Entende-se por românico o estilo artístico que se elaborou pouco
a pouco desde fins do século X, firmou-se, com características próprias, no início do
XI, e perdurou na Europa cristã até o início do século XIII, antecedendo ao gótico.
O termo "românico" foi criado, no
século XIX, por arqueólogos que procuravam relacionar essas manifestações medievais à
arte dos antigos romanos.
Distingue-se o românico pela preocupação em
distribuir os espaços de forma que a parte pudesse ser divisada em separado, mas sempre
subordinada ao todo, assim como por um sentimento de superfície e textura, manifestado na
adoção de materiais suntuosos, na decoração das superfícies, na riqueza do colorido e
na diversidade das texturas.
O românico surgiu num momento em que a
cristandade se encontrava empenhada em atividade criadora e expansionista, época de
reformas monásticas e de consolidação tanto do poder espiritual quanto do temporal.
A uniformidade do românico deveu-se, em
grande parte, à influência do mosteiro de Cluny, na França, que ditou novo modo de vida
monástica e também, correspondendo a ele, uma nova concepção arquitetônica.
Igualmente importante, na difusão do estilo, foram as peregrinações religiosas, em
especial a que se dirigia a Santiago de Compostela, na Espanha: as rotas seguidas
transformaram-se em canais para propagação das novas formas por toda a cristandade
européia.
A ornamentação escultórica, freqüente nos pórticos das igrejas,
era também costumeira nos capitéis das colunas. Correspondia, como a pintura, a uma
intenção didática: narrava episódios religiosos com a finalidade de doutrinar os
fiéis, em sua maioria iletrados, por meio de linguagem visual expressiva e clara.
A escultura e a pintura românicas não se propunham à representação
fiel da natureza. Tendiam, antes, a uma generalização dos traços e ao expressionismo,
por enfatizarem os estados psicológicos e por darem tratamento exagerado a certos
aspectos da fé, de modo a realçar as representações de interesse doutrinário, como as
do mal, do pecado e do inferno.
A figura humana era representada como arquétipo, e não com traços
individualizados. Havia convenções para a conformação dos corpos, as roupagens e a
escala das figuras, sendo maiores as que ocupavam posição superior na hierarquia (as
imagens de Deus, da Virgem e dos principais santos). Essa mesma hierarquização
prevaleceu na pintura.
A escultura estava intimamente associada à arquitetura. Suas figuras,
assim, ora se alongavam nas colunas, ora decoravam os capitéis e arquivoltas, ora ainda
compunham, nos tímpanos, cenas repletas de personagens. Nos tímpanos, espaços
semicirculares sobre as portas das igrejas, representavam-se as cenas de maior
importância: o Todo-Poderoso -- o Pantocrator --, rodeado pelos símbolos dos
evangelistas, ou o Juízo Final. Entre os exemplos mais significativos, destacam-se os de
Moissac e Vézelay, na França, bem como os tímpanos de San Isidoro de León e da
catedral de Santiago de Compostela, na Espanha. Além de assuntos oriundos do Antigo e do
Novo Testamentos, proliferaram na escultura os temas do cotidiano e os extraídos de
fábulas, nos quais se alcançou elevado grau de fantasia, notável nos capitéis de
claustros como o de Santo Domingo de Silos, na Espanha.
Com o tempo, a escultura românica tornou-se mais naturalista. Assim
como o estilo depurado se mostrou menos rígido, menos propenso às convenções, a
sujeição da escultura à arquitetura se mostrou menor, permitindo que as figuras
ganhassem bastante autonomia em relação ao espaço. Ocorreram evidentes progressos na
transcrição da anatomia humana, na técnica do modelado e na expressão de sentimentos,
à medida que a escultura românica distanciou-se da influência bizantina para atingir,
no século XII, seu apogeu.
Pouco restou da pintura mural românica, que em sua maioria decorava as
abóbadas e as absides das igrejas. Distinguem-se duas escolas, de regiões da França,
Itália, Alemanha e Espanha: a escola dos fundos claros, mais ligada à tradição
carolíngia; e a escola dos fundos azuis, influenciada pela miniatura e o mosaico
bizantinos. Os murais de fundo claro, em geral amarelo, valorizavam particularmente o
desenho -- em Saint-Savin-sur-Gartempe --, enquanto os de fundo azul sobressaíam pela
riqueza das roupagens cheias de pedrarias -- em Berzé-la-Ville --, lembrando a arte do
mosaico. Vários murais de igrejas dos Pireneus, como San Feliú de Guixols, San Clemente
de Tahull e San Cugat de Valles, foram removidos dos locais de origem para o acervo do
Museu de Arte da Catalunha, em Barcelona, um dos mais completos sobre o período. No final
do século XII, quando começou a se firmar na Alemanha e na França, a pintura mural
românica foi rapidamente suplantada, como decoração iconográfica, pelos vitrais
góticos.
A iluminura ou decoração de manuscritos foi, dentro das artes da cor,
a mais importante do período românico. Nos séculos X e XI recebeu a influência de
Bizâncio, mas guardou reminiscências da arte bárbara em suas folhagens e animais
estilizados, de entrelaçados caprichosos, sem começo nem fim, e de ricas cores entre as
quais o ouro era usado com abundância.