Rafael Mendes Carvalho
(Sec XIX)

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Um caricaturista
na Corte

    Nascido em Laguna (SC) e falecido provavelmente no Rio de Janeiro. Pouco se sabe dos anos iniciais de sua carreira, além de que em 1837 era auxiliar do major-engenheiro Jerônimo Francisco Coelho no levantamento da planta de Laguna, e que dois anos depois pintou uma aquarela representando a Entrada da Esquadra Nacional na Vila de Laguna, em 15 de Novembro de 1839.

     Mudando-se para o Rio de Janeiro em fins de 1839 ou começos de 1840, notabilizou-se inicialmente como caricaturista, fazendo publicar a partir de 18 de janeiro de 1840 e até setembro desse ano uma série de 20 litografias jocosas, satirizando com muita verve costumes da Corte.

Decorador e desenhista
e estudante

     Em 1841 está entre os ajudantes de Porto-alegre nas obras de reforma do Teatro São Pedro de Alcântara, ao lado de Barros Cabral, Malivert, Olivier e outros pintores-decoradores.

     Nesse mesmo ano publica, às próprias custas, um álbum no qual se apresenta como Desenhista da Casa Imperial: Coleção dos desenhos das principais iluminações nos dias da Coroação do Sr. D. Pedro II.

     Sempre em 1841, como pensionista de sua província natal, matricula-se na Escola de Arquitetos-Medidores, que funcionava desde 1836 em Niterói.

     Em 1842 torna-se aluno da Academia Imperial de Belas-Artes, dizendo Gonzaga Duque que estreou na Exposição Geral desse mesmo ano "com três retratos, uma pequena tela histórica, Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, e um esboço para obra de grandes dimensões: Plantação da Cruz pelos Selvagens".

Mas este sou eu?

     Na Exposição de 1843, além de uma Deposição de Cristo, exibiu um retrato do Desembargador Silva Pontes.

     Não agradou muito e, sobre a obra, diria o próprio retratado, no seu Diário de um presidente:

     «Para vergonha minha também se acha na exposição o mono que o Rafael diz ser meu retrato.»

Abrindo caminhos

     Em fins de 1844 surgia, no Rio de Janeiro, a Lanterna Mágica, com texto provavelmente de Porto-alegre, acompanhado de uma estampa avulsa, certamente de mão de Rafael, o qual se tornou assim o primeiro caricaturista brasileiro a publicar charges na Imprensa.

     Nos próximos números da publicação novas estampas litografadas vieram a lume, vazadas em excelente técnica e revelando quanto devia, o jovem brasileiro, a mestres como Daumier e Gavarni.

     No entretempo, Rafael fazia tamanhos progressos, na Academia Imperial, que a 17 de setembro de 1845 a Assembléia Legislativa do Império votava uma resolução em virtude da qual o governo ficava autorizado a enviá-lo à Itália, a fim de ali se aperfeiçoar, percebendo a mesada de 80 mil réis.

     Foi, essa, a primeira vez em que um aluno da Academia recebia, assim, um prêmio de viagem.

Um passeio na Argentina
e no Uruguai

     Em 1850, já de volta da Europa havia algum tempo, Mendes de Carvalho esteve em Buenos Aires, logo passando ao Uruguai, permanecendo cerca de um ano em Concepción.

     Com o início da chamada Guerra do Rosas, em dezembro de 1851, esse ditador lançou mão de caricaturistas para ridicularizar o Império e, de modo especial, o General Urquiza.

     Em janeiro de 1851 o Brasil contra-atacava através de um punhado de caricaturas de Rafael, as quais, distribuídas no teatro de operações e ainda em Buenos Aires e no Paraguai, causaram sensação.

Em Porto Alegre,
como retratista

     Depois desse curioso episódio radicou-se o artista em Porto Alegre, como esclarece Damasceno:

     «Não podemos precisar a data de sua chegada à Província. Mas em 1855 já está instalado em Porto Alegre, onde, especialmente como professor de desenho e pintura, concorre de modo sensível para o desenvolvimento do gosto artístico local, à época muito desamparado de recursos e estímulos.»

     Nesse ano de 1855, com efeito, o pintor faz publicar um anúncio, oferecendo seus préstimos como retratista e professor, como segue:

     «Rafael Mendes de Carvalho, retratista, a óleo, acaba de receber de Paris um rico manequim e um sortimento completo de cores, telas, quadros e mais pertences de sua arte que o habilitam para apresentar trabalhos tão perfeitos como os que melhor forem.

     «Tem o seu estúdio a Rua do Ouvidor nº 36, onde as pessoas que o quiserem honrar com a sua confiança acharão as mostras de seus préstimos. Apesar do que, toda vez que a obra não sair a contento, obriga-se a renová-la ou a ficar com ela.

     «Também aceitará discípulos de toda classe de desenho, seja no seu estúdio, em colégios ou casas particulares, afiançando regularidade e desvelo em seu método de ensino. Pode ser procurado das 9 da manhã às 4 da tarde, diariamente, na citada casa de sua residência, Rua do Ouvidor, nº 36.»

Um fim incerto e
não sabido

     Em Porto Alegre, onde se demorou aparentemente apenas alguns anos, executou Mendes de Carvalho vários retratos, decorações de bailes e obras de cenografia, além de ter lecionado a vários discípulos.

     Depois, não se sabe se deixou a cidade ou se nela veio a falecer, faltando-nos detalhes sobre seus derradeiros anos.

     Do artista, que praticou ainda a paisagem, ficou-nos somente um perfil grotesco, estampado no Charivari Nacional, jornal que se publicava no Rio de Janeiro em 1859. Nele, Rafael é descrito como uma espécie de lacaio de Porto-alegre, "um crioulo guapo, sacudido e vivo como azougue... um velhacote que sabe vender o seu peixe".

Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»
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Texto do livro de Laudelino Freire
"1816-1916 - Um Século de Pintura"
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O primeiro discípulo da Academia, que teve o prêmio de viagem, em virtude da resolução do Poder Legislativo, em 1845.

Dedicou-se ao retrato e fez-se professor de desenho.

 

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