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Artur Alves Cardoso
(1882-1930)

Aqui estamos
nós!

 

     Manhã radiosa de maio, ano de 1928. O apito do navio quebra o silêncio na baía da Guanabara. Era um transatlântico, o «Lucretia», anunciando sua chegada e pedindo passagem, como se fora uma alegoria na área de concentração, preparando-se para colocar na avenida seus animados figurantes.

     Apesar do clima francamente tropical do Rio de Janeiro, ainda se podia sentir no ar o frescor do outono, que já ia a meio, e que prenunciava um inverno, ameno talvez, para quem está acostumado ao rigor do clima europeu, mas frio para o morador habitual da cidade.

     Pela alfândega, passam os recém-chegados, fazendo uma verificação habitual de bagagem. Entre eles, um casal simpático, cuja curiosidade denotava estar vindo ao Brasil pela primeira vez. Entre os volumes, um material inusitado: dezenas e dezenas de quadros, de vários tamanhos, que não dava para apreciar, protegidos que estavam por uma segura embalagem, apenas rasgada aqui e ali, para conferir a exatidão da mercadoria declarada.

     Ele era o pintor Artur Alves Cardoso, que neste mês, completava seus 46 anos e vinha para realizar uma individual no «Gabinete Português de Leitura». Ela, sua esposa, a jovem Lavínia de Sacadura Bretes, dez anos mais nova, e companheira de uma longa jornada. Ambos, maravilhados com o espetáculo descortinado aos olhos, desde a entrada do navio à baía. Rio de Janeiro era mesmo uma cidade maravilhosa!
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Um bom
alicerce

 

     Artur Alves Cardoso nasceu em Lisboa em 17 de maio de 1882, predestinado a ser um dos grandes nomes da pintura portuguesa.

     Arte é algo que vem da alma, que se traz do nascimento, como um dom divino, que Deus coloca aqui ou ali, a seu próprio Juízo, por razões que um simples mortal desconhece. A escola aprimora o dom, não tem o poder de concedê-lo. E o menino Artur o trazia desde o berço, como revelavam seus primeiros flertes com o desenho.

     Não tardou que os país lhe reconhecessem a força que o impulsionava para a pintura e, quando tinha ele apenas 13 anos, matricularam-no na Escola de Belas-Artes de Lisboa.

     Foram sete anos longos e difíceis, às voltas com o desenho, a geometria, o trato com os pincéis e as tintas, a familiaridade com a perspectiva. Nisso o ajudou o grande mestre Carlos Reis (Carlos Antônio Rodrigues dos Reis – 1863-1940), paisagista de primeira mão, que percebeu a inclinação do aluno para este gênero.

      Em 1902, recebeu seu certificado final. Era o momento de reiniciar a vida, caminhando por seus próprios pés, num ofício em que ser bom era insuficiente: vencia quem fosse o melhor.
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O Grupo
Silva Porto

 

     Por essa época, em Barbizon, pequena aldeia francesa, jovens pintores começaram uma experiência quase inédita, abandonando os estúdios para plantar seus cavaletes nos campos, captando formas e cores ao natural. Verdade que, décadas atrás, os impressionistas também faziam isso, facilitados pela inovação das tintas embaladas em pequenas bisnagas, de fácil transporte, e já misturadas em uma grande variedade de tons.

     Mas a novidade passou e a tendência continuou sendo ir à fonte apenas para traçar esboços em papel, onde se fazia as anotações técnicas. Somente após, no ateliê, servindo-se desses rabiscos, a tela ia sendo composta. Assim, a fidelidade das cores dependia muito da memória do pintor e de sua capacidade em gravá-las na mente.

      Coube a Silva Porto (Antônio Carvalho da Silva – 1850-1893), seguindo a experiência francesa, a incumbência de criar, em Portugal uma escola ao ar-livre, que continuou existindo após sua morte.

     Era o Grupo Silva Porto, ao qual Alves Cardoso se engajou, incentivado mesmo por seu antigo mestre, Carlos Reis, que outrora fora aluno do grande mestre Silva Porto e pertencera àquele grupo. Agora, devolvia ao convívio dos ar-livristas um discípulo seu para viver as mesmas experiências.

      O contato com a natureza é por si edificante. Já, levar a natureza consigo, fixada na tela com todo seu cromatismo, tem algo de divino. E os quadros se transformavam em paisagens estonteantes, que iam espalhando a fama de seu criador, o qual, a esta altura, não conseguia mais ser ignorado. Se não era um artista completo, atingira um patamar em que podia ser visto, comparado, elogiado, criticado.
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A viagem
ao exterior

 

     Não tardou em que Alves Cardoso, sentindo-se em condições, participasse do concurso anual para bolsas de estudos fornecidas pela coroa para aperfeiçoamento no exterior.

     Sobressaindo-se aos demais concorrentes, o pintor ganhou-a com mérito e viajou a Paris, onde teve aulas com Cormon e Jean-Paul Laurens.

     De lá, viajou para a Bretanha, uma península ao noroeste da França, na orla do canal da Mancha. A distância era grande, os caminhos difíceis, mas valeu a jornada. Visitar a Bretanha era como abrir um grande álbum de cartões postais, cada paisagem mais bonita que a outra. Foi um período de grande produtividade para o pintor, que pôde compor uma série de trabalhos tendo como tema aquela região.

     Se a França, vanguarda das artes, lhe dera um contato com o presente, tornava-se agora necessário mergulhar no passado. A próxima visita era destinada à Itália, repositório das grandes artes de todos os tempos.

     Percorrer Roma, Florença, Pádua, Veneza, não é fazer uma caminhada pela geografia, é trilhar pelos caminhos do tempo. Talvez seja nada para o turista acidental, mas, para a sensibilidade de um pintor, o impacto é grande, deixando impressão indelével que, queira ele ou não, irá influenciar em sua arte para todo o sempre.

Estrada
aberta para
o futuro

 

     Em 1909, com um vasto cabedal artístico e cultural, o pintor retorna à sua terra natal.

     Em Portugal, não lhe faltou reconhecimento. Nas duas décadas que se sucedem, sua produção é significativa, rendendo seguidos prêmios, como os que se seguem:

  • 1914 – Medalha de Ouro da Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa.
  • 1915 – Medalha de Ouro na Exposição Panamá-Pacífico.
  • 1916 – Medalha de Honra da Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa.
  • 1917 – Medalha de Honra da Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa.
  • 1940 – Condecoração (póstuma), concedida pelo presidente da República, como Grande Oficial de Santiago da Espada.
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O artista
e a obra

 

     Ainda não se conseguiu catalogar a obra de Alves Cardoso, resultado de mais de três décadas de intenso trabalho. A maior parte dela se encontra em Portugal. No Brasil há pelo pelo menos uma centena de quadros, alguns dos quais passam, vez por outra, pelos leilões de arte.

     Todavia, reuni-los em um catálogo é um trabalho gigantesco, que depende principalmente da colaboração dos colecionadores. É a montagem de um quebra-cabeças que só o tempo irá conseguindo resolver.

     Entre os principais trabalhos, pode-se mencionar: Aproveitando o tempo, Cozinha do senhor Abade, Os meus modelos, A merenda, Pausa Forçada, A morte do boi, O rebanho, O outono, Cair da tarde, Arredores de Chaves, A cabreira, Lição de Leitura, À hora da janta, e, é claro, a comovente simplicidade de Sorriso de Trás-os-Montes.

     Na sala de sessões da Assembléia da República (Congresso Nacional), existem três painéis, representando respectivamente: A Ciência, as Artes e as Indústrias; A Pátria, a Paz e a Fortuna; O Comércio e a Agricultura.

Fim de
jornada

 

     Em maio de 1928, Alves Cardoso e sua esposa Vina fazem sua única e derradeira viagem ao Brasil. Em 7 de julho, ele inaugura exposição no Gabinete Português de Leitura. Em 7 de agosto, há o encerramento, quando mais 14 quadros são vendidos.

     Sua permanência no Rio de Janeiro, prevista para dois meses, acaba se prolongando por meio ano e só não se estendeu mais porque o pintor tinha compromissos assumidos em sua terra.

     Com efeito, teria de retornar a Portugal para cuidar da decoração do anfiteatro da Maternidade Dr. Alfredo da Costa, em Lisboa,  constante de um tríptico, um retrato, e mais três painéis. Todo esse trabalho lhe tomaria cerca de um ano.

     Era só uma interrupção, imaginava. Haveria de retornar ao Brasil, que ele aprendera a amar, e retomar a obra interrompida. Pelo menos, era o que pensava.

     O destino, entretanto, lhe armara surpresas. Ainda no Brasil, sentira algumas indisposições que, se supunha, eram passageiras e sem maior gravidade. Porém, já em Portugal, a doença não lhe deu tréguas e seu estado de espírito ficou estampado nos quadros que pintou, como Um dia triste e A morte do boi, seu último trabalho.

     Em janeiro de 1930, fez uma visita ao seu grande amigo, o padre Silvino da Nóbrega, residente em Samaiões. De volta a Lisboa, não conseguiu vencer sua última batalha contra o mal que o atormentava, vindo a falecer em 10 de março de 1930, dois meses antes de completar 48 anos de idade.

     Se para ele a vida foi madrinha, a morte foi madrasta. Sua carreira sofreu uma interrupção fatal quando Alves Cardoso se achava no apogeu da arte que praticava, quando se preparava para alçar vôo a pontos mais distantes de seu universo criador.

     Tivesse voltado ao Rio, como pretendia, por certo sua presença aqui seria parte indelével da história da arte brasileira, como aconteceu a outros tantos pintores que para cá vieram e tiveram mais tempo para mostrar sua arte. (Texto de Paulo Victorino).


Um hino de amor e deslumbramento
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     Em 19 de janeiro de 1929, após ter regressado do Brasil, Alves Cardoso concedeu à imprensa portuguesa uma entrevista, que, da primeira à última frase, é um hino de amor e deslumbramento pela nossa terra.

     Agradecemos a Isabel Meneses, residente em Portugal e neta do pintor, por nos haver proporcionado um fac-símile da citada notícia, que reproduzimos na íntegra. A ortografia foi atualizada segundo as regras vigentes no Brasil.

Leia a entrevista

veja o fac-símile (415 KB)

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Painéis de Alves Cardoso
na Assembléia da República
(Congresso Nacional)

A Ciência, as Artes e as Indústrias

A Pátria, a Paz
e a Fortuna

O Comércio e
a Agricultura