticos, nos quais entram em disputa não só obras de subido valor, senão também opositores da ordem de Vítor Meireles, Pedro Américo, Zeferino da Costa, Almeida Júnior e Rodolfo Amoedo.

     Surge não pequeno número de bons pintores, formados com os nossos próprios recursos e, de modo notável, expande-se a movimentação em torno das artes, de sorte a atrair a presença de artistas estrangeiros, alguns de reputação firmada, os quais, encontrando a indispensável emulação, aqui se domiciliaram, como sucedeu com Fernando Krumholtz, Le Chevrel, Vinet, Facchinet, Borgomainerio, De Martino, Perret, Bordalo Pinheiro, Wiegandt, Grimm, Driendl, Langerok, Coppens...

Faltou o entusiasmo das massas

     Se mais acentuado não fora esse movimento, é que, às belas artes, faltou a primeira e fundamental condição, que é, antes de tudo, que o povo as possa sentir e amar com entusiasmo. Onde quer que eles tivessem atingido o mais alto grau de desenvolvimento e se revestido de intenso brilho, como na Grécia, era porque ali, profundo fanatismo lhes tributava o povo.

     As glórias de Maratona e Salamina não se sobrepunham às obras primas dos grandes cultores. O ateniense tanto estimava as glórias marciais, quanto adorava as maravilhas do Panteão, a Minerva Colossal, o Apolo Pitio e o Zeus Olímpico.

     Na Itália, tinha apenas o grande Cimabue concluído os últimos toques da sua Madona e o povo aflui, em multidão, à oficina do artista e, com as aclamações delirantes, conduz em pálio, pelas ruas de Florença, o painel do mestre. Não era outra a maneira por que se levavam em triunfo, pelas ruas de Roma, os grandes cabos de guerra, que lhe aumentavam o poder sobre o mundo.

     No Brasil, há faltado ao povo esse sentimento íntimo, esse entusiasmo e amor pelas manifestações do belo. Mas, se ao povo brasileiro, através do seu desenvolvimento quatro vezes secular, ainda não atingiu o estado de criar em si mesmo o culto de admiração pelas artes, um homem houve que, pelo seu radicado e esclarecido amor por elas, supriu em parte essa falta, sabendo imprimir ao progresso artístico, impulso eficassíssimo.

D. Pedro, o grande cultor das artes

     O que de amor, carinho e entusiasmo estético faltou ao povo, sobrou, em confortante demasia, na pessoa de quem, nessa época, lhe encaminhava os destinos. Desde que subiu ao trono, até o dia em que lhe arrancaram o cetro, empenhou-se Pedro 2º pelo adiantamento das artes, constituindo-se o seu melhor amigo. Seria injusto o lhe não declinar o nome como um dos mais eficientes fatores do desenvolvimento a que chegou a pintura no Brasil.

     Fortalecer, argumentar, senão manter esse desenvolvimento progressivo do tempo do império, foi o que não logrou a quem, na república coube tomar a direção da movimentação artística no país, no alto posto de diretor da Academia Imperial, agora em suas mãos, denominada Escola Nacional de Belas Artes.

Arte: artigo supérfluo na República

     A continuidade dos profícuos esforços empenhados pelos demais diretores não fora mantida e sofrera solução que logo, de modo sensível, começou a refletir-se no ensino, para mais tarde traduzir-se na diminuição do valor do trabalho artístico e no estado de franca decadência em que, presentemente [1916], se acha o nosso meio, cujas condições de hostilidade não permitirão a formação e existência de artistas.

     "O ensino das belas artes está inteiramente descurado em nosso país - escreve o Sr. Carlos de Laet em O País de 5 de maio de 1915. Absolutamente, não lhe tem sido propício o regime político implantado em 1889. Comparado com o que era sob a monarquia, o movimento artístico, em ver de ser progressivo como não pouco se esperava, antes há sido de lamentável regresso. Sentia-se, então, que a arte era um caminho, um largo e desempeçado caminho, para a fortuna e para a glória.

     "Que dizer dos tempos de agora? Onde o incentivo que a imaginação dos moços artistas fale e os anime para o trabalho? Tudo quanto se esperava dos novos processos, da nova orientação, dos novos horizontes, em 1889 naufragou miseravelmente.

     "Sob a monarquia, apareceram artistas de reputação mundial. A Academia, no seu pequeno palácio, efetuava exposições concorridíssimas. D. Pedro 1º freqüentou-a, aprendendo, e seu ilustre filho, com especial carinho, se desvelava pela arte. As galerias, sempre abertas, constituíam uma perene lição ao povo, que nunca as deixava desertas.

     "Compulsem-se as crônicas, os folhetins, os noticiários dessa quadra e de tudo se ressaltará evidente, incontrastável, impressionante, a prova de uma atividade, comparada com a qual, duplamente triste, se afigura o desânimo atual."

O pomo da discórdia

     Em 1890, assumiu Rodolfo Bernardelli, a direção da Academia. Delicada era a sua situação. Dirigir o ensino em qualquer dos seus ramos é tarefa de que só se podem sair bem os mais versados mestres, os que tem saber pedagógico e luzes indispensáveis.

IRMÃOS BERNARDELLI:

RODOLFO (Guadalajara, México, 1852 - Rio de Janeiro, 1931), escultor brasileiro, estudou na Academia Imperial de Belas-Artes e ganhou prêmio de viagem à Europa (1876). Diretor da Escola Nacional (1890-1915). Autor do monumento ao descobrimento do Brasil, da fachada da Biblioteca Nacional e numerosas obras. —

HENRIQUE (Valparaíso, Chile, 1858 - Rio de Janeiro, 1936). Estudou na Academia e aperfeiçoou-se em Roma. Ensinou na Escola Nacional de Belas-Artes (1890-1907). Juntamente com seu irmão exerceu notável influência. Obras no Museu Nacional de Belas-Artes, no Teatro Municipal (RJ), Biblioteca Nacional etc. (Fonte: Enciclopédia Koogan-Houaiss)

     Faltavam-lhe, em que pese ao seu merecimento de artista, as condições especiais necessariamente reclamadas pelo posto a que se propusera. Ante o sentimento nacionalista, a sua nomeação fora considerada funda preterição aos artistas filhos do país e, para logo, inquinada a sua gestão da ausência de propósitos patrióticos e do sentimento de amor às coisas pátrias.

     Ainda assim, o ilustre estatuário logrou dirigir o estabelecimento durante quase vinte e cinco anos. Qual, porém, foi o seu perfil de administrador e o que foi a sua administração?

Batista da Costa contesta o diretor

     Respondam-nos os que, com direto conhecimento dos fatos, maior autoridade tenham para o fazer. O Sr. Batista da Costa, professor e atual diretor da Escola, assim se pronunciou:

     "Sempre a achei desastrada. Recebeu o professor Bernardelli a antiga Academia de Belas Artes perfeitamente organizada, com as suas galerias em perfeita ordem e bom estado de conservação e sempre abertas ao público, e hoje elas se encontram sempre fechadas, em péssimo estado de conservação. Entretanto, com plenos poderes para reformá-la, fez um regulamento a seu jeito e, mais tarde, quando terminou o seu prazo de diretor, fez nova reforma, também a seu jeito, fazendo com que o cargo de diretor fosse de nomeação do governo.

     "Com a reforma do ensino realizada pelo Dr. Rivadávia Correia, arranjou, manhosamente, que a direção fosse de quatro anos (naturalmente, ficando como é, já contava, nessa época, com a reforma que se anuncia agora), em desacordo com as outras escolas, cujo mandato é de dois anos, fazendo um regulamento que veio anarquizar todo o ensino da Escola, ao ponto de ter esta ficado quase sem alunos.

RIVADÁVIA DA CUNHA CORREIA, político brasileiro (Santana do Livramento, RS, 1866 - Petrópolis, RJ, 1920). Membro ativo do Clube Republicano Vinte de Setembro, redigiu junto com Raul Pompéia o periódico abolicionista A onda. Deputado várias vezes, foi posteriormente ministro da Justiça e da Fazenda, no governo Hermes da Fonseca, e prefeito do Distrito Federal, no governo Venceslau Brás. Chegou ao Senado (1916), em substituição a Pinheiro Machado, que fora assassinado. (Fonte: Enciclopédia Koogan-Houaiss).

     "Quem transformou a Escola de Belas-Artes em feira foi ele próprio, escancarando bem as portas da Escola aos vendilhões estrangeiros que aqui aportam para nos impingir a sua discutível mercadoria. E não contente em lhes conceder todas as facilidades, esbanjou por muito tempo a verba de 30 mil contos - que o governo lhe punha em mãos com o fim patriótico de desenvolver as Belas-Artes no país - adquirindo, por quantias exageradas, obras nem sempre dignas, quando o bom senso mandava que, nesses casos, fosse nomeada uma comissão de artistas para dar o parecer sobre a aquisição proposta. Mas o Sr. Bernardelli não gosta de ouvir os artistas.

     "Há mais. Quando teve ao seu dispor a verba de 200 mil contos para aquisição de obras de arte, dados pelo ministro Dr. Joaquim Murtinho, não comprou uma só obra de artista brasileiro. Empregou toda essa avultada verba na aquisição de obras estrangeiras e na compra de móveis velhos, dos quais os poucos que restam acham-se imprestáveis, carcomidos pelo cupim, pela sua absoluta falta de conservação.

JOAQUIM DUARTE MURTINHO, político e médico brasileiro (Cuiabá, MT, 1848 - Rio de Janeiro, 1911). Ministro da Fazenda no governo Campos Sales, teve sua política deflacionista severamente criticada. Adepto da homeopatia. (Fonte: Enciclopédia Koogan-Houaiss).

     "Foi diante desses esbanjamentos que, em sessão do conselho superior de Belas Artes, presidida pelo Dr. Rivadávia Correia, propus destacar-se da verba de trinta contos, dois-terços para aquisição de obras de arte de artistas nacionais nas exposições gerais de belas-artes, tendo merecido aprovação unânime do conselho, sem ter o Sr. Bernardelli se manifestado contra.

     "Creio que pouco tempo depois, por trás da cortina, como é de seu costume, mandou dar informações falsas aos membros da comissão de Finanças da Câmara dos Deputados, a ponto de dizer-se que a verba era dividida por uma comandita, que se revezava de ano a ano.

     "Digo que mandou porque, como diretor e vice-presidente do Conselho Superior de Belas-Artes, que acabava de ser desconsiderado com tão grave acusação, não me consta que tivesse dado qualquer passo em defesa, quer do Conselho, quer dos artistas visados por tão negra infâmia. A única voz que se ouviu nesse dia, em defesa dos artistas, na Câmara, foi a do Dr. Homero Batista."

Cresce a oposição a Bernardelli

     Outro personagem de destaque, também professor da Escola, o ilustrado Sr. Cincinato Lopes, assim se exprimiu (em entrevista):

     "...Resposta: «O Sr. Bernardelli habituou-se a ser diretor daquela casa há um quarto de século, e a possibilidade de não sê-lo um dia decepciona-o e irrita-o certamente. Pela é que o estudo de Belas-Artes preocupe muito pouco a atenção dos homens de Estado e mesmo a opinião pública do nosso país. Daí, principalmente, este prestígio constante junto aos ministros do nosso atual diretor. Por processos nem sempre razoáveis tem este senhor se mantido no cargo que ocupa há 25 anos, governando a seu talante aquele instituto de ensino, como se um feudo fosse para ele exclusivamente criado.»

     "Entrevistador: «Então, para o senhor, o professor Bernardelli tem sido e será sempre um mau diretor da Escola?» Resposta «Sim. Tem sido e será sempre, principalmente por ser um artista. A minha opinião pessoal sobre esse cargo da Escola é que não convém seja ele exercido por um artista. Os artistas precisam de dias de luz para trabalhar nos seus ateliês, carecem de tempo para conseguirem encomendas dos Estados e da União e atenderem os amigos, prepararem esboços, croquis e desenhos, necessitando de horas para lições aos seus discípulos particulares, etc. Que lhes pode sobrar de tempo, ainda, para dedicá-lo à administração da Escola?» Entrevistador: «Estas reflexões parecem convencer.»"

O ministro não gostou nada

     O Jornal do Comércio escreveu, na sua edição de 30 de maio de 1915 [pouco tempo antes da exoneração do Diretor da Academia]:

     "O Sr. Ministro entrou a examinar todas as salas da Escola. Sua Exa. teve ocasião de ver o mau estado de conservação em que se encontram e as reformas que requerem com urgência, as quais Sua Exa. vai mandar proceder. O Sr. Ministro teve também ensejo de ver o abandono em que se acham muitos dos objetos de arte que deveriam figurar na pinacoteca da Escola e que, no entretanto, se encontram utilizadas em lugares impróprios. A impressão recebida pelo Sr. Carlos Maximiliano da sua visita à Escola de Belas-Artes foi muito má, não tendo Sua Exa. ocultado o desgosto que tivera ao presenciar o estado em que se encontra aquele estabelecimento.

CARLOS MAXIMILIANO foi deputado federal em duas legislaturas, deputado constituinte em 1934 e Procurador Geral da República. Em 1915, quando da publicação da notícia acima, era ele Ministro da Justiça e Negócios Interiores do presidente Venceslau Brás. É nessa condição que visitou a Escola, ocasionando a exoneração de Bernardelli, que foi substituído por Batista da Costa. Meses depois, em 1º de janeiro de 1916, viria a assinar o Código Civil Brasileiro, em vigor até hoje (Nota de Paulo Victorino).

     Rodolfo Bernardelli jamais procurou defender-se. Até que ponto, porém, podem ser tidas como verdadeiras e justas as acusações que lhe foram articuladas ?

     Na eficiência dos resultados da sua longa gestão, traduzindo-se, por um lado, na decadência em que se acha o meio artístico, cuja direção lhe fora confiada por um quarto de século; por outro lado, no estado daquela anarquia a que chegara, em suas mãos a Escola, transformada em feita, com as portas bem escancaradas aos vendilhões estrangeiros, no dizer do professor Batista [da Costa], estão as provas assaz eloqüentes de ser realmente indefensável a sua administração.

Reformando em causa própria

     Dos testemunhos acima exarados, conclui-se, ainda, que, nas reorganizações por que passara aquele estabelecimento, em 1890, 1901 e em 1911, Bernardelli só teve em mira armar-se de amplas atribuições e poderes discricionários, no propósito menos dissimulado que ostensivo de conservar-se no cargo.

     Tais reformas não foram obra de convicção, inspirada na serenidade dos princípios. Antes, o foram de conservação, amoldada na tranquibérnia [trapaça] de interesses, e nas quais ficara o ensino sacrificado a ilusórias aparências.

     Os tremendos libelos compelem-nos ainda à conclusão de que, a seu alvedrio [arbítrio] de estrangeiro atilado, em meio viciado de simplicidade, fácil lhe fora fazer daquelas reformas outros tantos meios de fortalecer a sua autoridade.

     Não é, entretanto, na passividade do meio, porventura apático e fácil de ser explorado, que se deve ver a causa dos males oriundos da combatida administração. Ao invés de ser ele a causa eficiente da desastrosa gestão, antes o fora bastante prejudicado.

Um corpo diretivo paralisado

     A reação eficaz que, naturalmente se deveria ter feito sentir contra ação tão maléfica, autoritária e absorvente, era a que lhe poderia e deveria ser oposta pelos professores, a cuja competência e probidade profissional confiara a nação a defesa e guarda dos interesses do ensino.

     No entanto, o que, nesse sentido, fez a Congregação? O que precisamente fora necessário para se ter mantido intangível, por quase um quarto de século, uma administração arbitrária.

     Inconcebível é o arbítrio com o espírito de autonomia. Privada, pois, uma congregação, desse elemento que lhe é essencial, privada estará da sua força, como entidade conveniente ao desenvolvimento do ensino.

     Bernardelli sempre tivera especial cuidado na composição do corpo docente, de forma a neste dispor do apoio de uma maioria incondicional aos seus propósitos. Batia-se vivamente pela temporalidade das funções docentes, enquanto que não prescindia de reconhecer a necessidade da própria permanência.

Governo corta as asas do diretor

     Nessa colisão de interesses, bem era de ver o sentimento latente de uma desinteligência que se veio a concretizar, após a promulgação da lei Rivadávia, na acintosa eleição do professor Batista [da Costa] para seu substituto.

     À frente dessa dissidência, estiveram os professores Cincinato Lopes, Carlos Cianconi, Gastão Baiano, Visconti e Batista da Costa.

     Ainda por impulso anterior de seu prestígio, conseguiu Bernardelli que o governo não homologasse essa escolha. Ao invés, porém, de procurar resolver esse conflito com ceder um pouco de sua força, perdeu a calma e, no atordoamento de quem já se sente atraído pela vertigem da queda, elaborou novo regulamento para a Escola, em bases tal sorte absurdas e draconianas que o Governo lhe retirou por completo o apoio, desferindo-lhe fundo golpe com o confiar à própria congregação a incumbência de organizar outra reforma para o estabelecimento.

     Desde então, sem o apoio oficial, não seria mais possível a sua continuação e, de súbito, se abatera o seu até então incontrolável prestígio.

Uma guinada de 180 graus

     Por outro lado, o espírito de independência dos professores erigiu-se inexorável. O desfecho era previsto: Rodolfo Bernardelli despegou-se do cargo, caiu e desapareceu na vala comum dos sem assistência.

     A congregação libertou-se, adquiriu consciência de si mesma e realizou o que aspirava fazer: uma reforma na qual, antes de tudo, tornasse geral o princípio de vitaliciedade para os docentes e avocasse certas atribuições até então privativas do diretor. E isso o fez com tal radicalismo que hoje [1916], ali, a autoridade do diretor é apenas um reflexo da vontade dos professores.

     Ao cabo, pois, de vinte e cinco anos, foi Bernardelli compelido a uma renúncia forçada, o que significou a licença que solicitara em março de 1814. Concluída esta, foi definitivamente substituído pelo Sr. João Batista da Costa, nomeado diretor efetivo em outubro de 1915.

Batista da Costa empossado diretor

     O ilustre professor Araújo Viana, como o representante da Congregação no ato da posse do novo diretor, relembrou, em frases enérgicas, os efeitos desastrosos da administração que findara. Disse o erudito professor:

     "Tornavam-se imprescindíveis urgentes providências de remodelação para a nossa Escola. Conviria que voltassem, modernizadas e adaptadas à época contemporânea, como voltaram,, algumas disposições análogas, semelhantes, que lembrassem, quanto ao funcionamento do magistério, as da antiga Imperial Academia das Belas Artes, onde se formaram grandes artistas, de que o Brasil deverá sempre se orgulhar.

     "Notava-se pertinaz tendência de se tirar do magistério da escola a estabilidade necessária, e revogar a sua independente situação, querendo-se até medir e pesar o trabalho de produção dos catedráticos, por meio de uma propaganda de surpresas, de modo que receávamos que, a cada momento, reduzissem este instituto de instrução superior e especial a um mero grupamento de ateliês, sem prévio ensino de letras e ciências, indispensável aos artistas, ficando, o aluno que concluísse o curso de arquitetura, não um engenheiro arquiteto, como de fato o deve ser, mas sim um trivial desenhador de fachadas decorativas; e o pintor, escultor e gravador, convertidos em simples artífices ou oficiais de ofício.

     "Não seria permitido que tal acontecesse. O governo, em boa hora, impediu a queda e o aniquilamento desta escola, reformando seu regulamento, promulgando novos estatutos que garantiram o magistério, que se achava subalternizado, melhoraram a distribuição pedagógica, e deram à congregação poderes de independência didática, do que provirão normas e medidas úteis ao ensino das belas-artes."

A mediocridade chegou às artes

     O movimento artístico começa, neste período, com a exposição oficial de 1890, inaugurada a 26 de março. O que ela representou, di-lo a comissão que a julgou:

     "«Nas obras expostas, ascendendo a perto de 300 trabalhos, avultam as de medíocre merecimento. Na seção de pintura, elas constam, principalmente, de estudos e de quadros de gênero, ou de paisagens e seus congêneres, em sua maior parte de pequenas dimensões.

    "«A pintura histórica quase não foi apresentada. E o gênero "Retrato", sempre muito abundante nas exposições gerais, na atual, além de escasso, não apresenta nenhuma obra de superior merecimento. Este ramo de pintura, de que mais proveito tiravam outrora os nossos artistas, vai desaparecendo, à proporção dos progressos que faz a fotografia.

     "«Das 209 diversas produções de pintura descritas no catálogo da Exposição, cerca de 69, das quais pertencem 49 ao laborioso sr. Henrique Bernardelli [irmão de Rodolfo Bernardelli], feitas durante sua residência de mais de dez anos na Itália, são trabalhos executados fora do país.

     "«A maior parte das produções catalogadas na seção de Escultura acham-se no mesmo caso e, metade delas, são simplesmente produtos de fundição. Não compreendemos aqui os trabalhos do distinto professor da aula de Estatuária, nem os do aluno dele, feitos na Academia durante o ano escolar.

     "«Na Arquitetura, sete expositores apresentaram diversos trabalhos: desenhos regularmente executados, nenhum dos quais, porém, tem o cunho de notável talento.

Premiação sem títulos de nobreza

     "«Tendo sido, pelo Governo, suprimidas as ordens honoríficas com que outrora eram premiados os mais distintos expositores, pensa a comissão que os prêmios que a Academia pode atualmente outorgar, são de quatro categorias:

     1º) Medalha de Ouro; 2º) Medalha de Ouro, Medalha de Prata e Menção Honrosa.

     "«Por este motivo, não tem a Academia prêmio algum para oferecer àqueles artistas já contemplados, por proposta dela, com distinções honoríficas. Neste caso se acham, entre os atuais expositores, os Srs. [José Maria de] Medeiros, [Pedro José Pinto] Peres e Ferraz de Almeida [José Ferraz de Almeida Júnior], conquanto, no juízo desta comissão, o quadro deste último, Caipiras Negaceando, seja um dos mais belos, senão o mais valioso da atual exposição, principalmente considerando-se de que seu talentoso autor o produziu em São Paulo, onde o elemento artístico não está mais provido de recursos do que nesta Capital.

     "«Na indicação dos artistas que a comissão julga merecedora da recompensa, não se compreende o Sr. Professor Rodolfo Bernardelli, nem o Sr. Nicolau Facchinetti, que declararam não concorrer aos prêmios e cujos trabalhos não foram, por isso, submetidos ao juízo desta comissão.

Premiado nem sempre é o melhor

     "«Como regra geral, segundo o uso adotado na Academia nestes julgamentos, não indica a comissão, para distinto expositor, prêmio inferior aos que já tenha ele obtido em precedentes exposições, e nem será repetido o mesmo prêmio àqueles que, em seus atuais trabalhos, não houveram manifestado progresso sobre os anteriormente premiados.

     "«Assim, por exemplo, para o Sr. [João Batista Felicce] Castagnetto, cujos trabalhos são, sem dúvida, muito superiores à paisagem do Sr. [Benno] Treidler, não é indicado prêmio algum, entretanto, para este último é indicada a medalha de prata. Isto porque, no juízo desta comissão, os trabalhos atualmente expostos pelo Sr. Castagnetto não são superiores aos que apresentou na Exposição Geral de 1884, em que foi premiado com a 1ª Medalha de Ouro.

     "«Passando, pois, a indicar os artistas que devem ser premiados, a comissão principia pela Pintura, inclusive guaches, pastéis, aquarelas e desenhos a lápis, a esfuminho, a pena ou litografados, e coloca, em primeiro lugar e único, o Sr. Henrique Bernardelli, para quem propõe a 1ª medalha de ouro.

     "«Em segundo lugar, os Srs. [Antônio] Parreiras, [Hipólito Boaventura] Caron, Alves do Vale [Antônio Alves Vale de Sousa Pinto], [João Batista] Pagani, Estêvão Silva e Madame Cuchilon, para cada um dos quais propõe a 2ª medalha de ouro.

     "«Em terceiro lugar, o Sr. [Benno] Treidler, que julga merecer uma medalha de prata; e em quarto lugar, finalmente, os Srs. [Eliseu] Visconti, João Batista da Costa, França Júnior, Rafael Frederico e Brás de Vasconcelos, para os quais propõe a menção honrosa. Não pode ela, porém, indicar-lhes prêmio algum, por serem muito inferiores, quer no desenho, quer no colorido, quer na maneira de fazer, aos que executou na Europa durante o tempo de sua pensão.

Exposição pobre e decepcionante

     "«Terminando, a comissão pensa que a atual exposição, produzida depois de um intervalo de mais de cinco anos, e crescendo anualmente o número de nossos artistas, deveria ser menos pobre e mais abundante. Ela não oferece o interesse que apresentaram as duas últimas exposições gerais de 1879 e 1884.

     "«A pouca concorrência do público a visitá-la prova essa asserção. Em 1879, em que a entrada no palácio da Exposição era gratuita, o número de visitantes elevou-se a perto dos 300 mil. Em 1884, sendo a entrada paga pelo dobro do preço atual, o número dos visitantes nos primeiros 30 dias subiu a 10.347e, agora, em igual período, apenas chegou a 4.300 indivíduos..

     "«Certamente, esta falta de favor público é desanimadora para os artistas. Cumpre, pois, à diretoria da Academia, no entender desta comissão, solicitar do Governo sua proteção em favor dos artistas, na compra de algum dos trabalhos expostos, de modo a contentar, se possível, todos os expositores domiciliados no país, com a aquisição de uma de suas obras, pelo menos, para as coleções da Academia. Academia de Belas-Artes, 28 de abril de 1890. Assinado pelos professores Vítor Meireles de Lima, Dr. Domingos de Araújo e Silva, João Maximiano Mafra.»

A "Questão Amoedo"

     "Posto em discussão o parecer, o Sr. Professor Dr. Rosendo Moniz declara concordar com ele em parte, e em parte não concordar. Não concorda, por exemplo com o que se julga dos trabalhos do professor [Rodolfo] Amoedo, e menos ainda com o tom demasiado severo em que se formulara, no parecer, esse julgamento. Em geral, pensa que os professores da Academia não deviam se oferecer em julgamento aos seus colegas, arriscando-se à desagradável conseqüência de um parecer menos favorável, como no caso presente.

     "Desde, porém, que isto acontece, propõe aos ilustres membros da comissão julgadora a eliminação do tópico do parecer que sobrecarrega o seu sentido no que se refere ao Sr. Professor Amoedo. Propõe-no, em homenagem ao magistério e ao nome de um discípulo laureado da Academia.

     "O Sr. Comendador Vítor Meireles diz que não há ofensa no parecer. Não há, portanto, que modificá-lo. O Sr. Professor Rodolfo Bernardelli concorda com seu colega preopinante: o parecer representa um conceito meditado que deve ficar.

     "O Sr. Amoedo [alvo do parecer] pensa igualmente, não aceitando, de maneira alguma, como injúria, a opinião contrária a ele, de mestres que o foram seus. O Sr. Dr. Rosendo insiste na sua proposta. O Sr. Professor comendador Bernardelli insiste na sua contestação. O Sr. Comendador Vítor diz que o parecer em nada prejudica ao Sr. Professor Amoedo, que pode ainda produzir muitas obras melhores.

Outros reparos ao Parecer

     "Prosseguindo na discussão do parecer, o Sr. professor Dr. Rosendo Moniz observa que foram esquecidos artistas de merecimento. Não deviam passar despercebidos da comissão trabalhos dignos de nota, como os retratos do Dr. Cardoso de Menezes, pelo Sr. Augusto Petit, e do Conselheiro Ferreira Viana, pelo Sr. [Tomás Jorge] Driendl.

     "No que diz respeito às condecorações, o parecer não tem razão. O parecer declara que elas não existem mais para prêmio. Existem a Ordem do Cruzeiro e a Condecoração Militar. Demais, não custaria pedir ao Governo qualquer demonstração de especial apreço. Em conseqüência deste pedido, talvez até se instituísse para as artes uma medalha de mérito, como há medalhas humanitárias.

     "O Sr. professor comendador [João Maximiano] Mafra diz que deixou de existir a Ordem da Rosa, com que o Governo costumava condecorar. O outro Governo, diz o Sr. professor Dr. Rosendo, e resumindo suas observações propõe: (frase truncada no livro de Laudelino Freire).

  • Que seja suprimido o tópico que prendeu sua atenção, relativo ao Sr. professor Amoedo e, caso tenha a comissão julgadora tido intenção de distinguir, extraordinariamente, algum dos expositores, peça ao Governo que conceda ao mérito a distinção que resolver no seu elevado critério.

Assinatura apócrifa no
trabalho de Delvecchio

     "O Sr. comendador Vítor declara que, no pensamento da comissão, nenhum dos expositores mereceu essa distinção. Os Sr. Professor Dr. Cirne Maia diz, quanto ao ponto do parecer que se refere aos trabalhos de arquitetura do Sr. Dr. Delvecchio, que o ilustre expositor deve, sem dúvida, ser premiado, porque, conquanto os trabalhos expostos tragam a assinatura do desenhista do Sr. Dr. Delvecchio, nada mais são do que cópias a limpo de desenhos concebidos e executados pelo próprio Sr. Dr. Delvecchio.

     "O Sr. conselheiro diretor diz que tem a fazer a declaração de que o Sr. Dr. Delvecchio prometeu entregar à Academia, para comprovação, os originais que fez copiar pelo desenhista. A circunstância de haver assinatura alheia nos trabalhos julgados dignos de prêmio não deve privar de recebê-los seu legítimo autor.

     "Precisando retirar-se a trabalho de urgência o Sr. professor conselheiro Domingos de Araújo, o Sr. conselheiro diretor consulta o Corpo Acadêmico sobre o impedimento que pode criar, para os trabalhos da sessão, a ausência do professor. Verifica-se que ainda restaria número para os trabalhos.

Pior a emenda, que o soneto

     "O Sr. professor comendador Mafra declara, a respeito da proposta do Sr. professor Rosendo, que está pronto a retirar do parecer o tópico julgado excessivamente rigoroso para com o seu colega, o Sr. professor Amoedo. O Sr. professor comendador Vítor diz que, se os seus colegas de comissão entenderem que o tópico pode ser eliminado, não apresenta de sua parte a mínima dúvida.

     "O Sr. professor Bernardelli não aprova a resolução da comissão. Suprimindo o tópico da ata em que se deve lançar o parecer, acompanhado das notas do presente debate, muito mais desairoso do que realmente é, ficará parecendo a quem não puder conhecê-lo. [Foi o que acabou acontecendo. Conhece-se toda discussão em torno desse tópico, mas não se sabe quais as "referências desairosas" que constavam do tópico suprimido do parecer].

     "O Sr. conselheiro diretor, findo o debate, sujeita o parecer a votação, sendo este aprovado com a modificação aceita pela comissão e tal como acima se registra, resolvendo-se que seja, ao Sr. Delvecchio concedido o prêmio que aí, condicionalmente, se designa.

     "Pretendendo votar o Sr. professor comendador Bernardelli, o Sr. conselheiro diretor não o pode permitir e cita, para o impedimento, os artigos do regulamento das sessões constantes do Aviso de 16 de fevereiro de 1888.

     "Ampliando a ordem do dia, o Sr. conselheiro diretor satisfaz a consulta feita,em princípio da sessão, pelo Sr. professor comendador Henrique Bernardelli, que se havia referido ao encerramento da Exposição geral em 30 de abril, quando o Corpo Acadêmico tinha deliberado que se encerrasse em 15 de maio. Lê a minuta do ofício a respeito ao Governo, com a simples proposta de uma data, ao Governo, de cuja final consideração dependem todos os atos do Corpo Acadêmico.

     "Nada mais havendo a tratar, o Sr. conselheiro diretor encerra a sessão. Academia das Belas Artes, 30 de abril de 1890. Assinados, E. G. Moreira Maia, Vítor Meireles de Lima, José Maria de Medeiros, Cirne Maia e Domingos de Araújo e Silva.

Amplia-se a coleção da Academia

     Dos quadros que aí figuraram foram adquiridos para a Escola, mediante parecer de Vítor Meireles, Maximiano Mafra e Domingos Silva:

  • Três de Antônio Parreiras, inclusive o intitulado Turbino.
  • Dois de Eliseu Visconti.
  • Um de Estêvão Silva.
  • Oito de Henrique Bernardelli, em cujo número se achavam os Bandeirantes, Dicteríade e Meditação, tendo o primeiro custado ao Estado sete contos de réis.
  • Dois de [Hipólito Boaventura] Caron.
  • E Os caipiras negaceando, de Almeida Júnior, também pela quantia de 7 contos.

     À exposição de 1890, seguiu-se a de 1892, como preparatória da seção de belas-artes destinada à Exposição Universal de Chicago, na qual foram exibidos noventa trabalhos de pintura, seis de estatuária, três de arquitetura, onze de gravura e vine quadros com fotografias.

Viagens de estudo
por conta do governo

     Na reforma por que passou a Academia em 1890, foram suprimidas as condecorações com que, na monarquia, se galardoava o mérito artístico, substituídas, porém, por prêmios anuais de viagem à Europa, com pensão de dois anos para os artistas que, satisfazendo determinadas condições, mais se distinguissem nas exposições anuais. Para os alunos da Escola, fora mantido também o prêmio de viagem, mediante o concurso, com pensão de cinco anos.

     O último pensionista da Monarquia, foi o Sr. Oscar Pereira da Silva, no concurso de 1888. O primeiro pensionista da República foi Eliseu Visconti, no concurso de 1892, seguindo-se Rafael Frederico em 1893, Bento Barbosa em 1894, Fiuza Guimarães em 1895, Antônio Viana em 1896, Teodoro Braga em 1899, Julieta França em 1900, Lucílio de Albuquerque em 1906, Cunha e Melo em 1908, Raul Gama em 1910, Augusto Bracet em 1911, Magalhães Correia em 1912 e Dinorá Azevedo em 1913.

     Foram também pensionistas do Estado o aluno de arquitetura João Ludovico Maria Berna e o de pintura Manuel Lopes Rodrigues, aquele em virtude de decisão do ministro do Governo Provisório, Benjamin Constant, e este como pensionista do Imperador, que continuou no gozo da pensão, por lhe ter sido permitido pelo Governo republicano.

As exposições anuais de Belas-Artes

     Fora medida de grande acerto o instituir as exposições anuais de belas-artes. Constituem, com o prêmio de viagem nelas conferiu ao expositor mais distinto, um bom incentivo e são, porventura, a mais importante manifestação da nossa vida de arte. Inauguradas em 1894, ainda não sofreram interrupção [em 1916].

     A primeira delas, em 1894, ou ao primeiro Salão anual, aberto ao público a 1º de outubro, compareceram, na seção de pintura, 39 expositores, com 213 trabalhos, tocando o prêmio de viagem a João Batista da Costa, e tendo sido também premiados Sousa Pinto, Belmiro de Almeida, [Eliseu] Visconti e Oscar da Silva, com a 2ª medalha de ouro; Félix Bernardelli, Lopes Rodrigues, Diana Cid, [Francisco Garcia] Sant'Olalla, Pedro Alexandrino e [Benno] Treidler, com a 3ª medalha de ouro; Alves do Vale, Maria Sorneiro e Madruga Filho, com menção honrosa.

     No segundo Salão, em 1895, não foi conferido o prêmio de viagem, porém distribuídas: a 1ª medalha de ouro a Modesto Brocos; a 2ª medalha de ouro a Pedro Alexandrino; a 3ª medalha de ouro a Alves do Vale, Marques Guimarães. Berta Worms, Delfim da Câmara e Adolfo Malevolte; e menção honrosa a Alina Teixeira, Vitorina Varnier, Carlos de Lacerda e Alberto Delpino.

     No ano de 1896, ao qual se apresentaram 34 artistas, com 144 trabalhos, não foi concedido prêmio de viagem, nem outros quaisquer.

     No de 1897, também não houve distribuição de prêmios, tendo apenas comparecido 25 expositores, com 84 quadros.

     No de 1898, coube a viagem a Augusto Luís de Freitas. Foram ainda premiados Almeida Júnior, com a medalha de 1ª classe; Madruga Filho, Benedito Calixto, Romualdo Pratti, Augusto Petit, Benjamin Parlagreco e Insley Pacheco, com a medalha de 2ª classe; e Luís da Silva Ribeiro, Maria Sayão e Ana Catarina da Cunha Vasco, com menção honrosa.

     No de 1899, a que compareceram 39 pintores, com 175 quadros, os prêmios foram assim distribuídos: O de viagem a José Correia de Lima; a medalha de 2ª classe a Rafael Frederico; a 3ª a João Macedo, Teixeira da Rocha e Carlos de Servi; e menção honrosa a Nilo de Paula, D. Arruda e Joaquim Fernandes Machado.

     No de 1900, tocou o prêmio de viagem a João Macedo. Foram também premiados: Batista da Costa, com a medalha de 2ª classe; Eugênio Latour, com menção honrosa. Concorreram 44 artistas, com 191 trabalhos.

     No de 1901, em que figuraram 231 trabalhos, apresentados por 54 artistas, alcançou o prêmio de viagem Joaquim Fernandes Machado. Foram ainda premiados Eugênio Latour, Luís de Freitas e Gustavo Dalara, com a medalha de prata; Heitor Malaguti, Evêncio Nunes, Roberto Mendes, L. Fillipo, D. Meirelles e Sebastião Fernandes, com menção honrosa de 1º grau.

     No de 1902 foi dado o prêmio de viagem a Eugênio Latour. Eliseu Visconti, obteve a medalha de 1ª classe. Helios Seelinger e Marieta Meirelles, menção de 1º grau. Lucílio de Albuquerque, Minna Mee, Inês Sampaio e Maria Barbosa, menção de 2º grau. Apresentaram-se 52 artistas, com 270 trabalhos.

     No de 1903, figuraram 199 quadros, firmados por 50 artistas. Os prêmios conferidos foram: o de viagem a Hélios Seelinger; menção do 1º grau a Eduardo Bevilacqua; a menção de 2º grau a Monteiro da Franca, Rodolfo Chambeland, Carlos Cambeland e Clélia de Castro Nunes.

     No de 1904, foi conferido o prêmio de viagem a Aluizio Carlos de Almeida Sahlembrecher; a Batista da Costa, a medalha de ouro; medalha de prata a Rodolfo Chambeland; menção do 2º gru a Lucílio de Albuquerque, Eulália do Nascimento, Ana Vasco e Maria Vasco; e menção de segundo grau a Carlos Oswald, Jorge Mendonça, Nina Santero, Andrade Ribeiro, Angelina Figueiredo e Marieta Figueiredo. Apresentaram-se 50 expositores com 224 obras.

     No de 1905, houve 63 expositores, com 262 trabalhos. Prêmios conferidos: Medalha de prata a Eduardo Bevilacqua, Antônio Fernandes Gomes, Maria Vasco e Ana Vasco; menção do 1º grau a Carlos Chambeland; e do 2º grau a Pedro Bolate e Margarida Deau. O prêmio de viagem coube a Rodolfo Chambeland.

     Com 204 trabalhos e 72 expositores, abriu-se o Salão de 1906. Premiados: Eduardo Bevilacqua, com o de viagem; José Malhoa, com a medalha de 1ª classe; Carlos Oswald e Carlos Chambelland, com a de 2ª classe; Rosalvo Ribeiro, Francisco Manna, Artur Timóteo e Rodolfo Lindermann, com a menção de 1º grau; e Germano Neves, Sara Delvecchio, João Timóteo, Feitosa Filho, Teles Júnior, Raquel Boer, Regina Veiga e Araújo Froes, com a menção de 2º grau. Em virtude de ter Eduardo Bevilacqua desistido do prêmio de viagem, foi ele concedido a Artur Timóteo.

     O Salão de 1907 teve 236 obras, expostas por 85 artistas. Prêmios distribuídos: o de viagem, a Carlos Chambeland; medalha de prata a Luís Cristofe, Lucílio de Albuquerque, Artur Timóteo, Puga Garcia, Roberto Mendes, Modesto Brocos, [Milton] Dallara e Aurélio Zimmerman; menção do 1º grau a Georgina de Albuquerque, Regina Veiga, Alberto Delpino, Marques Campos, Raquel Boer, Irene Ribeiro, Carlos de Agostini, Alvim Menge, João Timóteo e Navarro da Costa; e menção do 2º grau a Beatriz Camargo, Gaspar Magalhães, Luiza Belart, Eugênia Silva, Isabel Hislop, Laura Meirelles, Mercedes Silva, Carlos Sussekind, Galdino Bicho e Virgínia Niemeyer.

     No Salão de 1908, o número de expositores não excedeu a 51 e foi de 195 o número de obras expostas. Prêmios distribuídos: medalha de ouro a Eugênio Latour e Fernandez Machado; medalha de prata a Alvim Menge; e menção de 1º grau a Gaspar Magalhães, Luíza Belart, Eugênia Silva, Isabel Hislop, Laura Meirelles, Mercedes Silva, Carlos Sussekind, Galdino Bicho e Virgínia Niemeyer. Prêmio de viagem a Joaquim Rodrigues Moreira Júnior.

     O de 1909 teve apenas 39 expositores, com 152 trabalhos. Artistas premiados: Giuseppe Brugo e Francisco Manna, com medalha de prata; Marieta Meirelles e Presciliano Silva, com menção do 1º grau; Carlota Laboriau e Raul Pederneiras, com menção do 2º grau. Prêmio de viagem a Adalberto de Matos.

     Com 137 quadros, expostos por 45 artistas, inaugurou-se o Salão de 1910. Prêmio de viagem a Francisco Manna, que o não aproveitou; menção gloriosa do 1º grau a Evêncio Nunes, Francisco Ferrarezi, José Monteiro de França, Joaquim Cunha e Dario Vilares Barbosa; menção do 2º grau a Argemiro Cunha, João Batista Bordon, Fabian de la Rosa e Helena Meira.

     Apenas 36 artistas, com 105 trabalhos, figuraram no Salão de 1911. O prêmio de viagem foi dado a [Gaspar] Puga Garcia, que também o não aproveitou; medalha de prata a Pons Arnau e Gaspar Magalhães; menção de 1º grau a Angelina Agostini, Argemiro Cunha, Arnaldo de Carvalho, Bordon, Sílvia Meier, Fédora Monteiro; e menção do 2º grau a Amélia Coutinho, Eurico Alves e Julieta Bicalho.

     A exposição de 1912, constou de 136 quadros, firmados por 49 artistas, tendo conquistado o prêmio de viagem Levino Franzeres. Grande medalha de prata a Artur Timóteo, Hélios Seelinger e Carlos De Servi; pequena medalha de prata a Guttmann Bicho, Bordon, Miguel Capplonch e Georgina de Albuquerque; a de bronze a Álvaro Teixeira, Pedro Bruno, Francisco Leão e Navarro da Costa; menção do 2º grau a Luís Cordeiro e Dakir Parreiras. Foi ainda distribuída a pequena medalha de ouro a Rodolho Chambelland, Lucílio e Pons Arnau.

     No Salão de 1913, foram exibidos 214 quadros por 61 artistas, cabendo o prêmio de viagem a Angelina Agostini; a pequena medalha de ouro a Carlos Oswald; a grande medalha de prata a Adelaide Gonçalves, Navarro da Costa, João Timóteo e Pedro Bruno; a medalha de bronze a Iracema Orosco Freire e Julieta Bicalho; menção do 1º grau a Dias Júnior, Maria Pardos  e Marques Júnior; e menção de 2º grau a Gastão Formenti.

     No de 1914, apresentaram-se 50 expositores, com 211 trabalhos. Prêmios conferidos: o de viagem, a Antonino de Mattos; pequena medalha de prata a Humberto Cavina; a de bronze a Angelu Cantu, Maria Pardos, Raquel Boher e Regina Veiga; menção de 1º grau a Otto Bungner, Cavalleiro, Nittisch, Watts Rodrigues, Heitor Malaguti, Hermelinda Repetto, Herminia Pereira e Jorge Sombre; menção do 2º grau a Adélia Saldanha, Anníbal Mattos, Bernardo Silva, Armando Baga, Modestino Canto, Francisco Andrade e Arlindo Bastos.

     No último salão [1915], finalmente, foram expostos 151 trabalhos, por 43 artistas. Prêmios conferidos: o de viagem, a Batista Bordon; grande medalha de prata a Umberto Cavina; pequena medalha de prata a Jorge Sombre, Dias Júnior, Cavalleiro, Sílvia Meyer e Maria Pardos; a de bronze, a Watts Rodrigues, Marques Júnior, Oto Bungner, Gonzale Pondal, Victor Dick e Hermínio Pereira; menção do 1º grau a Leopoldo Gotuzzo, Paula Fonseca, Modestino Canto e Arlindo Bastos; e menção de 2º grau a José Cordeiro, Morell Santelo e Francisco Santos. Pela primeira vez, depois de instituída, desde 1891, foi conferida pelo juri dos expositores a medalha de honra, conquistando-a o mestre da paisagem Batista da Costa.

     Era prefixada a data de 1º de setembro de cada ano para a abertura desses certames, que permaneciam franqueados ao público durante o mês, sendo, as mais das vezes, prorrogado. De 1914 em diante, passou a ser o mês de agosto o escolhido.

     Inúmeras exposições de caráter particular, não só de artistas nacionais como de estrangeiros, foram também levadas a efeito. Dentre as últimas, salientaram-se as de José Malhoa José Malhoa, em 1906; Sousa Pinto, em 1912; João Vaz, em 1913; e Antônio Carneiro, em 1914; todos artistas portugueses; a de Luís Graner, em 1913, e outras. O pintor José Pinelo tem feito, a partir de 1910, exposições anuais de trabalhos de artistas espanhóis. Organizado por um grupo de moços, o Centro Artístico Juventas tem, também, realizado exposições anuais

     Teve a Escola, desde 1889 até a presente data [1916], o concurso de inúmeros professores, entre os quais nos ocorrem os nomes de Moreira Maia, diretor interino, substituído pelo professor Rodolfo Bernardelli; Vítor Meireles, Pedro Américo, [João Maximiano] Mafra, Domingos Silva, J. Medeiros, Mota Maia, Neves Leão, Rosendo Muniz, [Rodolfo] Amoedo, Zeferino [João Zeferino da Costa], Peres [Pedro Pinto Peres], [Marie-François Daniel] Berard, Homem de Melo, Medeiros e Albuquerque, Márcio Nery, Cincinato Lopes, Araújo Viana, Morales de los Rios, Batista da Costa, Pais Leme, [Eliseu] Visconti, Diogo Chalréo, Carlos Cianconi, Heitor Lyra, Gastão Baiano, Girardet, Modesto Brocos, Ludovico Berna, Graça Couto, Correia Lima, Paula Rodrigues, Lucílio de Albuquerque e Rodolfo Chambelland.