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Nascido em 1857, em Lisboa, dentro de uma família de artistas,
Columbano Bordalo Pinheiro viveu, desde os primeiros anos, na convivência com pincéis e
tintas, telas e paletas, os quais faziam parte natural de sua vida, e assim aprendeu as
primeiras noções de pintura da mesma maneira que alguém aprende a falar ou a manejar os
talheres.
Seu pai era o pintor, escultor e gravador Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815-1880) e, em
todos os ramos da família, houve talentos precoces que, em maior ou menor escala, se
desenvolveram no cenário artístico de Portugal.
Assim, quando, aos quatorze anos, Columbano se matriculou na Academia Real de Belas-Artes,
já trazia consigo uma bagagem de conhecimentos apreciável, para desespero de seus
professores, que não conseguiam fixar-lhe uma direção, tendo, muitas vezes, que
deixá-lo escolher os próprios rumos.
Essa característica, que acompanhou o artista por toda sua vida, de um lado, o
ajudou a desenvolver-lhe mais rapidamente e ganhar personalidade própria, mas, de outro,
o fez colecionar uma boa quantidade de desafetos. Dentre os professores, somente Miguel
Ângelo Lupi (1827-1883) conseguiu compreendê-lo por inteiro, ajudando-o a prosseguir nos
estudos, que foram completados em quatro anos, num curriculo que previa sete anos de
escola. E saiu conquistando seu primeiro prêmio, uma medalha de prata.
Mas daí por diante, as coisas não lhe correram tão bem. Concorreu por duas vezes
seguidas a um prêmio de viagem à França e, nas duas vezes, foi preterido a favor de
outros candidatos. Somente em 1881 conseguiu levar adiante seu projeto e, assim mesmo, as
despesas foram custeadas pessoalmente pelo rei D. Fernando (o artista), filho de D. Maria
II de Portugal e neto de D. Pedro I do Brasil.
Apesar de contar já com 24 anos, preferiu viajar em companhia de sua irmã mais velha,
Maria Augusta, sua segunda mãe, da qual, naquele mesmo ano, ele viria a pintar um retrato
com o nome de A mulher de luva.
Em París, o mesmo desastre: não era um pintor, era um repórter que a tudo investigava e
tudo questionava, inclusive a autoridade dos mestres. Por conta própria, visitou ateliês
de artistas em evidência, foi a exposições, freqüentou museus, fez muitas perguntas,
questionou as respostas, criou, muitas vezes, um ambiente hostil contra si mesmo, mas
voltou a Portugal um homem consciente do ofício, mestre da pintura, senhor de suas
convicções e seus conhecimentos.
Em Lisboa, juntou-se aos artistas do Grupo do Leão, formado por artístas
promissores, que, mais tarde, viriam a figurar entre os grandes nomes da pintura
portuguesa, os quais se reuniam na Cervejaria do Leão.
A despeito de seu temperamento irascível, que o colocava em oposição aos que poderiam
ajudá-lo, Columbano foi abrindo uma estrada sólida à sua frente, por força de seu
talento imbatível, de sua vontade de vencer e de sua indiscutível superioridade
técnica.
Chegou mesmo a ser nomeado professor de pintura da Escola de Belas-Artes de Lisboa, em
1900, mas, anos depois, deixava o posto, por incompatibilidade com os alunos, que não se
sujeitavam ao seu processo de ensino.
Segundo Fernando de Pamplona, a fama não eliminou «o caráter de misantropia, de
desconfiança, de egoismo e de secura da personalidade de Columbano. A sua genialidade
não rimava com a sua simpatia humana. O mestre criara um mundo estreito e fechado, de que
era o único e terrível senhor».
Ou, como define Diogo de Macedo: «misantropo, fechado em si, dado a análises exaustivas,
a dissecações cruéis, ele teve apenas um grande amor a pintura.»
Estes traços de pura esquizofrenia não anularam e, pelo contrário, acentuaram seu valor
artístico, mas, pela falta de sociabilidade, não conseguiu transmitir a outros um pouco
do muito que sabia. Deixou uma obra para a posteridade, mas não deixou discípulos que
pudessem continuar-lhe o trabalho.
Foi
assim, nessa busca ao isolamento, fechando-se em seu próprio mundo, que Columbano Bordalo
Pinheiro veio a falecer, na mesma cidade de Lisboa, em 1929.
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