Um estágio em Roma
Nascido e falecido no Rio de Janeiro. Matriculou-se em 1857 na
Academia Imperial de Belas-Artes, conquistando durante o curso diversas premiações,
inclusive, em 1868, o prêmio de viagem à Europa, com a composição Moisés
Recebendo as Tábuas da Lei.
A 19 de julho de 1868
estava em Roma, matriculando-se logo depois na classe de Cesare Mariani (professor e
famoso decorador), na Academia de São Lucas.
Mariani, antigo aluno de
Minardi, gozava de boa reputação como pintor de história e como decorador de igrejas, e
foi quem certamente incutiu em Zeferino o amor ao assunto sacro e às grandes decorações
religiosas em que mais tarde se notabilizaria.
Durante seu curso em
Roma, Zeferino ganhou dois primeiros prêmios em pintura histórica e de nu, o que lhe
acarretou uma recompensa de 2 mil francos e, ao cabo dos cinco anos regulares de pensão,
mais três de prorrogação, dois para aperfeiçoamento e o último para percorrer os
museus europeus.
Foi durante essa longa
permanência na Itália que o artista brasileiro produziu algumas de suas obras mais
importantes, como A Caridade, O Óbulo da Viúva e A Pompeana.
Professor de grandes mestres
Retornando em 1877 ao
Brasil, Zeferino foi imediatamente nomeado professor da Academia.
Seria professor
praticamente até o fim da vida, mostrando-se de dedicação insuperável e contribuindo
para o aprimoramento de inúmeros artistas, entre os quais Batista da Costa, Oscar Pereira
da Silva, Henriue Bernardelli, Castagneto, Belmiro de Almeida, Firmino Monteiro e Rodolfo
Chambelland. Foi professor de Pintura Histórica em 1877 (substituindo Vítor Meirelles),
regente da cadeira de Paisagem em 1878, após a morte de Agostinho José da Mota,
vice-diretor e professor de Modelo Vivo da já então Escola Nacional de Belas-Artes, em
1890.
Segundo Alfredo Galvão,
"esforçou-se, antes de Jorge Grimm e Antônio Parreiras, para que os alunos de
Paisagem fizessem os estudos ao ar livre".
Crítica mordaz e
arrasadora
Em 1879 Zeferino da Costa
enviou 17 pinturas à Exposição de Belas Artes organizada pela Academia, inclusive as
que realizara na Itália e lhe tinham grangeado fama.
Gonzaga Duque, elogiando
embora A Caridade e o Óbulo da Viúva, desancou sem piedade A
Pompeana:
«O maior defeito que tem
esta falsa pompeana Fritz & Mack é o de ocultar nos recessos do corpo a reuma
peçonhenta que aduba as flores do deboche. Este corpo é pérfido como a deslumbrante
aparência da urtiga das montanhas a que a população montezinha chama arrebenta-cavalos.
«A incauta mocidade não
tem a observação bastante fiel para reparar nos postiços que entraram na conformação
daquele corpo de coldcream; aquilo assim arranjado como está não prova cuidados
ortopédicos, foi conseguido há alguns anos a esta parte para o gosto exclusivo dos
colegiais que martirizam os respectivos buços, vaidosos de parecerem homens e dos velhos
estafados em uso de coleópteros afrodisíacos.»
E conclui, indignado:
«É incompreensível
este inglório trabalho, este de retratar cocottes esbodegadas, em um moço de
grande talento e de grandes aptidões de artista. Qual a causa de aparecer pompeana esta
ruim, esta ignóbil figura, lavada em óleo, emplastada de gorduras aromáticas, besuntada
de veloutine para disfarçar a alambazada estrutura de suas formas? Pompeana por
quê?»
Fosse pela severa critica
de Gonzaga Duque ou por outro qualquer motivo, Zeferino, após 1879, nunca mais participou
de exposições públicas, preferindo conservar-se em seu natural retraimento até o fim
da vida.
Os painéis da Candelária
A grande oportunidade que
se lhe apresentou como artista deu-se porém pouco depois, quando, concluída afinal a
construção da Igreja da Candelária,
no Rio de Janeiro, com a adição da nova cúpula desenhada por Daniel Pedro Ferro
Cardoso, pensou-se em decorá-la com pinturas que evocassem o milagre ocorrido, séculos
antes, a Antônio Martins de Palma e Leonor Gonçalves.
De início a idéia era
confiar a decoração a pintores italianos; só por sugestão de Pedro II foi a tarefa
entregue a Zeferino da Costa:
«Os senhores devem
mandar decorar a igreja por Zeferino da Costa, artista que acaba de voltar da Itália,
onde se especializou em pintura sacra.»
Em seis imensos painéis
fixou Zeferino a história do milagre: A Partida de Palma, A Tempestade, A Chegada ao
Rio de Janeiro, A Inauguração da Capela, O Lançamento da Pedra Fundamental da Igreja e
A Sagração Solene, estendendo-se o trabalho (no qual teve a colaboração de
diversos alunos, como Castagneto e Oscar Pereira da Silva) de 1880 a 1883.
Comentando tal obra,
afirmou Araújo Viana:
«A composição, em seu
conjunto, não tem rival no Rio de Janeiro, quanto à magnitude dos assuntos tratados com
uma técnica admirável, quanto às reconstituições arqueológicas constantes dos
painéis das naves, quanto às dificuldades de perspectiva vencidas nas concavidades ou
curvaturas dos tetos, naturalmente por estudos prévios em cartões, onde Zeferino da
Costa seguiu à risca as lições dos mestres da pintura histórica.»
Os discípulos restauram
o trabalho
Muitos anos mais tarde,
em 1913, sendo necessária a restauração dos painéis, o artista foi novamente incumbido
da difícil missão, auxiliado, então, por Sebstião Vieira Fernandes e Evêncio Nunes.
Este último, em
depoimento de 1943, referindo-se a Sebastião, que acabara de falecer, esclarece:
«Ele e eu fizemos o fim
do trabalho, pelo fato de o ilustre mestre não poder mais pintar, por estar com as mãos
deformadas pelo reumatismo brutal que tanto mal lhe fez.
«Esses quadros são os
seis que ornam o primeiro corpo à entrada do templo. São esses seis quadros exclusivos
de Sebastião e meus, pois, nessa ocasião, o mestre estava passando mal. Essa verdade
não tira o valor de Zeferino. Nunca! São fatos de nossa vida.»
Muita forma e
pouco conteúdo
Do ponto de vista
artístico, e vista como um todo, a pintura de Zeferino da Costa parece-nos fria e sem
vibração.
Como tantos pintores da
época, Zeferino concedeu toda a prioridade à forma, ao desenho, negligenciando a cor e a
textura. O resultado é uma obra tecnicamente correta, na boa tradição européia, mas a
que falta emoção.
Nas grandes decorações
da Candelária portou-se com a costumeira perícia, resolvendo grandes espaços com
auxílio de um desenho sólido e de discreta palheta; mas não foi propriamente dotado de
sentimento para a pintura religiosa.
Mais válidas são as
obras da mocidade não tanto A Pompeana, de 1876, e que se nos apresenta
prosaica, beirando o kitsch e o mau gosto, porém O Óbulo da Viúva e
sobretudo A Caridade, que se nos impõem pela composição cuidadosa, pelos
efeitos de claro-escuro, pelo modelado das figuras e pela correção anatômica.
Aluno de Vítor Meireles,
Zeferino herdaria algo do estilo do seu mestre, e até do seu temperamento: sua emoção
é dosada e sem transbordamentos, e tudo em sua produção tende a sobriedade.
Mesmo usando da cor com
parcimônia, sabia utilizá-la, conhecendo como poucos a ciência dos valores, aqui
fazendo vibrar um acorde mais sonoro, ali realçando um pormenor que de outro modo
quedaria desapercebido.
Nos estudos de traje e
nas cabeças, de que existem vários exemplos no Museu Nacional de Belas-Artes, seu
parentesco com o autor de Moema torna-se mais evidente: Vitor Meireles e Zeferino
da Costa pertencem a mesma família.
Referência era a
figura humana
No título do pequeno livro que escreveu, e que
seria publicado dois anos após sua morte: Mecanismos e proporções da figura humana, resume-se
aparentemente o seu credo artístico: ninguém, mais do que Zeferino, estudou tão
fundamente a figura humana, a ponto de transformá-la em referência única de toda a sua
produção.
Ao lado do já citado
Vítor Meireles e mais de Pedro Américo, Zeferino da Costa completa uma tríade
formidável de pintores brasileiros do Segundo Império
Sobrevivendo a
ambos, já entrado o Séc. XX, Zeferino da Costa foi o ilustre remanescente de um tipo de
sensibilidade que se baseava na estrita obediência aos postulados acadêmicos, ao assunto
nobre e ao predomínio absoluto da forma.
Fonte: CD-Rom «500 Anos de Pintura Brasileira»
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