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Coroação de D. Pedro 2º (obra inacabada)
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Órfão duas vezes
Nascido em Rio Pardo (RS) e falecido em
Lisboa (Portugal).
Seu nome real era Manuel José de
Araújo, modificado para Pitangueira por espírito nativista, quando da
Independência, e mais tarde chegando à forma definitiva, Manuel de Araújo
Porto-alegre, sendo equivocada a grafia Porto-Alegre que alguns de seus
biógrafos utilizam.
Orfão de pai aos cincos anos, tendo
perdido aos 12 o padrasto, tinha 16 quando se empregou como ajudante na oficina de
relojoaria do francês Jean Jacques Rousseau, o qual, tendo em vista seus pendores para o
desenho, estimulou-o a estudar com seu compatriota François Ther, recém-chegado à
cidade.
Instalando-se no Rio
Pouco mais tarde teria algumas lições com
o retratista Maciel Gentil e com o pintor decorador João de Deus, passando a ganhar a
vida como pintor profissional.
Decidido a ir estudar com Debret no Rio de
Janeiro depois de ter visto uma reprodução do Desembarque da Arquiduquesa Leopoldina
do mestre francês, só em fins de 1826 conseguiu embarcar com destino à Corte, onde
chegou a 14 de janeiro de 1827.
Treze dias mais tarde estava matriculado
como aluno fundador na Academia Imperial de Belas-Artes, na classe de Debret, de quem se
tomaria em breve dos mais chegados amigos.
Pintura ou arquitetura:
eis a questão
Na Academia foi também discípulo de Grandjean de Montingny, tanto que
na Exposição escolar de 1830 compareceu com obras de pintura e de arquitetura.
Seu interesse pela arquitetura era aliás
muito grande, e prova disso é ter estudado, quando em Roma, em 1834, com o famoso
arquiteto Canina.
De fato, muitos foram os projetos de sua
autoria, depois que retornou da Europa, em 1837, - entre eles o edifício da Igreja de
Santana (não executado), a antiga sede do Banco do Brasil na Rua da Candelária (demolida
em 1937) e as obras de reforma e ampliação dos Paços da Cidade e de São Cristóvão e
da Alfândega do Rio de Janeiro
Seu sonho: Paris
Mas, voltando aos tempos de sua formação,
acrescente-se que também cursou a Escola Militar, estudou Anatomia e Fisiologia na
Faculdade de Medicina e recebeu aulas de Filosofia de Frei José Policarpo de Santa
Gertrudes.
Todos esses esforços tinham apenas um
escopo: prepará-lo adequadamente para a viagem à Europa, com a qual sonhava desde quando
ainda residia na província.
Com a abdicação de seu protetor Pedro I e
o recebimento de uma inesperada herança, ao mesmo tempo em que seu mestre Debret se
licenciava da Academia e retornava à Europa com os originais da Voyage Pittoresque
prontos para publicação, todas as circunstâncias concorriam para a concretização
de seus planos.
Convivendo com os grandes
Com efeito a 25 de julho de 1831
Porto-alegre seguia para a França em companhia de Debret, e já em fins desse ano estava
matriculado na aula particular do célebre Barão Gros em Paris. Em 1832 inscreveu-se na
École des Beaux Arts, que cursou com certo destaque.
Morando num aposento da residência do
arquiteto François Debret, irmão do pintor, Porto-alegre, durante o tempo de sua
permanência em Paris, desfrutaria senão da intimidade, ao menos da proximidade de todas
as celebridades que freqüentavam a casa, como explicaria anos depois, em sua
autobiografia:
«A casa de Francisco Debret era um ponto
de reunião de grandes notabilidades; e como este arquiteto era o primeiro mestre na arte
de construir teatros, ali se juntavam também os memógrafos mais célebres e os músicos
maiores, como Rossini, Auber, Boieldieu, Cherubini e Paer, não falando nas plêiades de
pintores, escultores e outros homens de primeira plana.»
Uma enciclopédia viva
No centro desta sociedade, enciclopédia
viva, colhe o jovem artista idéias gerais de muitas coisas, e sobretudo o gosto pelo
estudo, e mais ainda esse respeito devido ao verdadeiro mérito e a todas as
especialidades, porque no exemplo de tantos grandes homens aprendeu a respeitar os homens.
Porto-alegre não cita os nomes dos
pintores ou dos poetas com os quais conviveu, mas é fora de dúvidas que, na Paris dos
começos da década de 1830, seriam todos eles espíritos românticos, os corifeus da nova
escola estética que vinha se impondo havia apenas alguns anos aos postulados do
neoclassicismo.
Pinheiro Chagas, aliás, sustenta
equivocadamente que o jovem brasileiro alistou-se na luta contra os clássicos, assistiu
à première do Hernani de Victor Hugo e "foi um daqueles
revolucionários da arte que, de gravata vermelha e de longos cabelos, se assenhorearam,
por direito de conquista, da platéia do teatro francês nessa noite de luta em que se
afirmou o triunfo da escola romântica".
Conhecendo a Europa
Em 1834 Porto-alegre deixava Paris e
encetava uma longa excursão através da Europa, percorrendo sucessivamente Itália,
Suíça, Bélgica e Inglaterra.
Acompanhou-o na viagem à Itália seu
dileto amigo Domingos José Gonçalves de Magalhães, também ex-aluno de Debret na
Academia Imperial de Belas Artes, o qual, apenas dois anos antes, se formara em Medicina e
publicara seu primeiro livro, Poesias.
Cumpre acrescentar que Gonçalves de
Magalhães seria um dos fundadores em Paris, em 1836, da revista Niterói, da qual
só apareceram dois números, mas que se constituiria no núcleo inicial do Romantismo
brasileiro.
De volta ao Brasil
Regressando ao Brasil em 1837, o artista
parece ter publicado, nesse mesmo ano, algumas caricaturas satirizando Justiniano José da
Rocha, o que levou Herman Lima a sustentar, em sua História da Caricatura no Brasil, ter
sido Porto-alegre o primeiro caricaturista brasileiro, sendo além do mais certo que
fundou em 1844 o primeiro periódico do país ilustrado com caricaturas - a Lanterna
Mágica, de efêmera duração.
Também em 1837 foi nomeado professor de
Pintura Histórica da Academia Imperial de Belas Artes, cargo que desde a partida de
Debret em 1831 vinha sendo desempenhado por Simplicio Rodrigues de Sá.
Pintor da Câmara Imperial em 1840,
couberam-lhe nessa condição a execução e a supervisão de trabalhos decorativos
importantes para a coroação de Dom Pedro II, o casamento do Imperador com a Princesa
Dona Teresa Cristina e os batizados dos Príncipes Imperiais Dom Afonso e Dom Pedro.
Já no ano anterior realizara o
pano-de-boca e cenários do Teatro São Pedro de Alcântara, inaugurado a 7 de setembro de
1839, representando "... o gênio das Belas Artes rasgando as espessas nuvens da
Ignoráncia e da Rotina, e dando ao Gosto o lugar que elas usurpavam. A direita vê-se a
magnifica entrada da barra do Rio de Janeiro; à esquerda a Ignorância e a Rotina fogem
espavoridas", tudo conforme a descrição do Jornal do Comércio de 10
de setembro do mesmo ano de 1839.
Intrigas da oposição
Desde 1838 professor interino de Desenho do
Colégio Pedro II, como substituto do titular Gonçalves de Magalhães, Porto-alegre
permaneceu lecionando na Academia de Belas Artes até 1848 quando, sentindo-se hostilizado
por seus antigos colegas Félix Emile Taunay, Cabral Teive, José Correia de Lima e
Auguste Moreau, solicitou e obteve sua transferência para a Escola Militar, embora tal
transferência implicasse sua passagem de professor catedrático para substituto.
A Reforma de Jerônimo Francisco Coelho,
ocorrida pouco depois, acabrunhou-o ainda mais, reduzindo-lhe os vencimentos de maneira
substancial e levando-o a solicitar sua jubilação.
Eleito vereador em 1852, nesse cargo
desenvolveu tão ampla e fecunda atividade que, ao deixá-lo, recebeu da Câmara um
ofício no qual lhe eram agradecidos o zelo e a dedicação com que desempenhara suas
funções.
Reformulando a Academia
Mais tarde, o Imperador Pedro II
solicitava-lhe um esboço de reforma radical para a Academia Imperial de Belas Artes - o
que foi feito, tornando-se Porto-alegre, em 1854, diretor do estabelecimento e implantando
efetivamente as idéias que delineara em seu projeto.
Assim, foram criadas novas cadeiras
(inclusive a de Desenho Industrial), a biblioteca passou a funcionar com seu catálogo,
foi melhorada a situação financeira dos professores e se ampliou o edifício da
Academia, de modo a poder nele funcionar a pinacoteca, enquanto era dilatado de três para
seis anos o prazo de permanência dos pensionistas na Europa.
Todas essas reformas não se fizeram porém
sem reações, desencadeadas sorrateiramente pelos mesmos desafetos que, alguns anos
antes, tinham-no forçado a deixar a Academia.
Imiscuindo-se junto ao Marquês de Olinda,
os inimigos de Porto-alegre - Félix Taunay à frente - dele obtiveram a nomeação de
Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive para a Cadeira de Pintura Histórica, à revelia do
diretor.
Demissão e protesto
Indignado, Porto-alegre solicitou demissão
do seu cargo em setembro de 1857, enviando ao ministro uma carta que é ainda hoje um
documento de grande dignidade:
«Vossa Excelência sabe que, quem combate
hábitos de relaxação, não é amado pelos madraços; e quem é justo, sofre dos que
contam com o poderio misterioso do empenho e do patronato. (... )
«Por convicções que nunca renegarei,
deixo aquela diretoria com a satisfação que todo homem de brio encontra no cumprimento
de seus deveres e muito mais quando altamente pugna pela causa da lei, da inteligência e
da moral.»
Um escritor e tanto
Praticando, além da pintura e da
arquitetura, a literatura, Porto-alegre publicaria os livros de poesia Brasiliana (1843),
O Caçador (1843), Brasiliana I (1844), O Voador (1844), A
Destruição das Florestas (1845), Brasiliana em Três Cantos (1845), O
Corcovado (1847) e principalmente o grande poema épico em mais de 20 mil
versos Colombo (1866), bem como algumas peças de teatro Angélica e Firmino (1845);
A Estátua Amazônica (1851); Os Voluntários da Pátria, (1877)
etc., libretos para óperas (O Prestígio da Lei, 1859, música de Francisco
Manuel; A Restauração de Pernambuco, 1852, música de Gianini; A Véspera
dos Guararapes, A Noite de São João, etc.) e traduções de peças (Electra,
de Eurípedes, Lucrecia Borgia, de Victor Hugo, Cristina da Suécia, de
Dumas Pai, etc.), ocupando nas letras nacionais um espaço todo especial, a meio cantinho
entre o neoclassicismo de sua mocidade e o romantismo de seus anos maduros.
Homem-tudo, como a ele se
referiu Max Fleuiss, deixou publicados nada menos de 135 trabalhos de literatura
propriamente dita, 20 peças teatrais e quatro traduções.
Jornalista e crítico de arte
Como jornalista, fundou e dirigiu Niterói
(com Gonçalves de Magalhães e Torres Homem), Lanterna Mágica, Minerva
Brasiliense e Guanabara, tendo colaborado com freqüência em vários outros,
como o Journal de I'Institut Historique de France, Aurora Fluminense, A Reforma,
Revista Brasileira, Nova Minerva e Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro.
Finalmente, seja dito que Porto-alegre é o
fundador da história e da critica de arte brasileiras, e ainda hoje podem ser compulsados
com proveito seus artigos e memórias sobre arte nacional, destacando-se "Memória
sobre a Antiga Escola Fluminense de Pintura", "Valentim da Fonseca e
Silva", "Francisco Pedro do Amaral" e "Algumas Idéias sobre as Belas
Artes e a Indústria no Império do Brasil", além de diversos artigos sobre música.
O diplomata
Nomeado para a carreira consular em 1859
por Pedro II, Porto-alegre, desiludido da arte e dos artistas, assume seu posto em Berlim
em meados de 1860, sendo transferido em 1862 para Dresden.
Em 1866 foi mais uma vez transferido -
agora para Portugal -, falecendo cerca de 13 anos mais tarde na capital portuguesa.
Uma de suas filhas, Carlota, casou-se com
Pedro Américo. Seus despojos, trazidos em 1922 para o Brasil, foram transferidos sete
anos mais tarde para Rio Pardo, onde repousam.
Não sobrou tempo
para a pintura
Homem de atividades múltiplas e por vezes
excludentes, Porto-alegre deixou obra pictórica pequena e de valor desigual, na qual se
destacam retratos, como o de Garret no Cerco do Porto, feito em 1833,
quadros históricos, paisagens, interiores de grutas, alegorias e cenografias, etc.
Não foi, rigorosamente
falando, um grande pintor, mas um excepcional animador cultural, a quem muito ficaram
devendo as artes, as letras e, numa palavra, a cultura do Brasil.
Fonte: CD-Rom «500 Anos da Pintura Brasileira»
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