| |

Vista do Outeiro, Praia e Igreja
da Glória - Rio de Janeiro
Texto extraído do livro de Laudelino Freire:
"1816-1916 - Um Século de Pintura"
....
|
O aprendizado
Nascido em Paris em 10 de fevereiro de 1755. Revelando com precocidade o seu natural
pendor para a arte, aos 13 anos de idade já estudava no ateliê de Lepicié, passando
pouco tempo depois a estudar com Brenet, pintor de história, com quem muito lucrara na
aprendizagem do desenho.
De aluno de
Brenet, passou a ser discípulo de Francisco Casanova, notável pintor de batalhas.
Perdendo este mestre, que se retirara de Paris para Viena, outro não quis ter senão a
natureza. Dela apaixonado, empreendeu longas digressões pelas florestas dos arredores de
Paris, onde passava dias inteiros a trabalhar.
O triunfo
Em 1776,
visitou a Suíça; e, no ano seguinte, se apresentava, pela primeira vez, ao público
parisiense, em uma exposição ao ar livre, conseguindo então atrair a atenção dos
entendidos com os seus trabalhos, que foram muito apreciados.
Em 1784,
realizava outra exposição e era aceito como contratado da Academia Real de Pintura,
sendo, logo depois, pelos seus merecimentos, nomeado pensionista da Academia da França,
em Roma, de onde só regressou a Paris em novembro de 1784.
Deste ano
em diante, os seus triunfos foram sucessivos, tornando-se pintor dos célebres da capital
francesa, onde chegou a ser membro do Instituto da França, figurando os seus quadros no
Louvre, em Versalles e nas principais galerias européias.
A chegada ao Brasil
Aqui (no
Brasil) chegou, juntamente com os demais compatriotas, a 26 de março de 1816, tendo
embarcado no Havre a 22 de janeiro do mesmo ano. "Desde o dia do desembarque,
fascinado pela beleza da paisagem fluminense, apaixonado ardente do sol glorioso das
terras da Guanabara, tratou Nicolau Antônio de instalar-se em algum recanto das cercanias
da cidade, onde estivesse em íntimo contato com a natureza estupenda."
Conseguiu
adquirir terrenos na Cascatinha, Tijuca, onde construiu casa para sua residência e em
cujo sítio encontrara, seu pincel, campo de incomparáveis belezas.
Ali, em
contato direto com a natureza, trabalhando sempre, assistia o grande pintor aos atritos e
lutas que logo surgiram entre os artistas franceses e o pintor português Henrique José
da
Silva, sem entretanto neles se envolver. Não lhe eram, porém, indiferentes, as
desconsiderações que sofriam seus companheiros, chegando, por último, a
incompatibilizar-se com o pintor português.
De volta à França
Então,
desgostoso e desiludido quanto à missão que o trouxera ao Brasil, resolveu regressar à
sua pátria, o que fez em 1821, substituindo-o na regência da cadeira de paisagem, seu
filho Felix Emile Taunay, também seu discípulo e já artista feito aos 25 anos de idade.
Durante sua
permanência no Rio, pintou vários quadros, dentre os quais os seguintes: Retrato de D.
João 6º; Aclamação de Afonso Henriques; O Leão de Ândrocles; Coroação de D. João
6º; Os Pastores da Arcádia; Os Gansos de Frei Felipe; Hermínia entre os Pastores; A
Noiva da Aldeia; a Pregação de São João Batista, que enviou para o Salão de Paris em
1819; além de muitas paisagens e vários quadros que lhe foram encomendados por
particulares.
Chegando a
Paris, voltou ao Instituto de França e continuou a trabalhar. No Salão de 1822 concorreu
com onze quadros, quase todos executados no Brasil, e que são: Local sobre a Serra dos
Órgãos; - Vista de Mata de Cavalos; - Entrada da Barra; - Vista do Convento de Santo
Antônio; - O Velho e seus Filhos; - A Fortuna e a Crença; - Encontro de Henrique 4º com
Sully ferido; - Pastora e Pastores.
Sem embargo
da idade, a sua atividade era grande, continuando sempre a concorrer ao Salão e
trabalhando incessantemente até a noite.
A doença e a morte
"1830
veio encontrar Nicolau Antônio Taunay combalido na saúde. Nem por isso abandonou os
pincéis, os inseparáveis companheiros dos dias de alegria e de dor, de ventura e de
adversidade. Tinha no seu ateliê numerosos quadros, uns acabados e outros por acabar,
quando, em princípio de março, fugindo-lhe por completo as forças, viu-se obrigado a
recolher-se ao leito; durante quinze dias, preparou-se, serenamente, para uma morte
cristã, vindo a falecer em 20 de março, à rua Vaugirard, nº 35, tendo em torno de si a
dedicadíssima companheira de quarenta e dois anos, bem como um dos filhos, Hipólito e a
mulher deste.
"Muito
grande pesar causou nas rodas artísticas e do Instituto da França o desaparecimento
desse homem que, ao talento, aliava a maior integridade de caráter e a máxima bondade de
coração, e tudo isto realçando a extraordinária delicadeza de maneiras.
Não tinha
sequer desafetos. Visitado por inúmeros confrades e colegas, durante a enfermidade,
tirou-lhe Ramey a máscara logo após o falecimento, com o fim de lhe fazer um busto. Aos
funerais, precedidos de solene ofício na Igreja de São Sulpício, e realizados no
cemitério de Montparnasse ou do Sul, dois dias mais tarde, acudiu grande concorrência de
artistas, literatos e cientistas; dentre os numerosos membros do Instituto, presentes,
destacava-se a classe das Belas-Artes, em peso, que vinha prestar ao seu decano as
últimas homenagens.
Homenagem póstuma
"À
beira da sepultura, leu o ilustre Gros, muito comovido, um discurso de Castelan, também
acadêmico, em que era lembrado, a par do talento de Taunay, a nobreza de seu caráter.
Teve rivais, talvez, o nosso amigo; nunca inimigos.
"Sua
inalterável serenidade e modesta franqueza desarmavam a inveja. A pureza de costumes, por
assim dizer patriarcais, e a ausência de ambição, asseguravam-lhe tranqüilidade.
Ultimamente, só deixava o seu retiro para assistir às nossas sessões, certo de ali
encontrar todo o respeito e consideração que lhe eram devidos e, o que mais o penhorava,
a mais terna afetuosidade de todos nós. Correu-lhe uma vida serena, mas não sem glória,
como as águas dessas fontes que, embora escondidas sob as modestas frondes, nem por isso
deixam de refletir os mais puros raios do astro do dia." ("A Missão Artística
de 1916, A. Taunay).
Os descendentes no
Brasil
O velho pintor, que foi o primeiro barão de Taunay, deixou entre nós uma descendência
ilustre, figurando na primeira linha seu filho Felix Emílio, segundo barão de Taunay,
seu neto, Visconde de Taunay e seu bisneto dr. Afonso de Escragnolle Taunay.
.
|
|