Aqui estamos
nós! |
Manhã
radiosa de maio, ano de 1928. O apito do navio quebra o silêncio na baía da Guanabara.
Era um transatlântico, o «Lucretia», anunciando sua chegada e pedindo passagem, como se
fora uma alegoria na área de concentração, preparando-se para colocar na avenida seus
animados figurantes.
Apesar do clima
francamente tropical do Rio de Janeiro, ainda se podia sentir no ar o frescor do outono,
que já ia a meio, e que prenunciava um inverno, ameno talvez, para quem está acostumado
ao rigor do clima europeu, mas frio para o morador habitual da cidade.
Pela alfândega, passam
os recém-chegados, fazendo uma verificação habitual de bagagem. Entre eles, um casal
simpático, cuja curiosidade denotava estar vindo ao Brasil pela primeira vez. Entre os
volumes, um material inusitado: dezenas e dezenas de quadros, de vários tamanhos, que
não dava para apreciar, protegidos que estavam por uma segura embalagem, apenas rasgada
aqui e ali, para conferir a exatidão da mercadoria declarada.
Ele era o pintor Artur
Alves Cardoso, que neste mês, completava seus 46 anos e vinha para realizar uma
individual no «Gabinete Português de Leitura». Ela, sua esposa, a jovem Lavínia de
Sacadura Bretes, dez anos mais nova, e companheira de uma longa jornada. Ambos,
maravilhados com o espetáculo descortinado aos olhos, desde a entrada do navio à baía.
Rio de Janeiro era mesmo uma cidade maravilhosa!
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Um bom
alicerce |
Artur
Alves Cardoso nasceu em Lisboa em 17 de maio de 1882, predestinado a ser um dos grandes
nomes da pintura portuguesa.
Arte é
algo que vem da alma, que se traz do nascimento, como um dom divino, que Deus coloca aqui
ou ali, a seu próprio Juízo, por razões que um simples mortal desconhece. A escola
aprimora o dom, não tem o poder de concedê-lo. E o menino Artur o trazia desde o berço,
como revelavam seus primeiros flertes com o desenho.
Não
tardou que os país lhe reconhecessem a força que o impulsionava para a pintura e, quando
tinha ele apenas 13 anos, matricularam-no na Escola de Belas-Artes de Lisboa.
Foram sete
anos longos e difíceis, às voltas com o desenho, a geometria, o trato com os pincéis e
as tintas, a familiaridade com a perspectiva. Nisso o ajudou o grande mestre Carlos Reis
(Carlos Antônio Rodrigues dos Reis 1863-1940), paisagista de primeira mão, que
percebeu a inclinação do aluno para este gênero.
Em
1902, recebeu seu certificado final. Era o momento de reiniciar a vida, caminhando por
seus próprios pés, num ofício em que ser bom era insuficiente: vencia quem fosse o
melhor.
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O Grupo
Silva Porto |
Por essa época, em Barbizon, pequena aldeia
francesa, jovens pintores começaram uma experiência quase inédita, abandonando os
estúdios para plantar seus cavaletes nos campos, captando formas e cores ao natural.
Verdade que, décadas atrás, os impressionistas também faziam isso, facilitados pela
inovação das tintas embaladas em pequenas bisnagas, de fácil transporte, e já
misturadas em uma grande variedade de tons.
Mas a novidade
passou e a tendência continuou sendo ir à fonte apenas para traçar esboços em papel,
onde se fazia as anotações técnicas. Somente após, no ateliê, servindo-se desses
rabiscos, a tela ia sendo composta. Assim, a fidelidade das cores dependia muito da
memória do pintor e de sua capacidade em gravá-las na mente.
Coube a Silva Porto (Antônio Carvalho da Silva 1850-1893), seguindo a experiência
francesa, a incumbência de criar, em Portugal uma escola ao ar-livre, que continuou
existindo após sua morte.
Era o
Grupo Silva Porto, ao qual Alves Cardoso se engajou, incentivado mesmo por seu antigo
mestre, Carlos Reis, que outrora fora aluno do grande mestre Silva Porto e pertencera
àquele grupo. Agora, devolvia ao convívio dos ar-livristas um discípulo seu para viver
as mesmas experiências.
O
contato com a natureza é por si edificante. Já, levar a natureza consigo, fixada na tela
com todo seu cromatismo, tem algo de divino. E os quadros se transformavam em paisagens
estonteantes, que iam espalhando a fama de seu criador, o qual, a esta altura, não
conseguia mais ser ignorado. Se não era um artista completo, atingira um patamar em que
podia ser visto, comparado, elogiado, criticado.
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A viagem
ao exterior |
Não tardou em que Alves Cardoso, sentindo-se em
condições, participasse do concurso anual para bolsas de estudos fornecidas pela coroa
para aperfeiçoamento no exterior.
Sobressaindo-se aos demais concorrentes, o pintor ganhou-a com mérito e viajou a Paris,
onde teve aulas com Cormon e Jean-Paul Laurens.
De lá,
viajou para a Bretanha, uma península ao noroeste da França, na orla do canal da Mancha.
A distância era grande, os caminhos difíceis, mas valeu a jornada. Visitar a Bretanha
era como abrir um grande álbum de cartões postais, cada paisagem mais bonita que a
outra. Foi um período de grande produtividade para o pintor, que pôde compor uma série
de trabalhos tendo como tema aquela região.
Se a
França, vanguarda das artes, lhe dera um contato com o presente, tornava-se agora
necessário mergulhar no passado. A próxima visita era destinada à Itália, repositório
das grandes artes de todos os tempos.
Percorrer
Roma, Florença, Pádua, Veneza, não é fazer uma caminhada pela geografia, é trilhar
pelos caminhos do tempo. Talvez seja nada para o turista acidental, mas, para a
sensibilidade de um pintor, o impacto é grande, deixando impressão indelével que,
queira ele ou não, irá influenciar em sua arte para todo o sempre.
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Estrada
aberta para
o futuro |
Em 1909,
com um vasto cabedal artístico e cultural, o pintor retorna à sua terra natal.
Em
Portugal, não lhe faltou reconhecimento. Nas duas décadas que se sucedem, sua produção
é significativa, rendendo seguidos prêmios, como os que se seguem:
- 1914 Medalha de Ouro da Sociedade Nacional de Belas-Artes de
Lisboa.
- 1915 Medalha de Ouro na Exposição Panamá-Pacífico.
- 1916 Medalha de Honra da Sociedade Nacional de Belas-Artes
de Lisboa.
- 1917 Medalha de Honra da Sociedade Nacional de Belas-Artes
de Lisboa.
- 1940 Condecoração (póstuma), concedida pelo presidente da
República, como Grande Oficial de Santiago da Espada.
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O artista
e a obra |
Ainda não
se conseguiu catalogar a obra de Alves Cardoso, resultado de mais de três décadas de
intenso trabalho. A maior parte dela se encontra em Portugal. No Brasil há pelo pelo
menos uma centena de quadros, alguns dos quais passam, vez por outra, pelos leilões de
arte.
Todavia,
reuni-los em um catálogo é um trabalho gigantesco, que depende principalmente da
colaboração dos colecionadores. É a montagem de um quebra-cabeças que só o tempo irá
conseguindo resolver.
Entre os
principais trabalhos, pode-se mencionar: Aproveitando o tempo, Cozinha do senhor Abade,
Os meus modelos, A merenda, Pausa Forçada, A morte do boi, O rebanho, O outono, Cair da
tarde, Arredores de Chaves, A cabreira, Lição de Leitura, À hora da janta, e, é
claro, a comovente simplicidade de Sorriso de Trás-os-Montes.
Na sala de
sessões da Assembléia da República (Congresso Nacional), existem três painéis,
representando respectivamente: A Ciência, as Artes e as Indústrias; A Pátria, a Paz
e a Fortuna; O Comércio e a Agricultura.
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Fim de
jornada |
Em maio de 1928, Alves Cardoso e sua esposa Vina
fazem sua única e derradeira viagem ao Brasil. Em 7 de julho, ele inaugura exposição no
Gabinete Português de Leitura. Em 7 de agosto, há o encerramento, quando mais 14 quadros
são vendidos.
Sua
permanência no Rio de Janeiro, prevista para dois meses, acaba se prolongando por meio
ano e só não se estendeu mais porque o pintor tinha compromissos assumidos em sua terra.
Com
efeito, teria de retornar a Portugal para cuidar da decoração do anfiteatro da
Maternidade Dr. Alfredo da Costa, em Lisboa, constante de um tríptico, um retrato,
e mais três painéis. Todo esse trabalho lhe tomaria cerca de um ano.
Era só
uma interrupção, imaginava. Haveria de retornar ao Brasil, que ele aprendera a amar, e
retomar a obra interrompida. Pelo menos, era o que pensava.
O destino,
entretanto, lhe armara surpresas. Ainda no Brasil, sentira algumas indisposições que, se
supunha, eram passageiras e sem maior gravidade. Porém, já em Portugal, a doença não
lhe deu tréguas e seu estado de espírito ficou estampado nos quadros que pintou, como Um
dia triste e A morte do boi, seu último trabalho.
Em janeiro
de 1930, fez uma visita ao seu grande amigo, o padre Silvino da Nóbrega, residente em
Samaiões. De volta a Lisboa, não conseguiu vencer sua última batalha contra o mal que o
atormentava, vindo a falecer em 10 de março de 1930, dois meses antes de completar 48
anos de idade.
Se para
ele a vida foi madrinha, a morte foi madrasta. Sua carreira sofreu uma interrupção fatal
quando Alves Cardoso se achava no apogeu da arte que praticava, quando se preparava para
alçar vôo a pontos mais distantes de seu universo criador.
Tivesse voltado
ao Rio, como pretendia, por certo sua presença aqui seria parte indelével da história
da arte brasileira, como aconteceu a outros tantos pintores que para cá vieram e tiveram
mais tempo para mostrar sua arte. (Texto
de Paulo Victorino).
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