Gótico e Flamengo
(+/- de 1150 a 1500)
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Após o despertar do mundo românico, a Europa da baixa Idade Média (das cruzadas até o século XV), conhecida como Europa das catedrais, experimentou excepcional apogeu cultural, político e econômico, cujo expoente artístico manifestou-se no florescimento do gótico.

     O termo gótico, de início empregado em sentido pejorativo (arte dos godos) pelos artistas do Renascimento, designa um conjunto de manifestações artísticas desenvolvidas entre meados do século XII e início do XV -- em alguns lugares, até o século XVI. Tais manifestações foram possibilitadas pela evolução das técnicas de construção, com o aparecimento do arco ogival, por exemplo, e em conseqüência do surgimento de uma forma de vida e uma cultura urbanas, dominadas pela nova burguesia comercial.

Escultura

      As principais características da escultura gótica são a tendência ao naturalismo e a busca da beleza ideal. Em oposição à rigidez e abstração próprias do românico, os escultores góticos pretenderam imitar a natureza e tanto reproduziram pequenos detalhes vegetais como figuras dotadas de certo movimento e expressividade.

     O tipo de religiosidade havia mudado em relação ao da alta Idade Média, e estabeleceu-se uma relação mais direta com a divindade. Ante o todo-poderoso Deus românico, o gótico centrou-se nas figuras de Cristo e da Virgem; ante o hieratismo anterior daquele estilo, buscou a humanidade das figuras divinas.

     Nos pórticos das catedrais narravam-se em escultura, com clara finalidade didática, os principais temas religiosos, como a vida de Cristo e da Virgem, a Ressurreição e o Juízo Final, e até alguns profanos, como as estações do ano ou o zodíaco. No fim do gótico, a escultura em relevo acabou por invadir completamente as fachadas. Paralelamente a estas, o relevo se desenvolveu em retábulos, monumentos funerários e bancadas de coros, lugares em que, às vezes, se chegou a empregar a madeira. A escultura em redondo teve desenvolvimento menor e em geral se dedicou à imagem de culto.

     Durante a evolução do gótico, a escultura exterior foi-se libertando do limite arquitetônico para adquirir volume e movimento próprios. Muitas vezes as figuras se relacionavam entre si e expressavam sentimentos. Os panejamentos foram ganhando mobilidade e, em muitos casos, deixaram intuir a anatomia, representada cada vez melhor. Depois de um período de grande expressividade, a escultura gótica evoluiu, na fase final, para um patetismo excessivo.

     A escultura gótica se estendeu da zona da Île-de-France, seu primeiro foco, a outras regiões e países europeus. Destacam-se as fachadas dos cruzeiros da catedral de Chartres, assim como o portal dedicado à Virgem, na Notre-Dame de Paris, e as fachadas de Amiens e Reims, todas do século XIII.

     Durante o século XIV verificou-se um alongamento das formas e a escultura pôde então separar-se do limite arquitetônico. No fim desse mesmo século criou-se em Dijon, na corte dos duques de Borgonha, uma brilhante oficina escultórica, onde trabalhou Claus Sluter, autor do "Poço de Moisés" e do sepulcro de Filipe II o Audaz.

     Na Itália verificou-se um abandono progressivo da estética bizantina dominante, graças à chegada do gótico francês e à influência da escultura clássica. Os melhores representantes foram Nicola Pisano, com o púlpito do batistério de Pisa; Andrea Pisano, que fez a primeira porta do batistério de Florença; e Arnolfo di Cambio.

     Na Espanha, a escultura soube transformar os modelos importados, segundo um estilo particular, e tendeu para um misticismo severo e de intenso realismo. A escultura de portais seguiu o exemplo francês, como ocorreu com as portas do Sarmental e da Coronería, na catedral de Burgos, ou com a "Virgem branca" no mainel da fachada principal da catedral de León.

     No século XIV, a escultura exterior das catedrais tornou-se mais minuciosa, por influência das obras em marfim e da arte mudéjar. Datam dessa época a Porta do Relógio da catedral de Toledo, o portal da igreja de Santa Maria de Vitória e a Porta Preciosa da catedral de Pamplona. O conjunto mais importante da escultura gótica do século XIV está na Catalunha e é formado por sepulcros e retábulos de clara influência italiana, como o túmulo de D. João de Aragão.

     No século XV a influência da Borgonha e de Flandres tornou-se dominante e muitos mestres dessas nacionalidades chegaram à península ibérica. Em Castela destacaram-se os trabalhos de Simão de Colônia (São Paulo de Valladolid), Egas Cueman (portal dos Leões da catedral de Toledo), Juan Guas (San Juan de los Reyes de Toledo) e Gil de Siloé (sepulcros de João II e Isabel de Portugal na cartuxa de Miraflores). Em Sevilha, a influência flamenga mostra-se na obra de Lorenzo Mercadante, autor do sepulcro do cardeal Cervantes. Em Aragão, a estética borgonhesa se fez sentir na obra de Guillermo Sagrera.


Pintura

     Com a redução da extensão da parede nas igrejas, restringiu-se a pintura mural, que ficou relegada principalmente a salas capitulares e edifícios civis. Em seu lugar, as igrejas góticas se encheram de vitrais, que transformaram os efeitos luminosos em jogos pictóricos. Os mais destacados estão nas catedrais francesas de Chartres e Notre-Dame de Paris, e na de León, na Espanha.

     Também aumentou a produção de tapeçarias, que decoravam as paredes de palácios e casas senhoriais, e ganharam especial expansão a arte da miniatura e a pintura de cavalete sobre madeira, mais fácil de transportar e destinada à composição de retábulos.

     Durante os séculos XIII e XIV, a pintura era linear, muito estilizada, de ritmo sinuoso e dominada pelo desenho e pela elegância formal. Pouco a pouco, a plenitude do românico cedeu lugar a figuras com algum sentido do volume, colocadas sobre fundos planos, quase sempre dourados, e, mais tarde, com certa sugestão de paisagem.

     Os temas pictóricos procediam das hagiografias, das Sagradas Escrituras e dos relatos cavalheirescos. Tal como sucedeu com a arquitetura e a escultura, esse primeiro estilo da pintura gótica também se originou na França, motivo pelo qual foi chamado franco-gótico. Suas melhores manifestações são vitrais e miniaturas.

     O refinado mundo cortesão, que concedia uma singular importância à mulher, produziu no século XV um novo estilo, conhecido como internacional, que unia a estética franco-gótica às influências dos mestres de Siena. Entre outras obras, destacaram-se as miniaturas do livro As riquíssimas horas do duque de Berry, de autoria dos irmãos Limbourg.

     Com o desenvolvimento das escolas florentina e de Siena nos séculos XIII e XIV, a Itália encaminhou-se para o Renascimento, com seus novos postulados de busca de volume e de preocupação com a natureza. Entre seus principais representantes devem ser mencionados Cimabue e Giotto, em Florença, e Duccio di Buoninsegna e Simone Martini, em Siena.

     A minuciosa pintura flamenga a óleo chegou a ser o estilo mais apreciado no mundo gótico. A utilização do óleo possibilitou cores mais vivas e brilhantes e maior detalhismo. Os iniciadores dessa escola foram os irmãos Hubert e Jan van Eyck, que pintaram o "Políptico da adoração do Cordeiro místico". Outros artistas destacados foram Roger van der Weyden, Hans Memling e Gérard David.


Neogótico

     A cópia acadêmica do gótico medieval, estilo aplicado à decoração e principalmente à arquitetura, que floresceu no século XIX, teve como base estética o romantismo e suas tendências medievalistas.

     Mas na Inglaterra, o neogótico, ou pseudogótico, já aparece por volta de 1755, adotado pelo escritor Horace Walpole, criador do chamado romance gótico, em sua famosa residência de Strawberry Hill, onde mandou até mesmo construir réplicas de autênticas ruínas góticas.

     O mais importante monumento neogótico na Inglaterra é o Parlamento, em Londres, construído entre 1837 e 1843 por Charles Berry e Augustus Pugin.

     Na França, a igreja da Notre Dame de Bonsecour, de Viollet-le-Duc, concluída em 1842. Nos Estados Unidos os arquitetos do neogótico são Ralph Adams Cram, autor do projeto da igreja de Saint John the Divine, e James Renwick, da catedral de Saint Patrick, ambas em Nova York. Na Alemanha, a catedral de Colônia, embora baseada em planos do século XIII e em fundações medievais, foi construída em estilo neogótico, em 1872, pretendendo ser um exemplo perfeito do gótico ideal.

©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.
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